Justiça

Overclean chega à 10ª fase e mira contratos de R$ 80 milhões na Educação

PF cumpre 24 mandados em seis estados e volta a atingir nomes que aparecem desde as primeiras etapas da investigação

Polícia Federal
Operação começou com suspeitas de desvios em emendas e contratos públicos e já alcançou empresários, servidores e políticos Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A Polícia Federal voltou às ruas nesta quinta-feira (17) para cumprir 24 mandados de busca e apreensão em seis estados na décima fase da Operação Overclean.

Desta vez, o foco está em contratações realizadas pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte entre 2024 e 2025.

Pelo menos três procedimentos investigados resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões.

As ordens são cumpridas em Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo.

Segundo a PF, existem indícios de direcionamento de procedimentos para fornecimento de serviços e materiais didáticos.

Outros processos de contratação, além dos três que ultrapassaram os R$ 80 milhões, também estão sob análise.

A nova etapa não começa uma investigação isolada. Ela retoma personagens que aparecem há mais de um ano na Overclean e conecta contratos da Educação de Belo Horizonte a uma apuração originalmente aberta para investigar desvios de recursos públicos, licitações fraudadas e lavagem de dinheiro.

Reportagem do BNews aponta que estão entre os alvos desta quinta-feira José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, os empresários Fábio e Alex Parente e Bruno Barral, ex-secretário municipal de Educação de Belo Horizonte e ex-titular da mesma pasta em Salvador.

O Brasilianista já mostrou, em agosto, que Moura e os irmãos Parente estavam entre 25 empresários e agentes públicos indiciados pela PF em outro núcleo da Overclean.

A investigação estimava que a estrutura apurada havia movimentado aproximadamente R$ 1,4 bilhão em contratos fraudulentos e obras com suspeitas de superfaturamento.

R$ 80 milhões

A frente aberta nesta quinta-feira concentra-se na rede municipal de ensino de Belo Horizonte.

Segundo a Polícia Federal, os contratos foram firmados entre 2024 e 2025 e envolvem serviços e materiais didáticos.

A suspeita é de que procedimentos administrativos tenham sido direcionados para beneficiar fornecedores específicos.

“Os fatos apurados podem caracterizar, em tese, crimes contra a administração pública”, informou a PF.

A lista também inclui fraude em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Até a manhã desta quinta, a corporação não havia divulgado publicamente a relação completa de empresas alcançadas nem detalhado quantos mandados estavam sendo executados especificamente na Bahia.

Também não há, até aqui, conclusão de que os R$ 80 milhões tenham sido integralmente desviados. O valor corresponde aos contratos inseridos nos procedimentos investigados.

Velhos alvos

A presença de Marcos Moura, Fábio Parente e Alex Parente na nova fase conecta a investigação em Belo Horizonte ao núcleo que já vinha sendo acompanhado pela PF desde a primeira etapa da Overclean.

O Brasilianista destacou quem eram os investigados e indiciados na apuração que envolve contratos de pavimentação, limpeza urbana e recursos públicos repassados a municípios.

Naquele momento, a PF havia indiciado 25 pessoas, entre empresários e agentes públicos. Moura, Fábio e Alex estavam na relação.

Entre os demais apareciam Lucas Maciel Lobão Vieira e Rafael Guimarães de Carvalho, ex-coordenadores do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) na Bahia.

Educação de BH

A entrada da Educação de Belo Horizonte na Overclean também não ocorreu agora.

Em abril de 2025, documentos da investigação já apontavam conversas encontradas no celular de Marcos Moura sobre a composição do secretariado do então prefeito Fuad Noman, morto naquele ano.

As mensagens indicavam interesse de Moura na Secretaria de Educação.

A decisão judicial que autorizou diligências mencionava “possível interferência da organização criminosa” na Prefeitura de Belo Horizonte.

