O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abandonou seu aliado histórico, a Ucrânia. Uma série de razões indicam os motivos do republicano ter tomado a decisão de estar mais próximo à Rússia neste momento.
Nas últimas semanas, Trump se esforça para reintegrar o presidente russo Vladimir Putin à diplomacia global, emplacando o líder ucraniano Volodmir Zelenski como o principal obstáculo do acordo de paz com a guerra entre Rússia e Ucrânia — a qual o americano insiste que está fazendo um bom papel como mediador das negociações.
Enquanto a Ucrânia é forçada a aceitar recuos estratégicos e cláusulas prejudiciais no acordo de paz, Trump aperta a mão de Putin ao se beneficiar de um contrato de diesel com a Rússia enquanto o conflito com o Irã persiste.
O cenário é complexo para o republicano, que tenta manter um Congresso favorável nas eleições de meio mandato nos EUA e precisa controlar a rejeição de seu governo entre a população americana. Para isso, ele é capaz de juntar Washington e Moscou em parceria curiosa da geopolítica.
Contrato de diesel com a Rússia
Com o seu partido diante da possibilidade de perder o controle do Congresso nas eleições de 3 de novembro, o presidente Donald Trump buscou formas de conter uma fonte significativa de descontentamento entre os eleitores: o alto custo dos combustíveis.
Trump anunciou recentemente seus planos de importar diesel da Rússia, buscando diminuir o impacto do aumento do combustível e inflação nos EUA causado pela guerra contra o Irã.
O republicano indicou que Vladimir Putin deve liberar imediatamente 300 mil toneladas de diesel "para o mercado americano e global", seguidas por várias outras remessas. A Rússia ainda forneceria mais 500 mil toneladas e em novembro e outras um milhão de toneladas em seguida.
Por outro lado, há poucas semanas, Trump sancionou uma lei que impõe sanções e tarifas aos países que importarem petróleo e gás russos. Legisladores ainda se questionam se a medida é legal.
Já os líderes da Ucrânia e seus apoiadores ficaram preocupados, visto que a receita proveniente das exportações de energia ajuda a financiar a guerra da Rússia contra o país vizinho.
Eleições de meio mandato
As eleições de midterm renovam toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. O presidente não aparece na cédula, mas o resultado costuma funcionar como um julgamento político dos dois primeiros anos de governo.
Neste ano, o próprio Trump decidiu assumir papel central na campanha. Ele anunciou uma maratona eleitoral de 32 dias e pediu aos republicanos que tratem novembro como se seu próprio nome estivesse nas urnas.
O cenário é particularmente importante na Câmara. Os republicanos possuem uma maioria mínima e enfrentam risco real de perdê-la. No Senado, os democratas precisam obter quatro cadeiras líquidas para assumir o controle.
Se Trump mantiver as duas Casas, terá muito mais espaço político para aprofundar a agenda externa durante os dois últimos anos de mandato.
Se perder uma ou ambas, continuará controlando a diplomacia e possuindo amplos poderes presidenciais, mas poderá enfrentar mais investigações, bloqueios orçamentários e resistência legislativa.
A dor de cabeça é grande: pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na última segunda-feira (19) mostra que a aprovação do presidente dos EUA caiu para o nível mais baixo já registrado, com somente 31% dos americano avliando seu governo como positivo. As principais preocupações estão na inflação e preço dos combustíveis.
Oligarca russo bancou casamento do filho
A relação de Trump com os russos não é recente. Um empresário russo com vínculos com o governo pagou pelas festas realizadas após o casamento do filho mais velho do presidente Trump, Donald Trump Jr., e da esposa, Bettina Trump.
O próprio casal confirmou a informação. O casamento aconteceu em maio deste ano.
Eles afirmaram que Umar Kremlev, seu "querido amigo", organizou duas noites de comemorações nas Bahamas para o casal.
O oligarca é presidente da Associação Internacional de Boxe (IBA, na sigla em inglês), entidade esportiva que o Comitê Olímpico Internacional rompeu relações ainda em 2023 por repetidas advertências sobre governança financeira e preocupações éticas.
Interferência russa nas eleições passadas
Outro fator que liga, indiretamente, a Rússia ao presidente Donald Trump é a investigação de interferência russa nas eleições americanas as quais o republicano participou.
Em 2016, na disputa entre Donald Trump e Hillary Clinton, investigações da inteligência americana, do Congresso e do procurador especial Robert Mueller concluíram que a Rússia interferiu na eleição por meio de ataques cibernéticos, roubo e divulgação de documentos do Partido Democrata e campanhas de propaganda nas redes sociais.
Segundo a avaliação da inteligência dos Estados Unidos, Vladimir Putin buscou prejudicar Clinton e favorecer Trump. O relatório Mueller documentou essas operações, mas não estabeleceu que a campanha de Trump tenha conspirado ou coordenado com o governo russo na operação de interferência. As investigações não demonstraram que a Rússia tenha alterado os votos ou determinado o resultado eleitoral.
Em 2024, por sua vez, na disputa entre Trump e Kamala Harris, autoridades americanas identificaram novas operações russas de influência, com vídeos falsos, sites que imitavam veículos de comunicação legítimos, perfis falsos e conteúdos manipulados por inteligência artificial.
Segundo investigações do Departamento de Justiça, funcionários da emissora estatal russa RT participaram de um esquema de financiamento encoberto de uma empresa americana de produção de conteúdo digital. A Microsoft também identificou campanhas russas destinadas a desacreditar Harris. As operações buscavam influenciar o debate político, ampliar divisões sociais e disseminar narrativas favoráveis aos interesses russos.
Porém, não há confirmação de que Trump estava por trás dessas interferências.
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