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Economia

Proposta de Lara Resende e as pendências do "Plano Real"

O plano prevê queda gradual até atingir 7,5%

Cortar dinheiro
A Selic está atualmente em 13,75% ao ano (Foto: Magnific)

O economista André Lara Resende, conhecido como um dos "pais do Plano Real", fez uma publicação na rede social Substack, em setembro deste ano, que ganhou forte repercussão nesta semana. 

O tema teria gerado debates por propor uma redução da taxa básica de juros até atingir 7,5%. O corte seria realizado gradualmente durante aproximadamente 12 meses.

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Contudo, Carla Beni, economista e professora da FGV, esclarece: "A proposta dele é bem mais complexa do que isso. Ele fez um paper acadêmico com uma proposta para finalizar aquilo que não foi feito/que faltou no Plano Real (a desindexação da dívida pública)". 

O post nas redes

Durante o texto, Lara Resende defende: "Todos estão de acordo: a taxa de juros é um problema", "Não é preciso muita elaboração para concluir que a situação é insustentável", e "[O país] aloca recursos de forma irracional, patrimonialista".

Ele ainda acusou o Banco Central de "sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater", além da mídia de "repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros" e analistas do mercado em "confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica". 

Um contraponto

Diante da proposta, Newton Marques, economista com mestrado e doutorado em economia, ex-professor da UnB e ex-servidor do Banco Central, afirmou que existe uma guerra declarada: "Os economistas ortodoxos que dominam o mercado financeiro não querem nem discutir a proposta do Lara Resende. Não aceitam que a taxa Selic está muito elevada e qualquer composição para reduzir essa taxa concomitantemente a um ajuste fiscal, sequer pode ser discutido". 

Carla ainda alerta que a nossa dívida pública cresce numa proporção muito maior do que o crescimento da economia e, portanto, Lara Resende traz um planejamento muito longo de junção de política monetária com fiscal, justamente para finalizar algo que começou em 1994, início do Plano Real. 

Ela reforça: "Enquanto a gente continuar pensando que ajuste fiscal é só cortar gasto público sem mexer na despesa de juros, a gente vai continuar onde a gente está" e complementa: "46% da nossa despesa é juros e amortização de dívida. Então não existe corte de despesa pública que compense esse patamar. Você pode cortar o que quiser, pode levar o Estado à míngua… A conta não vai fechar nunca".

A divulgação na mídia

A economista enfatiza que Lara Resende é "um acadêmico extremamente sofisticado" e, por isso, traduzir o que ele traz para o público leigo é muito complicado. 

Contudo, ela pontua: "Você vê editoriais de jornal, por exemplo, pegando um modelo desse e chamando de maluquice. É minimamente uma grosseria fazer isso com uma pessoa renomada como ele".

Newton acrescenta: "Acho que a interpretação da mídia não tem sido adequada. Muitos economistas, entre os quais sou um deles, não acreditam na elevada taxa Selic para controlar a inflação, mas concordamos que tem provocado elevado custo pra dívida pública". 

Para ele, se trata de um plano inusitado, assim como foi o Plano Real, que exige ser analisano no longo prazo, como um período de transição.

O verdadeiro risco, segundo os especialistas

Para Carla, o risco de uma discussão e trabalho profundo como esse se resumir a um debate raso e incompleto é abafar o debate sobre o assunto. 

"O risco da implementação ou não, parcial ou total, da sugestão acadêmica de André Lara Resende é menor do que iniciar o debate. O importante não é pensar na implementação ou não, é apenas iniciar o debate", destaca. 

Ao que Newton concorda: "É algo novo, ousado e desafiante. Teria que haver muito debate antes da implementação". 

Em entrevista para a coluna de José Paulo Kupfer, do UOL, Lara também reagiu à disseminação do material: "Falar em tabelamento de juros é uma distorção de má-fé do que proponho. Sempre fui contra todo tabelamento de qualquer tipo". 

A economista finaliza: "Se o governo Lula conseguir apenas colocar na mesa de discussões uma reestruturação da meta de inflação de 3% para aliviar a taxa Selic, inclusive aliviar a própria calibragem do Banco Central, e fazer com que o entendimento da política fiscal com a monetária sejam uma trilha em comum, ele vai fazer uma revolução na macroeconomia do Brasil".

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