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Política

A eleição virou feed

Os cinco deputados federais mais votados de 2026 têm menos de 40 anos e acumulam cerca de 38 milhões de seguidores apenas no Instagram

Eleição
Levantamento de O Brasilianista mostra como uma geração que transformou vídeos e confrontos em capital político ocupou o topo das urnas Foto: reprodução

Os cinco deputados federais mais votados de 2026 têm menos de 40 anos e acumulam cerca de 38 milhões de seguidores apenas no Instagram.

O Brasilianista mostra como uma geração que transformou vídeos, confrontos e engajamento em capital político ocupou o topo das urnas

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Às 20h30, a propaganda eleitoral ainda ocupa um espaço reservado na televisão brasileira.

São blocos, inserções de 30 segundos, divisão de tempo entre partidos e uma estrutura regulada pela Justiça Eleitoral.

Mas, quando as urnas do primeiro turno de 2026 foram abertas, os cinco nomes que apareceram no topo da eleição para deputado federal tinham construído boa parte de sua presença política em outro lugar, a tela do celular.

Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Erika Hilton, André Fernandes e Sâmia Bomfim foram os cinco candidatos a deputado federal mais votados do país.

Juntos, receberam 9.022.067 votos. O cruzamento feito por O Brasilianista mostra que os cinco acumulam aproximadamente 38 milhões de seguidores somente no Instagram, considerando os dados públicos de seus perfis às vésperas da votação.

A soma não representa 38 milhões de pessoas diferentes, porque um mesmo usuário pode acompanhar dois ou mais políticos, mas dá uma dimensão do alcance potencial dessas candidaturas.

Há outra característica comum. Nikolas tem 30 anos, Pavanato 28, Erika Hilton 33, André Fernandes 28 e Sâmia Bomfim 37. Nenhum dos cinco chegou aos 40 anos.

A média de idade do grupo é de pouco mais de 31 anos. O topo da votação para a Câmara em 2026 foi ocupado por uma geração que aprendeu a disputar atenção dentro da lógica das plataformas digitais.

A televisão continua existindo. O horário eleitoral continua sendo obrigatório. O TSE manteve em 2026 os programas em rádio e TV e determinou que as emissoras reservassem também 70 minutos diários para inserções eleitorais de 30 e 60 segundos.

Mas a pergunta deixada pelas urnas é se o horário eleitoral ainda é o principal lugar onde uma candidatura passa a existir para o eleitor ou se, antes dele, o algoritmo já fez esse trabalho.

Os cinco mais votados

DeputadoVotos em 2026Seguidores no Instagram às vésperas da eleição
Nikolas Ferreira (PL-MG)3.119.31822,4 milhões
Lucas Pavanato (PL-SP)3.038.4385,3 milhões
Erika Hilton (PSOL-SP)1.596.4725,1 milhões
André Fernandes (PL-CE)684.7323 milhões
Sâmia Bomfim (PSOL-SP)583.1072 milhões

 

A coincidência entre força digital e votação não aparece apenas no tamanho das audiências. Dos cinco primeiros colocados, quatro já disputavam a Câmara em 2022. Todos aumentaram substancialmente sua votação.

Nikolas passou de 1.492.047 votos em 2022 para 3.119.318 em 2026, crescimento de aproximadamente 109%.

Erika Hilton saiu de 256.903 para 1.596.472, aumento superior a 520%. André Fernandes passou de 229.509 para 684.732, avanço próximo de 198%.

Sâmia Bomfim saiu de 226.187 para 583.107, crescimento de aproximadamente 158%. Pavanato não disputou o mesmo cargo em 2022, impedindo uma comparação direta: em 2024, porém, havia sido o vereador mais votado da cidade de São Paulo, com 161.386 votos. Dois anos depois, ultrapassou os 3 milhões na disputa federal.

Nikolas no Instagram

Deputado foi condenado a pagar R$ 80 mil por transfobia Foto: reprodução

Na véspera da eleição, seu Instagram tinha 22,4 milhões de seguidores. O perfil registrava média próxima de 1,2 milhão de curtidas por publicação, segundo monitoramento público.

Entre 29 de setembro e 3 de outubro, ganhou aproximadamente 122 mil novos seguidores.

Um levantamento realizado meses antes pela Nexus já o colocava isoladamente como o deputado de maior relevância digital no Instagram entre os parlamentares analisados.

Em apenas 47 publicações consideradas no estudo, havia acumulado 62,5 milhões de interações.

Registros da Biblioteca de Anúncios da Meta reunidos pelo HubPolítico identificaram apenas dois anúncios associados à página de Nikolas no período monitorado, com gasto máximo estimado em R$ 198.

O alcance principal da conta, portanto, estava sustentado pela audiência orgânica construída ao longo de anos.

A dimensão eleitoral dessa rede apareceu em outro movimento. Nikolas não utilizou sua audiência apenas para pedir votos para si.

