A delação de João Carlos Mansur, fundador e ex-dono da Reag Investimentos, começou a revelar com mais clareza quem aparece nos 17 anexos entregues à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, Mansur afirmou que fundos administrados pela Reag foram usados para ocultar pagamentos de propina feitos por Daniel Vorcaro a autoridades públicas.
Ele também descreveu laranjas, estruturas financeiras e offshores (empresa ou conta bancária aberta em um país ou território fora da residência do proprietário) utilizadas para movimentar dinheiro ligado ao Banco Master.
O acordo foi fechado com a PGR e enviado ao ministro André Mendonça, relator do Caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF).
A colaboração ainda aguarda validação do ministro. A Polícia Federal participou do início das conversas, mas não prosseguiu nas negociações.
Os nomes conhecidos publicamente aparecem em situações diferentes. Daniel Vorcaro é o principal alvo da colaboração.
ACM Neto e Jaques Wagner aparecem em anexos já revelados.
Benjamim Botelho surge como beneficiário formal de um fundo que Mansur atribui, na realidade, a Vorcaro. Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, aparecem na parte relacionada à Operação Carbono Oculto.
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, é ligado pela investigação da PF a uma suspeita de pagamento de propina operado com fundos da Reag.
A simples menção em uma colaboração não significa participação em crime.
Propina oculta
Mansur afirma que a estrutura financeira da Reag teria servido não apenas para movimentar recursos retirados do Master, mas também para esconder pagamentos destinados a agentes públicos.
O empresário explicou à PGR como fundos de investimento eram utilizados no esquema e identificou pessoas que atuariam como laranjas de Vorcaro.
A colaboração também detalha onde parte dos recursos enviados ao exterior estaria atualmente.
Investigadores afirmam que uma parcela relevante do dinheiro está em offshores.
As informações fornecidas por Mansur podem permitir a recuperação desses valores sem a necessidade de negociações mais longas com autoridades de alguns países estrangeiros.
Daniel Vorcaro
O principal nome da delação é Daniel Vorcaro. Mansur afirma que a Reag prestava serviços ao Master desde 2019, quando Vorcaro assumiu o controle do banco, principalmente por meio da criação, estruturação e administração de fundos de investimento.
Segundo o ex-dono da gestora, algumas dessas estruturas teriam sido utilizadas para retirar dinheiro do banco e esconder os verdadeiros beneficiários das operações.
Ele também disse ter negociado diretamente com Vorcaro e afirmou à PGR que o banqueiro sabia das movimentações e estava por trás delas.
Para sustentar a colaboração, Mansur entregou documentos sobre as transações.
A defesa de Vorcaro disse à Folha que não teve acesso aos anexos da colaboração e, por isso, não poderia comentar as acusações.
Jaguar offshore
Um dos casos detalhados por Mansur envolve o Jaguar Multimarket Fund Ltd., registrado nas Ilhas Cayman.
O Banco Master enviou R$ 494 milhões para o fundo. Nos documentos, Benjamim Botelho aparece como beneficiário formal da estrutura.
Botelho foi dono da Sefer, outra gestora investigada na Operação Compliance Zero e ligada a negócios com o Master.
Mansur, porém, afirma que o verdadeiro proprietário do Jaguar seria Daniel Vorcaro.
ACM Neto
ACM Neto também aparece em um dos anexos da colaboração. Nesse caso, a informação conhecida até agora não é uma acusação direta de recebimento de propina feita por Mansur.
O ex-prefeito de Salvador aparece por ser o cotista exclusivo do Seattle 95, fundo administrado pela Reag até 2025.
ACM Neto aportou R$ 7,92 milhões, em dez depósitos, no Seattle 95. O fundo aplicou aproximadamente R$ 4,8 milhões no Structure, que tinha exposição a operações de crédito consignado originadas pelo Banco Master.
Em outubro de 2025, o patrimônio do Seattle 95 chegou a R$ 11,94 milhões, uma diferença de R$ 4,01 milhões sobre os aportes realizados.
O ex-prefeito confirmou ser dono das cotas, mas afirmou que os recursos tinham origem declarada e lícita.
“Tudo transcorreu com total transparência”, afirmou ACM Neto.
Segundo ele, a Reag foi contratada como administradora por ser, naquele momento, uma das principais empresas do setor, e os impostos sobre os rendimentos foram devidamente recolhidos.
Jaques Wagner
O senador Jaques Wagner (PT-BA) aparece em outro episódio descrito por Mansur.
