O Pix, uma das formas de pagamento mais populares do país está prestes a dar seu próximo grande passo: a internacionalização.
Entre os projetos mais avançados está a integração com a União Europeia, negociada por meio do TARGET Instant Payment Settlement (TIPS), a infraestrutura de pagamentos instantâneos do Banco Central Europeu (BCE).
Uma apresentação do Banco Central Europeu ao TIPS Contact Group de junho de 2026 confirma que a integração entre o Pix e o TIPS está em estágio inicial.
Segundo o documento, o corredor Brasil-UE está na fase de pré-investigação, com estudos em andamento entre junho de 2025 e setembro de 2026, "tratando em alto nível diferentes áreas (técnica, legal, segurança, operações)" — ainda sem data prevista para as fases seguintes (exploração e realização).
Para efeito de comparação, outros corredores internacionais do TIPS estão mais avançados: a integração com o UPI da Índia já está na fase de realização, com piloto previsto para o primeiro semestre de 2027, e o corredor com a rede Nexus, que conecta sistemas de pagamento instantâneo do Sudeste Asiático, segue em fase de exploração até novembro de 2026.
O documento também detalha o cronograma de introdução dos pagamentos transfronteiriços no TIPS de forma geral, dividido em três etapas: interação entre TIPS e outras plataformas (concluída, com expansão prevista para novembro de 2026), câmbio intra-TIPS entre moedas já hospedadas no sistema (concluído em outubro de 2025) e, por fim, os links técnicos com outras plataformas — categoria que inclui o Pix — com previsão de avanços "a partir de 2027".
Como funcionaria?
Para o planejador financeiro e especialista em investimentos Jeff Patzlaff, a experiência do usuário deve ser praticamente idêntica à de um Pix comum.
"Imagine você tomando um café em Lisboa, pagando um fornecedor na Itália ou comprando um curso na Alemanha. Você saca o celular, lê um QR Code e faz um Pix. O dinheiro sai da sua conta em reais e entra na conta do recebedor em euros, em questão de segundos", explica.
Para o especialista, o próprio sistema calculará o câmbio no momento da transação e funcionará 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive feriados. Ao eliminar intermediários, ele avalia que o Pix internacional deve tornar as taxas muito mais baratas e transparentes do que as do cartão de crédito internacional ou das casas de câmbio.
Augusto Parente, especialista em investimentos e sócio da AW Capital, detalha o papel dos chamados provedores de liquidez.
"Provedores de liquidez (FX Providers) serão integrados a rede para realizarem cotações competitivas e converter a moeda de BRL para EUR em tempo real, permitindo a liquidação quase que instantânea sem depender da rede SWIFT."
O desafio da volatilidade cambial
Ambos os especialistas apontam a flutuação das moedas como o principal obstáculo técnico do projeto. Patzlaff explica que, como a transação do Pix é feita quase instantaneamente, o sistema precisa "congelar" a cotação exata daquela fração de segundo para garantir que quem envia sabe exatamente quanto está pagando, e quem recebe tem o valor combinado na conta.
"Para isso funcionar sem gerar prejuízos, os bancos centrais precisam criar um ambiente onde as instituições financeiras forneçam essa liquidez, ou seja, ter euros e reais disponíveis para troca imediata com taxas justas", afirma.
No caso do sistema cobrar um spread muito alto para se proteger da volatilidade, o custo final para o usuário deixará de ser atrativo.
Parente concorda que esse é o principal desafio técnico dessa operação, e traça um contraste com o modelo atual.
"Diferentemente da rede Swift que fecha a cotação e liquida o câmbio em D+1 ou posterior, nessa modalidade, a liquidação será instantânea, portanto, os algoritmos terão que travar a taxa exatamente na hora", diz o especialista em investimentos.
Ele pondera, porém, que a necessidade de reservas elevadas em ambas as moedas não deve ser um problema.
Revolução para o Banco Central
A integração representa a consolidação de uma revolução para o Banco Central, na avaliação dos especialistas.
"O Brasil já é uma vitrine de tecnologia financeira graças ao Pix, e essa integração eleva nosso patamar. A internacionalização transforma o Pix de uma conveniência doméstica em uma ponte direta do Brasil com a economia global, facilitando a vida de quem busca proteger, usar e diversificar seu patrimônio além das nossas fronteiras", afirma Patzlaff.
Parente também vê ganhos amplos: "vai ter uma grande eficiência econômica, facilita o e-commerce internacional e o turismo, além de fortalecer o real neste cenário."
A expectativa é de que o projeto deve posicionar o Banco Central brasileiro como um dos lideres em inovação de pagamentos.
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