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Justiça

Depois das rachadinhas, as emendas parlamentares de Flávio Bolsonaro

Levantamento rastreou recursos indicados pelo senador para contratos com entidades sob investigação

Flávio Bolsonaro
Histórico de Flávio também inclui rachadinhas e emenda negociada com miliciano condenado Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Emendas parlamentares indicadas por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foram utilizadas para pagar uma entidade classificada pela Receita Federal como “inexistente de fato”, empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de cartel e projetos que entraram na mira de órgãos de controle.

Desde 2020, o senador e candidato à Presidência teve mais de R$ 300 milhões reservados no Orçamento federal para suas emendas.

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O levantamento, publicado pelo UOL nesta quinta-feira (01), rastreou não apenas para onde Flávio direcionou recursos, mas também quem acabou contratado pelos estados, municípios e entidades responsáveis pela execução.

O senador afirma que seu gabinete não escolhe as empresas beneficiadas e que a responsabilidade pelas contratações pertence aos órgãos que recebem as emendas.

Os novos casos aparecem poucos dias depois de O Brasilianista recuperar o histórico da investigação das rachadinhas no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e de mostrar uma emenda negociada por sua assessoria com um miliciano posteriormente condenado no caso Marielle Franco.

ONG “inexistente”

Em 2024, Flávio destinou R$ 3,1 milhões para serviços de atenção básica de saúde em Mesquita, na Baixada Fluminense.

Parte desses recursos terminou no Instituto de Medicina e Projeto (IMP), que recebeu R$ 666 mil em agosto de 2025.

Em junho deste ano, a Receita Federal classificou o instituto como “inexistente de fato”.

O órgão apontou elementos que indicariam que a entidade teria sido constituída para a prática de fraude fiscal, inclusive em benefício de terceiros.

O IMP já estava sob escrutínio do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Entre 2019 e 2024, apenas a Prefeitura de Mesquita assinou contratos que superaram R$ 580 milhões com a entidade.

Em acórdão de 2025, o TCE-RJ apontou suspeitas de irregularidades na contratação, ausência de estudos técnicos e indícios de conluio.

Um dos documentos apresentados pelo instituto trazia ainda a assinatura atribuída a uma pessoa morta desde 2017.

Mesquita informou que rescindiu os contratos, aplicou multa de R$ 3 milhões ao IMP e declarou a entidade inidônea por dois anos.

A prefeitura ressaltou que parlamentares apenas destinam os recursos ao Fundo Municipal de Saúde e não participam da escolha de quem executa os serviços.

Cartel de coletes

Outra parte das emendas de Flávio foi usada pelo governo do Rio na aquisição de equipamentos de proteção para policiais militares.

A Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil em convênios abastecidos por emendas do senador e de outros parlamentares. Já a Inbra-Tecnologia recebeu R$ 1,1 milhão em um dos mesmos convênios.

As duas aparecem na investigação da Operação Perfídia, deflagrada pela Polícia Federal para apurar suspeitas de fraude e cartel em licitações de equipamentos balísticos.

Segundo os investigadores, empresas teriam dividido contratos públicos e alternado vitórias conforme o tipo de equipamento ou a região do país.

Glágio e uma empresa do grupo Inbra foram alvos de buscas em 2023. A apuração continua sob sigilo e não representa condenação das companhias.

Vasco na CGU

Um terceiro caso envolve R$ 4 milhões destinados pelo senador para um projeto esportivo relacionado ao Vasco da Gama.

A aplicação dos recursos entrou na mira da Controladoria-Geral da União. Segundo apuração anteriormente publicada pelo colunista Juca Kfouri, 93% das despesas identificadas no projeto, correspondentes a R$ 684 mil naquele estágio da execução, haviam sido direcionadas a uma única microempresa.

A companhia estava registrada em uma sala comercial no bairro de Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo, e foi contratada para fornecer materiais esportivos.

Miliciano e emenda

Flávio indicou cerca de R$ 200 mil ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o Ifop, para um projeto esportivo no Rio de Janeiro.

Como O Brasilianista destacou, mensagens obtidas pela investigação apontaram que Robson Calixto, o Peixe, negociou a liberação de recursos com uma assessora do gabinete de Flávio.

Calixto foi condenado por participação no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco.

A Polícia Federal investiga repasses ao instituto na Operação Emendatio. Flávio não é alvo dessa investigação.

A assessoria do senador afirmou, naquela ocasião, que a emenda seguiu os critérios do Ministério do Esporte, que a responsabilidade pela execução era da entidade beneficiária e que valores não utilizados foram devolvidos.

Amigo beneficiado

Há ainda uma emenda direcionada a Resende, no Sul Fluminense. A empresa Valle Sul recebeu R$ 6,61 milhões em nove pagamentos para obras de revitalização do aeroporto municipal.

Posteriormente, máquinas da empresa foram flagradas trabalhando dentro de uma propriedade privada pertencente a Renato Araújo, amigo de Flávio.

Rachadinhas

Nesta segunda-feira (29), O Brasilianista revelou detalhes de uma decisão do ministro Gilmar Mendes que recupera mensagens, dados financeiros e personagens do inquérito original. 

A investigação começou depois que movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, chamaram a atenção do Coaf.

O Ministério Público do Rio sustentou posteriormente que servidores devolviam parte dos salários e que Queiroz funcionava como operador financeiro do esquema.

Em 2020, o MPRJ denunciou Flávio, Queiroz e outras 15 pessoas por crimes como organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. Flávio sempre negou participação nas irregularidades.

O processo criminal, porém, não terminou em condenação. Decisões do STJ e do STF anularam provas importantes, e o caso foi encerrado sem julgamento do mérito das acusações.

O Brasilianista está aberto a manifestações dos citados e atualizará a reportagem caso receba posicionamentos.

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