A saída de Santiago Peña da presidência do Paraguai pode reconfigurar o tabuleiro geopolítico na América Latina.
O presidente renunciou ao cargo nesta quinta-feira (05) após enfrentar acusações que poderiam levá-lo a um impeachment.
Peña foi sócio do Grupo Vázquez, controlador do banco Ueno, liquidado na última terça-feira (03) por falta de recursos para cobrir os empréstimos feitos. O principal problema é que o banco tinha cerca de 3 milhões de clientes — metade da população paraguaia — e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
O presidente foi sócio do grupo controlador até março de 2025, e o presidente do BC, Carlos Carvallo, tinha saído da direção do Ueno em 2023 para assumir o cargo.
Do lado público, ficaram retidos recursos da previdência, incluindo dinheiro de aposentados, além de fundos da ANDE e de Itaipu. Houve prisão de diretores do banco, queda dos títulos da dívida paraguaia e a renúncia do presidente do BC.
Deputados protocolaram um pedido de impeachment contra Peña e o vice, Pedro Alliana, por conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outras acusações. O futuro de Santiago Peña está indefinido, visto que o Congresso ainda precisa aceitar formalmente a renúncia. A abertura de impeachment pela Câmara já foi aprovada em unanimidade, agora a decisão está nas mãos do Senado.
Nova relação na diplomática do Paraguai
Santiago Peña é um presidente de partido conservador e oficializou o Paraguai como membro do Escudo das Américas, aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
João Estevam, professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, lembra que o Paraguai tem sido um aliado relativamente sólido dos EUA na América dos Sul nos últimos anos, tendo, inclusive, aprovado a possibilidade de que tropas norte-americanas utilizassem instalações militares e bases militares no país sul-americano.
Além disso, compõe a iniciativa Escudo das Américas, contribuindo para criar uma legitimidade sobre o conceito de narcoterrorismo aplicado à região, concordando com a categorização de alguns grupos do crime organizado, incluindo no Brasil, como grupos narcoterroristas.
Ainda, em parceria com Javier Milei, presidente da Argentina, Peña tentava manter negócios com Taiwan — e não com a China — e lançar um bloco latino-americano de direita, o que não aconteceu até o momento.
Estevam afirma que, com a saída de Santiago Peña, é possível esperar um maior acercamento do Paraguai com seus vizinhos, independente do teor ideológico, como uma forma de buscar legitimidade do antigo vice-presidente, atual presidente, diante da região.
Apesar de o alinhamento com os EUA permanecer no curto prazo, como forma também de manter algum anteparo institucional, o Paraguai agora deve buscar eventual continuidade de uma estabilidade nas relações diplomáticas, inclusive no Brasil.
"Talvez um governo mais propenso a dialogar, ou menos alinhado ideologicamente com a direita, como uma forma de buscar ser mais pragmático nas relações com os países da região, pelo menos num primeiro momento, é isso que pode ser esperado", afirma o professor da Anhembi Morumbi.
E o Brasil?
O Brasil, por sua vez, é um dos principais parceiros comerciais do país. Porém, ainda é cedo para falar em mudanças concretas na relação dos países após a renúncia de Peña.
Como o partido no poder continua o mesmo, a tendência é de continuidade.
O vice do presidente reunciado, Alliana, já atuava em política externa e costuma destacar a parceria com o Brasil no Mercosul e em Itaipu, embora já tenha rebatido publicamente uma fala do presidente Lula sobre a Guerra da Tríplice Aliança.
Os pontos de atenção com essa mudança são: Itaipu, o comércio na fronteira e o fato de que um governo fragilizado e focado na crise interna tende a ter menos fôlego para grandes negociações bilaterais no curto prazo.
Efeitos da crise bancária para brasileiros
A liquidação do Uedo soma-se à crise financeira que o Paraguai já enfrentava. Agora, no entanto, os fundos garantidores não serão suficientes para diminuir o prejuízo.
O Paraguai era utilizado nos últimos anos, especialmente por estrangeiros, como um país interessante para os investidores. Porém, a economia paraguaia é complexa e manteve uma cobrança de tributos baixa considerando o tamanho da região por muito tempo, o que acabou fragilizando o sistema bancário.
Para além doimpacto muito grande na microeconomia, economia pessoal e familiar, o professor Doutor Junior Ivan Bourscheid, do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política (ILAESP) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), destaca outra questão importante: não apenas empresas, mas principalmente muitos cidadãos brasileiros estavam procurando o Paraguai ultimamente como um bolsão de segurança e estabilidade em meio ao aperto monetário por aqui.
Para quem tem conta no Ueno, seja cidadão paraguaio ou estrangeiro, o Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 75 salários mínimos por pessoa física ou jurídica. Quem tem valores acima do teto depende do balanço final da liquidação, sem garantia de recuperar tudo.
Para as empresas, o risco maior é indireto. Fornecedores brasileiros podem ter atrasos nos pagamentos se seus clientes paraguaios dependerem de recursos bloqueados. Empresas brasileiras com operação no país e o comércio de Ciudad del Este, muito ligado ao consumidor brasileiro, estão entre os mais expostos.
Já o brasileiro sem negócios no Paraguai não deve sentir impacto direto, e cartões de bancos brasileiros não foram bloqueados. O BC paraguaio sustenta que o problema é isolado no Ueno e não do sistema como um todo.
Segundo o professor, no Paraguai o mercado financeiro é muito mais aberto do que o mercado brasileiro e muito vinculado ao exterior. Porém, quando esse sistema financeiro acaba crescendo além da sua capacidade real de manutenção, estouram essas bolhas e isso leva um problema para o estado Paraguai, gerando mais ruído e problemas políticos e econômicos dentro do país.
Renúncia não resolve o problema
O presidente tentou se blindar com a renúncia, visto que ex-mandatários viram senadores vitalícios de acordo com a Constituição do Paraguai. No entanto, a Câmara continuou com a abertura do impeachment e, se for considerado culpado em julgamento, perde a cadeira como parlamentar.
Segundo Villar, da BMJ, quem defende a renúncia diz que Peña já não tinha apoio no Congresso, que um impeachment longo prolongaria a instabilidade enquanto milhões de pessoas estão sem acesso ao dinheiro, e que a saída permite ao novo governo focar em pagar os correntistas. Já os críticos veem a renúncia como uma forma de escapar do juízo político e da responsabilização — parte da oposição pediu que o Congresso rejeitasse a renúncia e seguisse com o impeachment.
Bourscheid, da UNILA, indica que é necessário observar como vai se dar articulação interna dentro do próprio Partido Colorado, o do governo, porque ali está a base governista e há também certa oposição dentro do partido.
Tendo a renúncia de Peña, ou mesmo sendo deposto pelo juízo político, quem assume a presidência é o vice-presidente Pedro Aliana e, para próximo vice será uma eleição indireta dentro do próprio Congresso
"É preciso ver que tipo de articulação que vai se dar, porque dentro das facções do coloradismo poderia se colocar uma possibilidade de Aliana assumir como presidente, aceitar a renúncia de Peña para dar as prerrogativas, mas também dar espaçoss de poder para a oposição dentro do próprio partido", afirma o professor.
Pela Constituição, quem assume é o vice, Pedro Alliana, que completaria o mandato até agosto de 2028, mas ele também foi incluído no pedido de impeachment.
Ainda assim, a bancada governista sinalizou que não apoiaria sua destituição. Alliana é muito próximo de Cartes e já era pré-candidato à Presidência em 2028. Se ele assumir, o Congresso escolhe um novo vice.
Veja mais notíciais de O Brasilianista nas redes sociais

