A dívida bruta brasileira chegou a R$ 11,1 trilhões em setembro de 2026, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta quinta-feira (29).
O valor representa um crescimento de aproximadamente R$ 3,9 trilhões desde dezembro de 2022, último mês antes do início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No mesmo período, as empresas estatais passaram de um superávit primário de R$ 6,1 bilhões para déficits sucessivos.
O aumento do endividamento ocorre apesar do crescimento da arrecadação federal e mantém o país dependente de financiamento para cobrir despesas e pagar os juros da dívida pública.
A situação ganhou repercussão internacional após a revista britânica The Economist publicar, em 22 de outubro, uma análise sobre os problemas estruturais da economia brasileira.
A publicação apontou que o país combina crescimento econômico, desemprego relativamente baixo e inflação próxima da meta com dificuldades persistentes para equilibrar as contas públicas.
A avaliação foi divulgada poucos dias depois de Lula anunciar o primeiro reajuste geral do Bolsa Família desde 2023, a apenas 17 dias do primeiro turno da eleição presidencial.
Questionado sobre a demora, o presidente afirmou que não sabia que o benefício permanecia sem correção.
Dívida desde 2023
Os números do Banco Central mostram que o endividamento cresceu tanto em valores nominais quanto em proporção da economia brasileira.
Em dezembro de 2022, a dívida bruta do governo geral estava em aproximadamente R$ 7,2 trilhões, equivalentes a 71,7% do PIB. Ao final de 2023, havia ultrapassado R$ 8 trilhões, alcançando 73,8% do PIB.
Em dezembro de 2024, o estoque chegou a aproximadamente R$ 9 trilhões, ou 76,1% do PIB.
O indicador continuou aumentando durante 2025 e alcançou cerca de R$ 10 trilhões, equivalentes a 78,6% da economia.
Em setembro de 2026, atingiu 82,9% do PIB, maior proporção registrada desde março de 2021.
O avanço corresponde a 11,2 pontos percentuais do PIB desde o início do mandato.
A dívida bruta compreende obrigações do governo federal, do INSS, dos estados e dos municípios.
Sua evolução é influenciada pelos déficits públicos, pelos juros, pelas emissões de títulos e pelo crescimento da economia.
Portanto, o aumento não corresponde exclusivamente a novos gastos autorizados pela Presidência da República.
Déficits do governo
O resultado primário do setor público, que compara receitas e despesas antes do pagamento de juros, também sofreu alterações desde o início do mandato.
Em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro, o setor público consolidado registrou superávit de aproximadamente R$ 126 bilhões.
Em 2023, primeiro ano do novo governo, o resultado passou para um déficit de R$ 249,1 bilhões.
Em 2024, o saldo negativo diminuiu para R$ 47,6 bilhões. Entretanto, voltou a crescer em 2025, quando atingiu R$ 55 bilhões.
Parte do resultado de 2023 foi influenciada pelo pagamento extraordinário de precatórios, dívidas reconhecidas judicialmente.
Naquele ano, o governo quitou aproximadamente R$ 92 bilhões dessas obrigações, após decisão do Supremo Tribunal Federal que considerou inconstitucionais limitações estabelecidas durante o governo anterior.
O pagamento contribuiu para elevar o déficit naquele exercício, mas não explica sozinho a trajetória posterior do endividamento.
Em 2024 e 2025, o governo conseguiu reduzir a diferença entre receitas e despesas antes dos juros, sem interromper o crescimento da dívida bruta.
Estatais deficitárias
O resultado primário das empresas estatais também se deteriorou desde 2023. Segundo o Banco Central, essas companhias passaram de um superávit de R$ 6,1 bilhões em 2022 para um déficit de aproximadamente R$ 2,2 bilhões no primeiro ano do governo Lula.
Em 2024, o saldo negativo aumentou para R$ 8,1 bilhões. O resultado melhorou em 2025, mas permaneceu deficitário, em R$ 5,9 bilhões.
Já entre janeiro e setembro de 2026, as estatais acumularam déficit de R$ 11,4 bilhões, superando o resultado negativo de cada um dos três anos completos anteriores.
Considerando os resultados desde janeiro de 2023, o déficit primário acumulado das estatais chega a aproximadamente R$ 27,6 bilhões.
Juros ultrapassam trilhão
O custo da dívida tornou-se uma das principais dificuldades para a estabilização das contas públicas.
Em 2023, os juros nominais do setor público somaram R$ 718,3 bilhões. O valor aumentou para R$ 950,4 bilhões em 2024 e alcançou R$ 1,008 trilhão em 2025, superando pela primeira vez a marca anual de R$ 1 trilhão.
