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Política

Anti-bolsonarismo, pautas populistas e mais: o que reelegeu Lula?

O presidente venceu as eleições após uma virada histórica do primeiro para segundo turno

Lula
Diversos fatores contribuíram para uma vitória impressionante do primeiro presidente do país a ter quatro mandatos por voto popular (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito no último domingo (25) com 51,76% dos votos válidos, o equivalente a 64.113.797 votos no total. Em um contexto de alta polarização, no entanto, não existe uma única questão que leve a compreensão do que foi determinante para a vitória do petista.

Pela primeira vez desde a redemocratização, um candidato que perdeu para o adversário no primeiro turno conseguiu virar o cenário. Lula teve uma diferença de 4.359.003 votos para seu adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PT).

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Para Rodrigo Prando, cientista político e docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, diversos fatores contribuíram para uma vitória impressionante do primeiro presidente do país a ter quatro mandatos por voto popular.

"É a questão de um avião: quando ele cai, não é por um único fator. Você tem questões humanas, tecnológicas e climáticas. Então, um avião cai pela conjugação de alguns fatores. Pois bem, não existe uma única questão que leve a compreensão do que foi determinante para a vitória e a eleição de Lula", afirma Prando.

Anti-bolsonarismo

Ainda assim, ele acredita que o movimento anti-bolsonarismo pode ter um peso levemente maior do que os outros, como o anúncio de medidas apelativas ao eleitorado — fim da escala 6x1, proibição das bets, reajuste do Bolsa Família e Prospera MEI, por exemplo.

"A pesquisa Quaest já havia captado que o aumento do número daqueles que diziam ter mais medo do retorno dos Bolsonaro no poder do que a continuidade do Lula. Então, é óbvio que numa eleição polarizada como essa, o anti-bolsonarismo teve um papel evidente", reitera.

Ele inclusive associa a queda da abstenção no segundo turno pelo medo do retorno do clã Bolsonaro no poder na figura de Flávio. 

O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 registrou a menor taxa de abstenção em 20 anos, com 19,22% dos eleitores aptos deixando de comparecer às urnas. O número caiu de 33.469.244 no cidadãos que não votaram no primeiro turno, para 30.509.005 de eleitores no segundo, diferença de mais de 2,9 milhões de pessoas.

Efeito da campanha digital

No primeiro turno, que aconteceu em 4 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marcou 45,14% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,04%.

Para Prando, a mobilização de apoio ao presidente nas redes sociais — e eventualmente nas ruas — foi essencial nas três semanas entre primeiro e segundo turno para alcançar o resultado deste domingo.

O Brasilianista mostrou como Lula precisou comprimir e divulgar 4 anos de mandato em três semanas de "intensivão" nas redes sociais com ajuda de quem nunca teve espaço na cabeça de campanha: os jovens.

O novo formato de engajamento, que o bolsonarismo já dominava, foi encabeçado pelo deputado André Janones (Rede). Um canal do WhatsApp chamado "EXÉRCITO DO LULA", liderado por Janones, saiu de 600 mil seguidores para mais de 1 milhão em menos de 24 horas. Até dois dias antes do segundo turno, o grupo já marcava 10 milhões de seguidores.

Estratégia de redes sociais, transmissões ao vivo e apoiadores tiveram um papel que não se restringiu às plataformas digitais. As manifestações em apoio à Lula também marcaram a presença de milhões de brasileiros que reforçaram os esforços das redes sociais.

A hipótese do cientista político é de que as redes permitiram uma coesão simbólica tão grande que reverberou nas manifestações de rua.

"André Janones fez sozinho no segundo turno o que toda a equipe de campanha não fez no primeiro turno. Então, eu diria que até mesmo a força das redes sociais comandada por Janones reverberou nas ruas e levou muitos jovens para as ruas", avalia o cientista político.

Por sua vez, a manifestação de rua, que provavelmente levou aqueles já convertidos para as manifestações, deu sinais de força simbólica a um movimento de recusa do candidato Flávio Bolsonaro e de expressão de força, de coesão simbólica entre os eleitores do Lula e a militância petista.

"As movimentações de Janones primeiro retomaram as redes sociais que estava nas mãos, não apenas da direita, mas da extrema-direita, e fez com que as pessoas voltassem a usar a camisa da seleção, que era um símbolo capturado pelo bolsonarismo. E, em terceiro lugar, a ocupação de espaços públicos, como a Avenida Paulista", explica Prando.

Pautas populistas

Poucas semanas antes do primeiro turno e entre os dois pleitos, o governo federal anunciou uma série de medidas populistas. Além disso, o Congresso aprovou o fim da escala 6x1, que era uma das principais pautas de campanha de Lula.

O principal foi o reajuste do Bolsa Família para corrigir os valores da inflação. O valor do benefício estava fixado desde 2023, mas o aumento anunciado é de 15%.

A medida elevou o valor mínimo de R$ 600 para R$ 690, além de elevar o benefício médio. Entre as controvérsias da medida, o projeto não está incluído no PLOA 2027 enviado ao Congresso, mas Lula afirma que tudo o que foi aprovado está dentro do limite fiscal.

Outra pauta foi a proibição das bets, que restringiu a operação e publicidade das apostas online ainda em outubro. O texto foi enviado ao Congresso por meio de Medida Provisória, ou seja, os parlamentares têm até o final de janeiro de 2027 para aprovar ou não a restrição às bets. A medida gerou forte controvérsia e, como informaram especialistas, pode ampliar o mercado ilegal de apostas.

Entre o primeiro e seegundo turno, o Senado ainda avançou e aprovou o fim da escala 6x1, considerada uma das medidas populistas de principal foco do ano. O senador Flávio Bolsonaro ainda mudou de opinião dias antes da votação, alegando que votaria à favor da redução da jornada de trabalho.

"Eu acredito que todas essas medidas foram sim favoráveis ao presidente Lula [nas eleições]. O problema agora é eleito ter que pagar tudo isso. O presidente tinha uma estratégia dupla: de um lado, precisava diminuir a rejeição e desaprovação do governo. Do outro, haveria a necessidade de desgastar o Flávio Bolsonaro", avalia Prando.

Desgaste da figura de Flávio

Para a sorte da campanha do presidente Lula, segundo o cientista político, "os bolsonaristas dão munição em muita abundância para que eles sejam desgastados".

A narrativa da campanha do petista em desgastar a imagem do adversário, especialmente nas alegações de supostamente estar envolvido com milícias e o caso Dark Horse e sua relação com Daniel Vorcaro, também foi determinante.

Ao mesmo tempo, o professor indica que a conjugação, desde o ano passado, do discurso da defesa da soberania, quando Donald Trump anunciou o tarifaço, a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, o fim das bets e escala 6x1, projeto de distribuição de canetas emagrecedoras para o SU e a recomposição do Bolsa Família levou a uma melhora na avaliação do governo e numa disputa tão apertada.

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