Um novo cenário político no Brasil se forma em meio ao resultado das eleições de 2026. A influência dos Estados Unidos e o "Trumpismo" no país pode se tornar mais forte nos próximos anos.
Porém, o Trumpismo não é simplesmente um apoio ao presidente dos EUA, Donald Trump.
Esse fenômeno é também caracterizado como uma forma contemporânea de nacional populismo, baseada em alguns elementos e premissas:
- nacionalismo econômico,
- discurso anti-establishment,
- personalização da liderança,
- polarização entre povo e elites,
- conservadorismo cultural,
- securitização da imigração e
- uma concepção muito transacional das relações internacionais.
José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica que outra característica importante é a tendência de concentrar politicamente e autoridade no Executivo e tensionar instituições que possam limitar a ação presidencial.
"Portanto, o Trump pode desaparecer da política em algum momento, mas o Trumpismo pode sobreviver a Trump. Ele já se transformou em repertório político exportável", afirma.
Segundo o especialista, no primeiro governo Trump, o efeito sobre o Brasil foi sobretudo ideológico e diplomático pela proximidade entre Jair Bolsonaro e Trump.
Já no atual mandato do republicano, a relação mudou de escala.
"Passamos da afinidade ideológica para instrumentos concretos de poder. Tivemos tarifas, expressões comerciais, sanções e uma tentativa estadunidense de projetar suas próprias disputas políticas sobre instituições brasileiras. O episódio Alexandre de Moraes é emblemático. Lembrando que, em julho de 2025, o governo Trump sancionou o ministro pela lei Magnitsky. Naquele mesmo mês, uma ordem executiva americana vinculou explicitamente medidas tarifárias contra o Brasil ao tratamento dispensado a Jair Bolsonaro e a decisões brasileiras sobre plataformas digitais. Isso é muito importante porque comércio, tecnologia, sanções e política passaram a fazer parte de uma mesma estratégia de pressão", explica.
O Trumpismo e Flávio
O primeiro turno das eleições, que aconteceu no último domingo (4), terminou com vantagem ao senador Flávio Bolsonaro (PL) em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em um possível mandato do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o professor de Relações Internacionais avalia que poderá haver convergência maior entre Brasília e Washington em temas como segurança, combate ao crime organizado, política migratória, valores conservadores e contenção da presença chinesa no Hemisfério.
Ainda assim, existe um limite estrutural. De acordo com Silveira, isso acontece porque Brasil e Estados Unidos não possuem interesses idênticos.
"O Brasil integra os BRICs, tem a China como parceiro econômico fundamental e possui tradição diplomática de autonomia. Então, uma eventual política externa, fortemente alinhada a Washington, poderia produzir tensão entre afinidade ideológica e interesse nacional. Talvez esse seja o ponto mais interessante. Até onde iria o alinhamento quando os interesses brasileiros divergissem dos interesses americanos", pondera.
Vale lembrar que uma possível vitória de Lula no segundo turno não seria capaz de barrar o Trumpismo, mas criaria um contrapeso ao fenômeno na principal potência política econômica da América do Sul.
"Então, um fenômeno é maior do que uma eleição brasileira. Há movimentos políticos semelhantes em diferentes países. Existe uma circulação internacional de discursos, estratégias eleitorais e agendas. Uma vitória de Lula significaria provavelmente maior defesa do multilateralismo, dos BRICs, da autonomia diplomática brasileira e de uma relação mais equilibrada entre Estados Unidos, China, Europa e sul-global. Mas também existe uma novidade fundamental após a eleição legislativa: mesmo vencendo, Lula teria de governar diante de um congresso significativamente deslocado para a direita", afirma o professor.
Portanto, a presidência poderia funcionar como um contrapeso externo, enquanto internamente haveria uma correlação de forças muito mais complexa.
O efeito na América Latina
Uma América Latina sob forte influência Trumpista poderia significar uma reorganização hemisférica, na avaliação do professor.
"Os Estados Unidos parecem recuperar uma concepção de esfera de influência. Segurança, combate ao narcotráfico, migração, minerais críticos, cadeias produtivas e sobretudo com tensão da China. Isso lembra, guardada de todas as diferenças históricas, uma atualização da lógica da Doutrina Monroe", explica.
Washington procura reafirmar que o Hemisfério Ocidental constitui uma área estratégica prioritária para os Estados Unidos. Para a América Latina, o grande problema é que essa tentativa pode aumentar a polarização regional.
Países mais próximos de Washington, de um lado, governos interessados em preservar relações simultâneas com a China, Estados Unidos e BRICs, de outro.
O especialista ainda alerta para um paradoxo: quanto maior a pressão americana para afastar a China da América Latina, maior pode ser incentivo para alguns países latino-americanos buscar a autonomia, justamente diversificando suas relações internacionais.
Portanto, o Trumpismo pode produzir alinhamento, mas também pode produzir resistência.
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