Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno não encontraria uma Europa apenas observando o Brasil à distância.
Encontraria empresas europeias controlando redes de energia que abastecem dezenas de milhões de brasileiros, bancos com operações bilionárias, montadoras em meio a ciclos de investimento que só terminam em 2028 ou 2030 e uma parceria militar com a França que inclui o primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear.
O tamanho dessa exposição ajuda a mudar a pergunta sobre a reação europeia. O estoque de investimentos diretos da União Europeia no Brasil alcançava €276 bilhões em 2024, segundo dados do Eurostat.
O Brasil era o quarto maior destino do investimento europeu fora do bloco, atrás apenas de Estados Unidos, Reino Unido e Suíça.
Dados reunidos pelo Ministério da Fazenda mostram uma concentração ainda mais significativa.
Considerando o estoque europeu de investimento direto no Brasil, França respondia por 23%, Espanha por 17%, Países Baixos por 16,5% e Alemanha por 13%. Somados, os quatro países concentravam 69,5% do investimento da União Europeia.
Flávio chega ao segundo turno defendendo redução de gastos, revisão de regras econômicas, retomada da agenda de privatizações e adesão à OCDE.
Ao mesmo tempo, prometeu flexibilizar o licenciamento ambiental e declarou que o país não abrirá mão da exploração de combustíveis fósseis.
Seu próprio plano de governo, contudo, também promete consolidar o mercado de carbono e ampliar instrumentos de remuneração pela preservação ambiental.
França é o caso mais sensível
França tem US$ 69 bilhões (R$ 344,85 bilhões) aplicados no Brasil e uma parceria militar que não cabe em uma troca de governo.
Pelo critério do controlador final do investimento, empresas francesas mantinham US$ 69,3 bilhões (R$ 346,35 bilhões) aplicados no Brasil em 2024, colocando o país como o segundo maior investidor estrangeiro na economia brasileira, atrás apenas dos Estados Unidos.
Mais significativo, 70% de todo o investimento francês na América Latina está concentrado no Brasil, segundo o Tesouro francês.
O dinheiro está espalhado por varejo, seguros, bancos, indústria, transportes e energia. Carrefour, BNP Paribas, Renault, Airbus, Alstom e TotalEnergies estão entre os grupos franceses com presença relevante no país.
Na energia, a TotalEnergies trata o Brasil como um de seus mercados estratégicos de crescimento.
Em março de 2026, iniciou a produção no projeto Lapa South-West, na Bacia de Santos, acrescentando potencial de 25 mil barris por dia.
A companhia também participa dos projetos de Atapu e Sépia, com novas etapas previstas para 2029.
Paris e a defesa
O Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o Prosub, nasceu da cooperação estratégica entre Brasil e França.
O projeto prevê quatro submarinos convencionais e o primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear.
A própria Marinha afirma que, entre as potências capazes de construir submarinos nucleares, a França foi a única que aceitou transferir ao Brasil o nível de tecnologia necessário para desenvolver o projeto.
Isso significa que Paris provavelmente terá duas prioridades diferentes caso Flávio chegue ao Planalto.
Na diplomacia, haverá pressão pela preservação dos compromissos ambientais assumidos pelo Brasil. Na defesa e nos negócios, a tendência será buscar continuidade contratual.
Espanha coloca bilhões
Se a França possui a relação mais estratégica, a Espanha talvez tenha a exposição empresarial mais evidente.
Em maio deste ano, a espanhola Iberdrola anunciou R$ 50 bilhões em investimentos no Brasil até 2030, através da Neoenergia. O valor será direcionado principalmente à expansão, modernização e digitalização das redes elétricas.
A companhia atende cerca de 40 milhões de brasileiros por meio de cinco distribuidoras e possui concessões que se estendem por décadas.
Antes de anunciar o novo ciclo de investimentos, a Iberdrola também ampliou sua participação na Neoenergia até assumir o controle integral da subsidiária brasileira.
O Santander
Em julho, o banco espanhol anunciou uma oferta de até €1,908 bilhão (R$ 10,70 bilhões) para adquirir a parcela do Santander Brasil que ainda não controlava.
A operação representa uma nova demonstração de confiança no mercado brasileiro poucos meses antes da eleição presidencial.
A Telefónica também depende fortemente do país. A operação brasileira, por meio da Vivo, encerrou junho com quase 119 milhões de acessos, enquanto receita e Ebitda cresceram em ritmo superior ao registrado em parte das demais operações do grupo.
A própria Telefónica afirmou que Espanha e Brasil estavam puxando seus resultados em 2026.
Energia, telecomunicações e bancos são setores profundamente regulados. Para grupos como Iberdrola, Telefónica e Santander, importa menos se o presidente brasileiro está ideologicamente próximo do governo espanhol e mais se contratos, concessões e regras permanecerão previsíveis.
Alemanha tem fábricas
O estoque de investimento direto alemão no Brasil estava em aproximadamente €28,8 bilhões em 2024, segundo dados do Bundesbank reunidos pela agência federal Germany Trade & Invest.
