A Bolsa brasileira chegou a despencar 17,34% nesta segunda-feira (26), após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, quando os mercados foram atingidos pela pandemia de Covid-19.
O mecanismo interrompeu as negociações por 30 minutos depois que o Ibovespa atingiu queda de 10% na abertura.
O dólar alcançou R$ 5,60, enquanto empresas como C&A e Vamos chegaram a perder mais da metade de seu valor de mercado durante o pregão.
A reação começou na noite de domingo (25), no horário de Brasília, quando um fundo de ações brasileiras negociado na Bolsa de Tóquio recuou 13%.
Nos Estados Unidos, o principal ETF de ações brasileiras, o EWZ, chegou a perder mais de 26% no pré-mercado.
O movimento contrariou as apostas de investidores na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), que havia liderado o primeiro turno, e expôs a diferença entre o comportamento dos ativos brasileiros no exterior e o desempenho das principais bolsas internacionais.
Primeiro impacto
O NEXT Funds Ibovespa Linked, administrado pela japonesa Nomura, foi um dos primeiros ativos a refletir o resultado eleitoral.
O fundo acompanha o desempenho do Ibovespa e havia avançado quase 8% após o primeiro turno, quando a possibilidade de mudança de governo impulsionou os investimentos ligados ao Brasil, segundo a Bloomberg Línea.
Para Marco Aurelio da Silva, mestre em Administração, consultor de empresas em negócios internacionais e docente dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha, o horário de funcionamento das bolsas explica a antecipação das perdas.
"A reação começou com forte intensidade na Ásia simplesmente devido ao fuso horário, já que as bolsas asiáticas são as primeiras a abrir no domingo à noite pelo horário de Brasília, tornando-se o primeiro canal de liquidez disponível para os investidores reagirem ao resultado eleitoral", explica.
O especialista diferencia a queda do fundo brasileiro da trajetória dos índices acionários da região. O
Nikkei 225, do Japão, encerrou o pregão com recuo de 0,80%, enquanto o Kospi, da Coreia do Sul, perdeu 1,46%. Em sentido contrário, o Hang Seng, de Hong Kong, avançou 0,51%, e o índice de Xangai subiu 0,19%.
Segundo Silva, os mercados locais estavam sujeitos a condições próprias, sem relação direta com a política doméstica brasileira.
Apostas desfeitas
A desvalorização atingiu principalmente ativos que haviam acumulado ganhos desde o primeiro turno.
Em Nova York, as ações da XP caíam mais de 45% antes da abertura regular, enquanto os recibos de Itaú e Bradesco registravam perdas próximas de 28% e 25%, respectivamente. A Petrobras recuava cerca de 23%.
"O mercado financeiro havia precificado em grande parte uma vitória da oposição nas semanas que antecederam o pleito, o que gerou um rali de alta nos ativos locais e a montagem de posições vendidas em dólar e compradas em bolsa", afirma Silva.
A avaliação ajuda a compreender por que o ajuste ocorreu de maneira tão intensa.
Investidores que haviam apostado na valorização das ações brasileiras e no fortalecimento do real precisaram rever suas posições após a confirmação da vitória petista.
"A magnitude da queda inicial reflete majoritariamente o desmonte rápido e desordenado dessas apostas eleitorais e a necessidade de ajustar o risco das carteiras", analisa.
O especialista ressalta, contudo, que a continuidade da pressão sobre os preços está associada às expectativas sobre gastos públicos, endividamento e diretrizes econômicas do próximo mandato.
Bolsas divididas
Enquanto os ativos brasileiros recuavam, os índices europeus começaram a segunda-feira em alta.
Na Alemanha, o DAX avançava 0,69% nas primeiras horas de negociação. O CAC 40, da França, subia 0,89%, e o Euro Stoxx 50, que reúne grandes empresas da zona do euro, registrava valorização de 0,39%.
O desempenho europeu contrastou com o brasileiro. Os investidores acompanhavam a queda do petróleo, os balanços empresariais e as decisões de juros previstas para esta semana.
O índice Stoxx 600 avançava 0,45%, reforçando que a turbulência provocada pelo resultado eleitoral estava concentrada nos investimentos expostos ao Brasil.
Limites da Bolsa
A intensidade das operações obrigou a B3 a ampliar duas vezes os limites inferiores de oscilação dos contratos futuros do Ibovespa, de 10% para 15% e, posteriormente, para 20%.
A mudança permitiu que os preços desses derivativos continuassem sendo ajustados diante da pressão vendedora. Silva diferencia essa medida da suspensão aplicada ao mercado à vista.
"O limite de oscilação dos contratos futuros bloqueia temporariamente a continuidade das negociações apenas naquele contrato derivativo específico negociado no mercado futuro quando ele atinge um teto percentual pré-determinado pela B3", esclarece.
O circuit breaker, por sua vez, segue regras relacionadas à queda do Ibovespa em comparação com o fechamento anterior.
Caso o índice alcance 15% de desvalorização após a primeira suspensão, a B3 prevê uma segunda interrupção, de uma hora.
Em uma queda de 20%, a bolsa pode determinar uma nova paralisação por prazo definido pela instituição.
Efeitos econômicos
A disparada da moeda americana poderá atingir os consumidores caso a desvalorização do real persista.
Produtos importados, componentes industriais e combustíveis estão entre os itens suscetíveis aos efeitos cambiais, embora a intensidade e a velocidade dos reajustes dependam de outros fatores.
"A desvalorização cambial prolongada se transmite rapidamente para a economia real ao encarecer insumos importados e combustíveis, pressionando a inflação e forçando o Banco Central a manter ou elevar a taxa Selic, o que encarece o crédito para famílias e empresas e desacelera os investimentos produtivos", adverte Silva.
O economista considera que a duração da turbulência será mais relevante para a economia do que as oscilações isoladas de um pregão.
Entre os indicadores que recomenda acompanhar estão os juros futuros de longo prazo, os spreads dos contratos de proteção contra inadimplência da dívida brasileira, conhecidos como CDS, e as expectativas de inflação registradas no Relatório Focus.
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