Durante a campanha, divulgou candidatos aliados em diferentes estados, entre eles o próprio Lucas Pavanato e André Fernandes. 

Pavanato

Pavanato afirmou que usará seu capital político recém-adquirido para priorizar temas de segurança pública e educação Foto: reprodução

Lucas Pavanato chegou aos últimos dias de campanha com cerca de 5,3 milhões de seguidores no Instagram.

Nos quatro dias anteriores a 3 de outubro, seu perfil ganhou aproximadamente 32 mil seguidores.

Seus conteúdos de maior engajamento recente incluíam confrontos políticos, liberdade de expressão, críticas ao Judiciário e pedidos de voto.

Além do alcance orgânico, houve investimento pesado em distribuição paga. Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta mostram que a página de Pavanato desembolsou aproximadamente R$ 1,2 milhão em anúncios nos 30 dias anteriores ao fechamento do levantamento, sendo cerca de R$ 587 mil apenas nos sete dias anteriores.

Desde 2020, o total registrado pela plataforma chegava a aproximadamente R$ 1,3 milhão.

Pavanato já havia explicado publicamente uma característica dessa estratégia. Em entrevista durante a campanha, afirmou que conteúdos de confronto costumam viralizar enquanto propostas legislativas têm dificuldade de produzir o mesmo engajamento. 

Erika Hilton

Erika Hilton recebeu ameaça de morte e adiou ida às urnas Foto: reprodução

Erika Hilton terminou a eleição com 1.596.472 votos, tornando-se a mulher mais votada da história da Câmara. Em 2022, havia recebido 256.903. Em quatro anos, multiplicou sua votação por mais de seis.

Seu Instagram reunia aproximadamente 5,1 milhões de seguidores às vésperas da eleição.

Meses antes do pleito, o levantamento da Nexus a colocava entre os parlamentares de maior relevância digital do país.

No X, 284 publicações analisadas pela empresa haviam produzido 49,9 milhões de interações, deixando Hilton atrás apenas de Nikolas entre os políticos considerados naquele recorte.

Sua campanha também investiu em distribuição paga. Nos 30 dias anteriores a 30 de setembro, a página de Erika gastou cerca de R$ 110 mil em anúncios da Meta.

Desde 2020, os pagamentos acumulados registrados pela plataforma chegavam a R$ 500 mil.

O CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, resumiu um ponto comum observado pelo levantamento da empresa: “o fator comum é a capacidade de criar identificação e engajamento recorrente com uma audiência específica”.

Sâmia e André

Candidato superou Ciro Gomes e se tornou o deputado mais votado da história do Ceará Foto: reprodução
André Fernandes chegou aos 684.732 votos no Ceará e terminou como o quarto candidato mais votado para deputado federal do país.

Sua trajetória política também começou associada à produção de conteúdo, antes de chegar à Câmara, ganhou projeção como youtuber ligado à direita.

Às vésperas da votação, acumulava aproximadamente 3 milhões de seguidores no Instagram.

Seu uso da publicidade digital também é significativo. A Biblioteca de Anúncios registra 904 anúncios entre 2022 e 2026, com investimento estimado entre R$ 2 milhões e R$ 2,6 milhões no período e pelo menos 132 milhões de exibições. 

Sâmia Bomfim presta queixa após ameaça de morte e estupro Foto: reprodução

Sâmia Bomfim, quinta colocada, chegou aos 583.107 votos e mantinha aproximadamente 2 milhões de seguidores no Instagram.

A campanha dela investiu cerca de R$ 248 mil na Meta nos 30 dias anteriores ao fim de setembro, segundo os relatórios públicos da plataforma.

No conteúdo publicado por Sâmia, o Banco Master aparecia como o assunto recente de maior engajamento no levantamento consultado, com cerca de 482 mil interações atribuídas à pauta. A escala 6x1 e pedidos de voto apareciam logo depois.

Banco Master, Nossa Senhora e bets

A campanha tradicional oferece ao político um tempo determinado para apresentar suas mensagens.

O feed funciona de outra forma. O político publica, mas quem decide o alcance inicial é um conjunto de sistemas de recomendação, reação dos usuários, compartilhamentos, impulsionamento e circulação entre plataformas.

Na reta final do primeiro turno, o debate digital foi tomado por episódios muito concretos.

A medida provisória de Lula que proibiu as bets e apostas esportivas gerou o maior engajamento entre os temas monitorados pela Palver entre 23 e 30 de setembro.

Ao mesmo tempo, viralizou a notícia falsa de que Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito, narrativa que levou o candidato ao TSE e mobilizou eleitores católicos.

Outro conteúdo de grande circulação foi uma fala de Lula sobre exames ginecológicos retirada de contexto, usada por adversários para associá-lo falsamente à pedofilia.

