Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), manteve contato direto com o banqueiro durante o período em que o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo distrital, tentava comprar parte do Banco Master.
Os registros foram divulgados neste domingo (21) pelo Fatos Online. O material reúne conversas mantidas entre 2024 e 2025, incluindo encontros, ligações e o envio de documentos diretamente relacionados à operação entre as duas instituições.
Em 19 de setembro de 2024, Ibaneis agradeceu a Vorcaro por um almoço. O banqueiro respondeu que havia gostado do encontro e sugeriu um jantar para a semana seguinte. O então governador concordou e afirmou que deixaria a data reservada.
Meses depois, as conversas passaram a coincidir com etapas decisivas da tentativa de aquisição.
Em 10 de maio de 2025, depois de registros de chamadas entre os dois, Ibaneis encaminhou a Vorcaro uma decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).
O documento derrubava uma liminar que impedia a assinatura do contrato definitivo para a compra do Master pelo BRB.
Em agosto, os registros mostram ao menos outras três ligações, com duração de 1 minuto e 42 segundos, 1 minuto e quatro segundos e 51 segundos.
Horas depois da última chamada, Ibaneis enviou a Vorcaro a edição extra do Diário Oficial do Distrito Federal de 20 de agosto.
Era justamente a publicação da Lei nº 7.739, que autorizava o BRB a adquirir 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master.
Compra barrada pelo Banco Central
O negócio havia sido aprovado pelo conselho de administração do BRB em março de 2025.
A operação, estimada em aproximadamente R$ 2 bilhões, corresponderia a 58% do capital total do Master.
Em 3 de setembro de 2025, a autoridade monetária rejeitou a aquisição. Com o indeferimento, o contrato entre as instituições não foi adiante.
Ibaneis afirmou após a divulgação das mensagens que já havia tornado público o almoço com Vorcaro.
Segundo ele, naquele momento o governo acreditava, por influência do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que estava diante de um negócio capaz de transformar a instituição brasiliense em um dos maiores bancos do país.
O BRB no Caso Master
A tentativa de aquisição foi apenas uma parte da relação financeira entre BRB e Master.
O Brasilianista mostrou na semana passada que uma perícia realizada em agosto apontou que a diretoria do BRB autorizou, entre 2024 e 2025, operações com carteiras do Master que estão no centro das investigações da Polícia Federal.
Segundo a apuração, 25 operações chegaram a aproximadamente R$ 17,5 bilhões. O material também indica que as tratativas continuaram mesmo depois de alertas formais sobre liquidez e questionamentos sobre a qualidade dos ativos negociados.
Parte das suspeitas envolve créditos que, segundo a investigação, não tinham lastro.
O Master teria utilizado estruturas para repassar carteiras ao BRB que posteriormente foram consideradas problemáticas pelas autoridades.
Paulo Henrique Costa, que comandou o BRB de 2019 a novembro de 2025, também se tornou personagem central da investigação. Ele foi preso preventivamente pela PF em abril deste ano.
Segundo os investigadores, Costa teria recebido cerca de R$ 146 milhões em seis imóveis de luxo em troca de favorecer operações do Master com a instituição pública. A defesa nega irregularidades.
Funcionários já cobravam explicações
Antes mesmo de a dimensão das investigações se tornar pública, funcionários do próprio BRB já questionavam o negócio.
Como O Brasilianista revelou, a Associação Nacional dos Empregados Ativos e Inativos do Banco de Brasília reclamou da falta de informações sobre o planejamento financeiro da instituição para desembolsar bilhões de reais na operação com Vorcaro.
A entidade também demonstrou preocupação com os aumentos de capital realizados pelo BRB e com uma eventual redução da participação acionária do Governo do Distrito Federal.
Em documento de outubro de 2025, os empregados destacaram que a fatia do governo havia caído para 53,71%, próxima do percentual mínimo necessário para manter o controle da instituição.
O Brasilianista permanece aberto à manifestação de todas as pessoas e instituições citadas nesta reportagem. Os canais de comunicação do portal estão à disposição para esclarecimentos, posicionamentos, contestações ou informações adicionais.
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