O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 13,75% ao ano na quarta-feira (04), interrompendo uma sequência de cinco cortes consecutivos iniciada em março.
A primeira decisão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ocorreu em meio à alta das expectativas de inflação, à desvalorização do real e às incertezas sobre a política fiscal do próximo mandato.
Além de manter os juros, o colegiado elevou suas projeções para os preços até 2028 e retirou do comunicado a indicação de continuidade da redução da taxa.
A decisão afeta diretamente o custo de empréstimos, financiamentos e investimentos, mas também reflete a dificuldade de equilibrar o controle da inflação com a desaceleração econômica.
Para Marcos Valle, economista, doutor em Sociologia e docente da Escola de Negócios da Universidade Positivo (UP), a pausa representa uma mudança importante na condução da política monetária.
O especialista avalia que a retomada dos cortes dependerá não apenas dos indicadores econômicos, mas também da capacidade do governo de oferecer previsibilidade sobre suas contas públicas.
Fim dos cortes
Entre março e setembro de 2026, o Copom reduziu a Selic de 15% para 13,75% ao ano, acumulando queda de 1,25 ponto percentual.
O movimento foi interrompido na penúltima reunião do ano, em uma decisão apoiada pelos sete integrantes presentes.
No comunicado oficial, o Banco Central reconheceu uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica e sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho.
Entretanto, também identificou riscos inflacionários elevados, especialmente diante do comportamento do dólar, dos preços do petróleo e das expectativas para os próximos anos.
A Reuters informou que 33 dos 48 economistas consultados antes da reunião esperavam a manutenção da taxa.
O resultado, portanto, correspondia à expectativa majoritária, embora parte do mercado ainda projetasse uma nova redução.
Valle interpreta a mudança como uma escolha pela cautela.
"Ao interromper por unanimidade o ciclo de cinco quedas consecutivas iniciado em março, a autoridade monetária enviou um sinal claro ao mercado e ao poder público: em um ambiente de incertezas elevadas, o compromisso com a meta de inflação deve prevalecer sobre a expectativa de estímulos econômicos imediatos", afirma o economista.
Inflação projetada
O Banco Central elevou sua previsão de inflação para 2026 de 5,2% para 5,6%. Para 2027, a estimativa passou de 3,9% para 4,7%, acima do limite superior de 4,5% estabelecido pelo regime de metas.
No segundo trimestre de 2028, período considerado relevante para a política monetária, a projeção aumentou de 3,2% para 3,5%. Embora mais próxima do objetivo, permanece acima do centro da meta de 3%.
Os números do próprio Copom diferem das expectativas coletadas no Boletim Focus, que apontavam inflação de 5,22% para 2026.
Enquanto o Focus reúne estimativas de instituições financeiras, as projeções do comitê consideram hipóteses específicas sobre juros, câmbio e outros indicadores.
Segundo o comunicado, o ambiente internacional tornou-se mais adverso com o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio e seus efeitos sobre o petróleo.
Risco fiscal
A trajetória das contas públicas também ocupa espaço na avaliação sobre os juros.
Em setembro, a dívida bruta brasileira alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto as despesas com juros do setor público chegaram a aproximadamente 9% do PIB no acumulado de 12 meses.
Esses indicadores influenciam as condições exigidas pelos investidores para financiar o governo.
Uma percepção de risco mais elevada pode pressionar o câmbio e as taxas de juros praticadas no mercado, mesmo sem alteração imediata da Selic.
Valle relaciona a situação às escolhas econômicas previstas para o quarto mandato presidencial.
"As dúvidas dos agentes econômicos sobre o controle dos gastos públicos e a sustentabilidade da dívida elevam a percepção de risco do país, pressionam o câmbio e exigem retornos mais elevados dos investidores", destaca o professor.
Até a publicação desta reportagem Lula ainda não havia detalhado novas medidas para controlar as despesas públicas nem anunciado todas as escolhas para a equipe econômica do próximo mandato.
Crédito e investimentos
Para as famílias, a manutenção dos juros elevados prolonga condições restritivas para empréstimos, financiamentos de imóveis e veículos e compras parceladas.
Entretanto, as taxas cobradas pelos bancos também dependem de fatores como inadimplência, custos operacionais e garantias oferecidas.
Nas empresas, o financiamento mais caro interfere nos cálculos de viabilidade de projetos produtivos.
A aquisição de equipamentos e a expansão de instalações podem ser adiadas quando o retorno esperado não compensa o custo do crédito.
Por outro lado, a Selic elevada favorece a remuneração de aplicações pós-fixadas, como o Tesouro Selic e determinados CDBs, embora a rentabilidade líquida dependa de impostos, taxas e condições de cada investimento.
Economia em 2027
As projeções divulgadas pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), indicam que os juros poderão permanecer elevados durante parte do próximo ano.
O Grupo Consultivo Macroeconômico da entidade estima Selic de 12,5% no encerramento de 2027, inflação de 4,9% e crescimento do PIB de apenas 1%. Para 2026, a expectativa de expansão econômica foi reduzida de 1,87% para 1,7%.
A associação também projeta dívida bruta equivalente a 87,4% do PIB no fim de 2027, diante de uma estimativa de 83,4% para dezembro deste ano.
Valle considera que decisões fiscais e monetárias poderão influenciar conjuntamente o desempenho da atividade econômica.
"Se esse pragmatismo se traduzir em propostas concretas de controle de despesas e no avanço da reforma tributária nos primeiros 100 dias de mandato, a percepção de risco do país poderá diminuir, contribuindo para a estabilização do câmbio e criando condições para que o Banco Central retome gradualmente a flexibilização monetária", ressalta o docente.
Próxima reunião
O Copom voltará a se reunir nos dias 8 e 9 de dezembro, no último encontro de 2026.
Até lá, os integrantes poderão avaliar novos dados de inflação, atividade econômica, emprego e expectativas do mercado financeiro.
A ata da reunião encerrada nesta quarta-feira será publicada em 10 de novembro e deverá detalhar os fatores considerados na decisão, incluindo a avaliação dos riscos para a inflação.
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O comunicado de novembro não estabeleceu uma data para a retomada dos cortes nem indicou quanto tempo a Selic permanecerá em 13,75%.