A campanha de Flávio também enfrentou forte repercussão pelo vazamento de mensagens de um ex-sócio e pelo áudio em que o senador pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Segundo o monitoramento, porém, a proibição das bets conseguiu superar todos esses episódios em alcance digital naquela semana.

O Banco Master também apareceu repetidamente entre os conteúdos de maior repercussão de candidatos monitorados.

Nos perfis de Sâmia e Erika Hilton, por exemplo, o caso figurava entre os assuntos recorrentes e de elevado engajamento nas semanas finais da campanha.

A dinâmica é diferente da televisão porque a agenda pode mudar em horas. Um vídeo gravado pela manhã pode chegar a milhões de celulares antes do Jornal Nacional, receber respostas, ser transformado em corte, circular no WhatsApp e voltar ao Instagram ou ao TikTok sob uma nova edição.

Televisão perdeu 

Pesquisa nacional do DataSenado, divulgada em março de 2026, mostrou que 54% dos brasileiros apontavam os meios digitais como principal fonte de notícias e atualidades, contra 37% que indicavam a televisão. Rádio, jornais e revistas impressos, somados, ficaram com 8%.

Dentro do grupo que prioriza meios digitais, o Instagram ocupava a primeira posição, citado por 32%, seguido pelos portais de notícias, com 17%, e pelo YouTube, com 11%.

Entre mulheres, 39% dos que utilizavam meios digitais apontavam o Instagram como principal canal de informação; entre homens, eram 26%.

Os próprios candidatos perceberam essa mudança. Dos 7.679 candidatos a deputado federal registrados em 2026, 5.493 informaram ao TSE utilizar Instagram na campanha. Isso representa aproximadamente 72% das candidaturas.

A Justiça Eleitoral também adaptou suas regras a esse ambiente. Para 2026, o TSE passou a exigir planos específicos de conformidade das plataformas, incluindo sistemas de recomendação, bibliotecas de anúncios, mensageria e serviços de inteligência artificial.

A propaganda digital começou em 16 de agosto e o impulsionamento pago teve regras próprias.

WhatsApp

Instagram, TikTok, YouTube e X permitem observar, pelo menos parcialmente, curtidas, comentários, visualizações e seguidores. O WhatsApp cria uma camada diferente.

Um vídeo produzido para Instagram pode ser baixado e compartilhado em grupos familiares, comunidades religiosas, grupos profissionais, listas locais e conversas privadas.

A origem pública do conteúdo permanece, mas sua circulação posterior torna-se muito mais difícil de medir externamente.

É também por isso que a Justiça Eleitoral proíbe disparos em massa de conteúdo político-eleitoral por aplicativos de mensagens, ainda que o compartilhamento espontâneo entre usuários continue permitido dentro das regras gerais.

A dimensão do WhatsApp apareceu até fora das campanhas oficiais. Pesquisa do Tribunal Superior do Trabalho e do Conselho Superior da Justiça do Trabalho sobre assédio eleitoral identificou o aplicativo como o meio digital mais citado nos processos analisados, aparecendo em 51 de 138 casos.

Não é possível dizer que o algoritmo elegeu os cinco, mas também não é mais possível tratá-lo como acessório

Essa disputa por atenção ajuda a explicar por que confronto, indignação e ataques pessoais ocupam tanto espaço na comunicação política digital.

A lógica dialoga com o chamado viés da negatividade, segundo o qual estímulos negativos tendem a capturar mais atenção do que informações neutras ou positivas, e com a ideia de contágio moral, usada por pesquisadores para explicar como mensagens carregadas de emoção e julgamento circulam pelas redes.

Um estudo publicado na PNAS, que analisou mais de 560 mil mensagens sobre temas políticos polarizados, encontrou aumento de cerca de 20% na difusão para cada palavra moral-emocional acrescentada às publicações.

Estudo publicado em 2026 na Acta Politica, após analisar mais de 11 mil posts de políticos nos Estados Unidos e na Bélgica, concluiu que a negatividade pessoal e incivil produz mais engajamento do que críticas políticas formuladas de maneira civil.

Outro experimento, publicado na Nature, mostrou que feeds organizados por engajamento ampliam a exposição a conteúdos de indignação moral e toxicidade em comparação com uma ordem cronológica.

Isso cria um incentivo estratégico para a comunicação política, transformar adversários em personagens, provocar conflito, produzir frases facilmente recortáveis e despertar raiva ou indignação aumenta a possibilidade de curtidas, comentários e compartilhamentos e, consequentemente, de o candidato atravessar sua própria bolha e se tornar conhecido por eleitores que talvez nunca assistissem ao horário eleitoral. 

A estratégia não significa que discurso agressivo automaticamente produza votos, conteúdos excessivamente tóxicos podem inclusive perder engajamento, mas ajuda a compreender por que políticos adaptados às redes frequentemente privilegiam conflitos capazes de viralizar em vez de propostas complexas que exigem mais tempo e atenção do público.

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