Entre outubro de 2025 e setembro de 2026, a despesa acumulada chegou a R$ 1,205 trilhão, equivalente a 8,99% do PIB. No mesmo intervalo, o déficit nominal, que inclui o resultado primário e os juros, atingiu R$ 1,275 trilhão.
A taxa Selic, o estoque da dívida e as operações financeiras do Banco Central influenciam diretamente essa despesa.
Em setembro, a incorporação de juros representou o principal fator de aumento do endividamento, segundo a autoridade monetária.
O crescimento dos gastos financeiros também restringe a capacidade de reduzir a dívida apenas com pequenos superávits primários.
Mesmo quando a arrecadação supera as despesas não financeiras, o governo ainda precisa financiar os juros incidentes sobre obrigações anteriores.
Crítica internacional
A deterioração fiscal foi um dos temas da reportagem publicada pela revista britânica The Economist em 22 de outubro, sob o título Brazil's weird economy needs serious reform, que pode ser traduzido como "A estranha economia do Brasil precisa de uma reforma séria".
A publicação reconheceu que o crescimento econômico brasileiro superou expectativas pessimistas, enquanto o desemprego permaneceu baixo e a inflação se manteve relativamente próxima da meta.
Entretanto, criticou a dificuldade do governo Lula de controlar os gastos públicos e a consequente pressão sobre o custo do crédito.
A revista também observou que a administração federal recebeu as contas públicas com superávit primário e passou a registrar déficits.
Para a The Economist, as despesas elevadas, a baixa poupança nacional e as dificuldades para reduzir os juros exigem reformas estruturais.
A análise foi publicada antes do segundo turno presidencial e não poupou o adversário de Lula, Flávio Bolsonaro.
A revista classificou como pouco plausível a economia prometida pelo candidato com redução de ministérios, digitalização administrativa e venda de imóveis públicos.
Segundo a avaliação da publicação britânica, nenhum dos dois candidatos havia apresentado disposição suficiente para enfrentar os mecanismos constitucionais e orçamentários que contribuem para o crescimento das despesas.
A The Economist também citou projeções do Fundo Monetário Internacional que apontavam dívida pública próxima de 97% do PIB em 2026, em metodologia diferente daquela utilizada pelo Banco Central na divulgação dos 82,9%.
Reajuste eleitoral
O governo Lula também ampliou as despesas sociais às vésperas da eleição presidencial.
Em 17 de setembro, a apenas 17 dias do primeiro turno, o presidente anunciou um reajuste de 15,04% no Bolsa Família, o primeiro aumento geral do valor mínimo desde a retomada do programa, em março de 2023.
Com a decisão, o benefício mínimo passou de R$ 600 para R$ 691 mensais. O benefício médio foi elevado de aproximadamente R$ 675 para R$ 777.
O reajuste não constava da proposta de Orçamento de 2027 enviada ao Congresso em 31 de agosto.
Segundo o Ministério do Planejamento, o custo adicional seria de R$ 5,8 bilhões em 2026 e aproximadamente R$ 22,7 bilhões no ano seguinte.
Durante entrevista à TV Globo em 15 de outubro, Lula foi questionado sobre a demora para corrigir os valores.
O presidente afirmou que desconhecia a ausência de reajuste e que determinou o aumento depois de cobrar explicações de sua equipe.
"Eu não sabia. É inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar a inflação no salário das pessoas, mas aconteceu", declarou.
Em fevereiro de 2025, o então ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, havia declarado que a possibilidade de reajuste estava sendo examinada.
Lula negou motivação eleitoral na decisão. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, também considerou que a correção não violava as regras eleitorais, uma vez que atualizava valores de um benefício existente sem alterar os critérios de elegibilidade.
Orçamento pressionado
Os números mais recentes indicam que o governo ainda enfrenta dificuldades para equilibrar receitas e despesas, embora alguns resultados tenham melhorado na comparação anual.
Segundo o Tesouro Nacional, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 90,2 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, ante R$ 100,3 bilhões no mesmo período de 2025. As despesas totais, entretanto, cresceram 5,4% acima da inflação nessa comparação.
O resultado pela metodologia do Banco Central, que utiliza critérios diferentes, mostra déficit primário de R$ 94,3 bilhões para todo o setor público consolidado nos nove primeiros meses de 2026.
No mesmo intervalo do ano anterior, o saldo negativo havia sido de R$ 79,2 bilhões.
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