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Economia

Entenda a fusão entre Yduqs e Afya

Dona da Estácio vai incorporar a Afya em negócio que cria gigante do ensino médico

Afya e Yduqs
Operação ocorre enquanto expansão de faculdades preocupa o MEC e 125 cursos funcionam por decisões judiciais Foto: divulgação

A Yduqs, dona da Estácio, Ibmec e Idomed, e a Afya acertaram uma combinação de negócios que cria uma das maiores empresas privadas de educação do país e uma gigante no ensino de Medicina.

Juntas, as companhias somam R$ 9,4 bilhões em receita líquida, aproximadamente 38 mil estudantes de graduação na área médica e 5.888 vagas anuais de Medicina autorizadas pelo Ministério da Educação.

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O acordo chega em um momento de transformação do mercado. Enquanto grandes grupos buscam escala para disputar um dos segmentos mais rentáveis do ensino superior, o Ministério da Educação tenta conter os efeitos da abertura acelerada de faculdades de Medicina.

Dados da pasta mostram que o Brasil já possui 125 cursos associados à judicialização, com 9.320 vagas, e que 70% daqueles já avaliados pelo Enamed 2025 tiveram desempenho considerado insatisfatório.

Afya fica com a maior fatia

Apesar de o negócio ser tratado como uma fusão, juridicamente a operação ocorrerá pela incorporação da Afya pela Yduqs.

A Afya será extinta e a Yduqs assumirá seus ativos, direitos, obrigações e passivos, permanecendo listada no Novo Mercado da B3.

A conclusão ainda depende da aprovação dos acionistas e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Os atuais acionistas da Afya ficarão com 69% da companhia combinada, enquanto os acionistas da Yduqs terão 31%.

Para cada ação ordinária da Afya serão entregues 6,408347 papéis da Yduqs. A alemã Bertelsmann, que controlava a Afya, deverá se tornar o maior acionista individual do novo grupo, com aproximadamente 47,3% das ações.

O negócio tem prazo máximo previsto até 31 de março de 2028, embora os executivos esperem concluí-lo antes.

As empresas calculam ainda sinergias financeiras entre R$ 2 bilhões e R$ 2,2 bilhões, principalmente com redução de despesas, integração das estruturas e ganhos de escala.

Medicina explica interesse pela Afya

No primeiro semestre deste ano, o tíquete médio de um aluno veterano de Medicina do Idomed, braço médico da Yduqs, era de aproximadamente R$ 13 mil por mês.

Nos demais cursos presenciais do grupo, a mensalidade média girava em torno de R$ 973.

A Afya chega ao negócio com uma estrutura ainda mais concentrada nesse segmento.

O grupo opera 38 instituições voltadas à área de saúde no Brasil, sendo 32 com cursos de Medicina.

Também atua em pós-graduação, educação continuada e ferramentas digitais voltadas a médicos.

Ao fim de junho, essas duas últimas áreas reuniam mais de 56 mil estudantes e mais de 200 mil usuários pagantes.

A combinação, portanto, permite que a Yduqs agregue um negócio de margens elevadas e menos dependente do ensino superior tradicional e da educação a distância, enquanto a Afya ganha escala, estrutura financeira e uma plataforma capaz de realizar novas aquisições.

O presidente da Yduqs, Rossano Marques, afirmou após o anúncio que a geração de caixa do grupo combinado poderá ampliar as possibilidades de crescimento tanto orgânico quanto por novas compras.

Vagas se multiplicam pelo país

A mesma expansão que tornou Medicina atraente aos grupos educacionais passou a provocar preocupação no governo.

Segundo dados do MEC, o número de cursos oferecidos por instituições privadas com fins lucrativos passou de 30 em 2010 para 195 em 2024, crescimento de 550%.

A oferta total de vagas também aumentou rapidamente. Dados da Demografia Médica mostram que o Brasil passou de 22.887 vagas de Medicina em 2014 para 51.120 em 2023.

No mesmo intervalo, a relação entre candidatos e vagas caiu de 46,5 para 18,8, sinal de que a oferta cresceu muito mais rapidamente do que a procura.

Uma parcela relevante dessa expansão ocorreu fora do caminho regulatório originalmente estabelecido pelo MEC.

Faculdades passaram a recorrer à Justiça para conseguir autorização ou avançar em processos de abertura de cursos, especialmente durante o período em que o governo federal restringiu novas graduações.

125 cursos de Medicina

Atualmente, 125 cursos de Medicina estão associados a processos de judicialização e somam 9.320 vagas, segundo levantamento do MEC.

Apenas em 2024, 84 cursos conseguiram avançar por decisões judiciais, quantidade equivalente a 27,6% das graduações privadas autorizadas naquele universo analisado pela pasta.

O número chama atenção também pela comparação feita pelo próprio Ministério. Rodolfo Cabral, secretário-executivo do MEC, afirmou que apenas os 84 casos daquele ano representam quantidade superior aos 66 cursos criados pelo programa Mais Médicos. Novas decisões favoráveis a instituições continuaram aparecendo em 2025 e 2026.

Documentos encaminhados pelo MEC ao Senado mostram que o universo da judicialização é ainda maior quando se consideram todos os pedidos levados aos tribunais.

As instituições já buscaram na Justiça autorização para cerca de 60 mil vagas de Medicina.

Isso não significa que todas tenham sido abertas, o número corresponde às vagas pleiteadas judicialmente, enquanto 9.320 são as vinculadas aos cursos que efetivamente avançaram nessa situação.

Sete em cada dez cursos

A preocupação do governo não se limita à quantidade. Entre os cursos associados à judicialização que já possuíam estudantes em condições de participar do Enamed 2025, aproximadamente 70% tiveram resultado considerado insatisfatório. Apenas 30,8% alcançaram desempenho satisfatório.

Entre as faculdades privadas com fins lucrativos como um todo, o percentual de resultados satisfatórios foi de 41,6%.

Marta Abramo, secretária de Regulação e Supervisão da Educação Superior do MEC, observou que muitos dos cursos abertos recentemente pela via judicial ainda sequer chegaram à etapa em que seus alunos realizam o exame, destinado aos concluintes. Por isso, o quadro poderá mudar conforme novas turmas forem avaliadas.

O governo já começou a usar o Enamed para endurecer a fiscalização. Em agosto, o Superior Tribunal de Justiça restabeleceu medidas cautelares impostas pelo MEC a 107 instituições de ensino superior que tiveram baixo desempenho na avaliação.

Entre as punições possíveis estão limitações à entrada de novos alunos e restrições à participação em programas públicos.

Mais vagas

A multiplicação de cursos também começa a alterar um mercado historicamente marcado por mensalidades elevadas e forte procura.

Segundo os dados apresentados pelo MEC, graduações que anteriormente chegavam a cobrar aproximadamente R$ 15 mil mensais passaram a oferecer preços na faixa de R$ 7 mil a R$ 10 mil, além de descontos e programas de financiamento para conseguir preencher as turmas.

Quanto maior a quantidade de cursos, menor tende a ser a vantagem simplesmente de possuir vagas autorizadas.

Escala, marca, estrutura hospitalar para aulas práticas, preparação para avaliações e serviços destinados ao médico depois da graduação passam a ter peso maior na disputa pelos estudantes.

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