Segundo o delator, Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Banco Master, pediu que ele conseguisse ingressos para um show de Taylor Swift realizado no Allianz Parque, em São Paulo, em 2023. Os bilhetes foram avaliados em R$ 63,3 mil e destinados a Wagner.
Wagner disse que pediu pessoalmente a um amigo ajuda para conseguir os ingressos e afirmou não conhecer Mansur.
“Não conhece João Carlos Mansur e nunca teve relação com a empresa Reag”, afirmou a assessoria do senador.
Paulo Henrique
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, aparece em uma situação mais grave dentro das investigações relacionadas à Reag.
Segundo a Polícia Federal, Mansur é suspeito de ter utilizado fundos da gestora para ocultar pagamento de propina em imóveis destinado a Paulo Henrique.
O ex-presidente do BRB também tentou negociar uma colaboração premiada, mas as conversas não avançaram.
Ele permanece preso na chamada Papudinha, em Brasília, onde Daniel Vorcaro também está detido.
Fundos administrados pela Reag participaram ainda do aumento de capital do BRB em 2024, operação que passou a ser analisada pelos investigadores dentro das relações financeiras entre o banco público e o Master.
A PF tenta estabelecer se estruturas administradas pela gestora foram utilizadas para esconder quem realmente financiava determinadas operações e quem terminava como beneficiário dos recursos.
Primo e Beto
A delação de Mansur não trata apenas do Banco Master. Um dos conjuntos de informações alcança a Operação Carbono Oculto, investigação sobre lavagem de dinheiro e infiltração do crime organizado no mercado de combustíveis e no setor financeiro.
Mansur relatou o uso de fundos da Reag por Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco.
Os dois são apontados pelo Ministério Público de São Paulo como líderes de uma estrutura utilizada para lavagem de dinheiro e fraudes no mercado de combustíveis.
Ambos foram denunciados neste mês por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica e são considerados foragidos. As defesas negam os crimes.
O Brasilianista já mostrou que as investigações chegaram a mapear mais de mil postos de combustíveis possivelmente ligados ao grupo dos dois empresários.
R$ 40 milhões
Para conseguir os benefícios previstos no acordo de colaboração, Mansur aceitou pagar uma multa de R$ 40 milhões.
O valor corresponde, segundo as reportagens, ao montante que ele afirma ter recebido enquanto esteve à frente da Reag.
Além da multa, o acordo prevê a devolução e localização de recursos relacionados às operações investigadas.
O Brasilianista já havia registrado, que a proposta apresentada por Mansur continha 17 anexos e informações consideradas inéditas pela PGR sobre o caminho percorrido pelo dinheiro do Master.
A negociação começou em fevereiro e só terminou em agosto. Mansur chegou a tentar fechar uma colaboração conjuntamente com Vorcaro, quando os dois eram atendidos pelo mesmo advogado, mas a estratégia não avançou.
Depois, ele trocou sua defesa e seguiu sozinho nas negociações com a PGR.
Reag liquidada
A dimensão da delação também acompanha o tamanho que a Reag alcançou antes de entrar na mira das autoridades.
A empresa chegou a ser uma das maiores gestoras independentes do país. Em determinado momento, administrava cerca de R$ 340 bilhões em recursos.
Mansur deixou a presidência do conselho em setembro de 2025, após a Operação Carbono Oculto atingir a empresa.
A investigação apontou suspeitas de que fundos administrados pela Reag tinham sido utilizados para movimentar dinheiro ligado ao crime organizado.
Em janeiro deste ano, ele também foi alvo de buscas na segunda fase da Operação Compliance Zero.
Pouco depois, o Banco Central decretou a liquidação da Reag, citando o comprometimento da situação econômico-financeira da instituição e “graves violações” às regras do Sistema Financeiro Nacional.
Dois delatores
Mansur não é mais o único operador próximo a Vorcaro que decidiu colaborar. A PGR também fechou acordo com Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, empresário apontado como um dos responsáveis por movimentar recursos para o ex-banqueiro.
Mineiro afirmou que fazia remessas financeiras e providenciava dinheiro vivo para Vorcaro. Parte desses valores, segundo ele, era transportada em malas devido ao volume.
Sua colaboração foi homologada por André Mendonça nesta quarta-feira (9). Entre os fatos relatados estão as transferências de mais de US$ 12 milhões para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, utilizado no financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
Mineiro também relatou pagamentos de propina a políticos cujos nomes permanecem sob sigilo.
A lista pública, portanto, ainda é incompleta. A nova revelação da Folha confirma que Mansur atribuiu à estrutura da Reag a ocultação de propinas destinadas a autoridades públicas, mas a reportagem não identifica todos os supostos beneficiários.
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