Bruno Barral acabou ocupando a Secretaria de Educação. Antes disso, ele havia comandado a pasta equivalente na Prefeitura de Salvador durante a gestão de ACM Neto.

Em abril de 2025, Barral foi afastado da função em Belo Horizonte por determinação do Supremo Tribunal Federal, durante a terceira fase da Overclean.

Na ocasião, a PF realizou buscas na residência de Barral e apreendeu dinheiro em reais, dólares e euros, além de joias, relógio, aparelhos telefônicos e outros objetos.

O BNews informou que os valores em espécie correspondiam a aproximadamente R$ 120,8 mil após conversão.

A décima fase passa agora a investigar especificamente contratações da pasta que ele comandava.

Busca negada

A nova operação também alcançou a campanha eleitoral da Bahia por outro caminho.

A Polícia Federal pediu ao STF autorização para realizar busca e apreensão contra ACM Neto, candidato ao governo baiano pelo União Brasil. O ministro Kassio Nunes Marques, relator da Overclean, negou o pedido.

A PF investiga a hipótese de que ACM Neto tenha participado da indicação de um secretário em Belo Horizonte para favorecer empresários em processos licitatórios que posteriormente gerariam pagamento de propina.

Essa é uma suspeita da investigação, e a busca solicitada pela PF não foi autorizada pelo STF.

O episódio tem ligação com mensagens examinadas anteriormente pelos investigadores.

Em 2025, a PF identificou conversas em que Marcos Moura dizia que consultaria ACM Neto e Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, durante discussões relacionadas à composição do governo municipal de Belo Horizonte.

R$ 1,4 bilhão

A Overclean começou bem distante das salas de aula de Belo Horizonte. A primeira fase foi deflagrada em 10 de dezembro de 2024 pela PF, Ministério Público Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União.

Naquele momento, as autoridades disseram investigar uma organização suspeita de fraudes licitatórias, corrupção, desvio de dinheiro público e lavagem de capitais.

Segundo a Receita Federal, o grupo investigado teria movimentado aproximadamente R$ 1,4 bilhão no período analisado.

Somente em 2024, empresas relacionadas ao núcleo sob investigação haviam celebrado cerca de R$ 825 milhões em contratos com órgãos públicos.

A investigação se concentrou inicialmente em contratos financiados por recursos federais e em suposta atuação de empresários junto a agentes públicos para direcionar licitações e liberar pagamentos.

Campo Formoso

Uma dessas ramificações chegou a Campo Formoso, na Bahia, administrado por Elmo Nascimento, irmão do deputado federal Elmar Nascimento, do União Brasil.

O Brasilianista informou que o município havia recebido nove caminhões da Codevasf avaliados em R$ 8,5 milhões, dos quais aproximadamente R$ 3 milhões estavam relacionados a recursos indicados pela bancada baiana.

Campo Formoso entrou na apuração da Overclean em meio à investigação sobre recursos de emendas parlamentares destinados a municípios baianos e contratos relacionados à Codevasf e ao Dnocs.

O deputado Elmar Nascimento aparece entre parlamentares investigados em diferentes fases, assim como Félix Mendonça Júnior, Vicentinho Júnior e Dal Barreto. O Brasilianista mostrou que eles não integravam a relação dos 25 indiciados naquele momento.

Emendas públicas

O uso de emendas parlamentares tornou-se uma das linhas mais sensíveis da investigação.

A suspeita dos investigadores é de que recursos destinados formalmente a obras e serviços públicos tenham sido direcionados para contratos previamente combinados, com superfaturamento e posterior desvio de parte dos valores.

O Brasilianista explicou, em julho, que a Overclean já integrava uma sequência de investigações sobre rastreabilidade e execução de verbas públicas indicadas por parlamentares.

Naquele momento, o caso envolvia mais de uma centena de empresários, servidores e agentes políticos considerados de interesse para as diferentes linhas investigativas.

Siga nossas redes sociais: O Brasilianista!