Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump abriram, nesta terça-feira (22), a sequência de discursos de chefes de Estado na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Como ocorre tradicionalmente, o Brasil foi o primeiro Estado-membro a falar, seguido pelos Estados Unidos, país-sede da organização.
Os dois presidentes levaram à tribuna prioridades diferentes. Lula concentrou boa parte da fala na perda de capacidade da ONU para conter guerras, na soberania dos países latino-americanos e na necessidade de cooperação internacional.
Trump apresentou resultados de seu governo, defendeu as ações americanas contra o Irã e tratou Cuba e inteligência artificial como temas estratégicos.
ONU momento crítico
Lula começou o discurso com uma crítica direta à capacidade das Nações Unidas de cumprir sua principal função.
Segundo o presidente, a organização enfrenta uma crise de credibilidade provocada pelo aumento dos conflitos e pelo bloqueio do Conselho de Segurança.
“A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra”, afirmou.
Na sequência, responsabilizou o poder de veto das grandes potências por parte da paralisia do órgão e defendeu mudanças na governança internacional.
O brasileiro também contrapôs multilateralismo e unilateralismo e afirmou que a comunidade internacional precisa escolher entre democracia e extremismo, soberania e subordinação.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”
A eleição brasileira, marcada para outubro, também apareceu na fala.
Sem citar os Estados Unidos ou Trump nesse trecho, Lula afirmou que a América Latina voltou a enfrentar interferências externas em processos eleitorais e rejeitou a ideia de divisão da região em zonas de influência.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou. O presidente afirmou ainda que o país realizará um pleito “transparente e competitivo” e acusou, sem nomeá-los, candidatos de se associarem a interesses estrangeiros contrários ao Brasil.
Gaza, Ucrânia e América Latina
Os conflitos internacionais ocuparam outra parte da fala brasileira. Lula acusou o governo de Benjamin Netanyahu de cometer genocídio em Gaza, caracterização adotada pelo presidente brasileiro e contestada pelo governo israelense e também condenou os ataques terroristas cometidos pelo Hamas contra civis israelenses.
Sobre Rússia e Ucrânia, Lula disse que a guerra não produzirá vencedores no campo de batalha e voltou a defender negociações diplomáticas.
Na América Latina, criticou o embargo contra Cuba, afirmou que o povo venezuelano deve definir seu próprio destino e também fez uma cobrança ao governo da Nicarágua: “A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições”.
“Não precisamos de porta-aviões”
Lula ainda levou à ONU uma discussão que ganhou espaço na relação recente entre Brasília e Washington, o combate às organizações criminosas.
O presidente afirmou que o Brasil não subestima o poder das facções, mas rejeitou uma eventual tutela externa na segurança nacional.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou. Segundo Lula, essa posição já havia sido apresentada pessoalmente a Trump.
Big techs
Lula defendeu maior regulamentação das grandes plataformas digitais e da inteligência artificial e acusou empresas de transferirem às famílias os riscos associados aos próprios produtos.
Ao falar especificamente das plataformas de apostas, afirmou que “a indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro” e declarou que o Brasil não tolerará esse modelo de negócio.
“América está de volta”
Trump abriu seu discurso destacando o desempenho dos Estados Unidos sob seu governo.
“Posso anunciar com orgulho que a América está de volta e nosso país está mais forte hoje do que nunca”, declarou.
O republicano também disse que prefere agir diante das ameaças em vez de esperar que os problemas avancem. A política externa ocupou parte significativa da fala.
Irã no foco
Trump defendeu a atuação militar americana contra o Irã e voltou a apresentar o programa nuclear iraniano como uma ameaça à segurança internacional.
“Nunca vou permitir que o Irã tenha uma arma nuclear”, disse. A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã chega à Assembleia Geral depois de meses de confrontos e impactos sobre o mercado global de energia.
A delegação iraniana deixou o plenário durante o pronunciamento do americano. Teerã sustenta que seu programa nuclear tem finalidades pacíficas e contesta as justificativas apresentadas por Washington para a ofensiva.
“Cuba vai cair”
Trump também voltou sua atenção para Cuba. Segundo o presidente, o governo comunista enfrenta sua maior pressão em décadas e está financeiramente enfraquecido.
“Está falido como nunca antes e vai cair”, afirmou. A declaração ocorre enquanto Washington mantém sanções econômicas contra Havana e pressiona o governo cubano por mudanças políticas.
Inteligência artificial
A inteligência artificial apareceu nos dois discursos, mas por perspectivas diferentes.
Enquanto Lula enfatizou regulamentação e responsabilidades das empresas, Trump apresentou a tecnologia como uma disputa estratégica entre potências.
“Quem dominar a Inteligência Artificial, quem dominar a superinteligência, ganha”, afirmou. O presidente americano disse ainda que os Estados Unidos estão à frente da China nessa corrida.
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