Boa parte dessa relação está vinculada à indústria. A Volkswagen mantém quatro fábricas no Brasil e está executando um ciclo de R$ 16 bilhões em investimentos até 2028.
A companhia planeja 17 novos veículos no período e iniciou em 2026 uma nova fase de eletrificação da produção brasileira.
O número mostra o tamanho da integração com fornecedores brasileiros. Só em 2026, a Volkswagen previa aproximadamente R$ 35 bilhões em compras de peças e outros insumos.
Dos cerca de 750 fornecedores da companhia, 80% possuem operações no Brasil.
Essa cadeia torna a relação Brasil-Alemanha particularmente sensível a mudanças em tributação, política industrial, importação de componentes e incentivos à eletrificação.
É também onde o acordo entre Mercosul e União Europeia pode produzir um efeito mais imediato.
Os principais produtos vendidos pela Europa ao Mercosul incluem máquinas, produtos químicos, farmacêuticos e equipamentos de transporte, justamente setores nos quais a indústria alemã possui grande competitividade.
Para Berlim, portanto, uma eventual administração Flávio pode representar uma oportunidade caso avance em abertura comercial e redução de barreiras.
A Alemanha está entre os países europeus que mais vinculam política comercial, financiamento e investimento externo a critérios climáticos.
Uma flexibilização significativa da legislação ambiental brasileira pode criar tensão exatamente quando empresas alemãs esperam aproveitar a abertura do Mercosul.
Países Baixos
Pelo levantamento do Ministério da Fazenda, o país responde por 16,5% do estoque europeu de investimento direto no Brasil, ficando atrás apenas de França e Espanha.
Dados do Banco Central, quando consideram o investidor imediato, colocam os Países Baixos em posição ainda maior, empresas registradas no país representam 38,2% da posição europeia de investimento direto no Brasil.
Mas isso não significa necessariamente que todo esse capital seja originalmente holandês.
Os Países Baixos funcionam há décadas como um dos grandes centros financeiros e societários da Europa.
Holdings utilizadas por multinacionais de outros países aparecem estatisticamente como investidores holandeses quando o investimento chega ao Brasil por meio dessas estruturas.
Relação comercial física
Os próprios documentos brasileiros apontam os Países Baixos entre os principais destinos das exportações brasileiras para a Europa, em grande parte pelo papel do porto de Roterdã como porta de entrada e redistribuição de mercadorias no continente.
E, apenas duas semanas antes das eleições brasileiras, Brasil e Países Baixos assinaram um novo Marco de Cooperação Estratégica, incluindo comércio, clima, direitos humanos e segurança.
Flávio, portanto, poderá assumir, caso vença, uma relação que acaba de ser institucionalmente ampliada.
Portugal tem menos capital
Portugal não aparece entre os quatro maiores investidores europeus no levantamento do Ministério da Fazenda, mas sua exposição possui uma característica específica.
A portuguesa EDP decidiu em maio concentrar dentro da EDP Brasil suas operações de geração, comercialização e fornecimento de eletricidade.
A subsidiária de renováveis opera 1,8 GW de capacidade instalada, divididos entre energia eólica e solar.
O plano de investimentos da companhia também prevê crescimento da base regulatória brasileira de redes nos próximos anos.
Isso coloca Lisboa em situação parecida com Madri, o interesse prioritário não está apenas no comércio bilateral, mas na regulação do setor elétrico brasileiro.
Flávio já declarou que pretende reorganizar a legislação energética, incentivar fontes limpas sem abandonar petróleo e gás e ampliar a segurança jurídica para investimentos.
O acordo Mercosul-UE
Existe uma diferença fundamental entre uma eventual vitória de Flávio em 2026 e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência em 2019.
Desta vez, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia já começou a funcionar.
O texto foi assinado em janeiro e o acordo comercial provisório entrou em vigor em 1º de maio de 2026.
Ele cria regras para um mercado de aproximadamente 720 milhões de pessoas e PIB combinado superior a US$ 22 trilhões.
Entre maio e os meses seguintes, as exportações brasileiras para a União Europeia já começaram a apresentar crescimento em diferentes produtos.
O comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, afirmou na semana anterior às eleições que a estratégia atual do bloco é justamente ampliar acordos comerciais e diversificar parceiros.
Isso reduz o espaço para uma ruptura econômica motivada apenas por diferenças políticas.
Preservar regras do mercado elétrico
A Europa não precisa decidir se gosta de Flávio; precisa decidir como negociar com ele
A eleição brasileira também ocorre num momento em que Bruxelas tenta reduzir dependências excessivas de grandes potências e diversificar parceiros comerciais.
Em junho, a União Europeia anunciou no Brasil €260,8 milhões em novos investimentos no corredor digital EllaLink, que conecta diretamente Europa e América Latina por cabo submarino.
A missão europeia ao país tratou ainda de minerais críticos, energia limpa, transportes e tecnologia.
É uma relação que já foi além de soja, carne e automóveis. A Europa vê o Brasil como fornecedor potencial de minerais críticos, energia, alimentos e ativos ambientais e, ao mesmo tempo, como mercado para máquinas, produtos químicos, medicamentos, serviços financeiros e tecnologia.
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