Geopolítica

Milei derruba inflação, mas argentinos acumulam dívidas e veem economia piorar

Perda de empregos, salários comprimidos, fechamento de empresas e quase 6 milhões de inadimplentes aumentam desgaste do presidente argentino

Javier Milei
Inflação mensal caiu para menos de 2% Foto: creative commons

Javier Milei conseguiu reduzir a inflação argentina, uma das principais promessas de seu governo.

A inflação argentina deixou os patamares explosivos encontrados no início do governo e caiu para 1,7% em agosto, menor taxa mensal em mais de um ano.

A inflação em 12 meses ficou em 33,5%, ainda elevada, mas muito abaixo dos mais de 200% registrados antes da estabilização.

O problema para o presidente argentino é que a melhora dos indicadores macroeconômicos não chegou da mesma forma ao bolso da população. 

Houve um aumento da percepção de piora da economia, enquanto emprego formal, indústria, salários e consumo enfrentam dificuldades.

Ao mesmo tempo, mais de 20 milhões de argentinos possuem algum tipo de dívida e cerca de 6 milhões estão com pagamentos atrasados.

O cenário coloca Milei diante de um novo desafio às vésperas da campanha pela reeleição em 2027.

Depois de convencer parte dos argentinos de que era necessário suportar um ajuste para controlar os preços, ele agora precisa mostrar que a estabilização será transformada em emprego e renda.

Inflação cai

Quando Milei chegou à Casa Rosada, em dezembro de 2023, a Argentina enfrentava inflação mensal de dois dígitos e uma crise fiscal prolongada.

O governo reduziu despesas, eliminou subsídios, desregulamentou setores, abriu a economia e adotou uma política monetária restritiva. O resultado mais visível apareceu nos preços.

A inflação, que chegou a cerca de 13% ao mês pouco antes de sua posse e disparou ainda mais no início do ajuste, agora está abaixo de 2%.

O governo também passou a apresentar superávits fiscais e aumentou as reservas internacionais.

Milei trata o resultado como prova de que seu programa funciona e não demonstra intenção de moderá-lo.

“Há muito mais gastos a cortar e muitos mais impostos a reduzir”, afirma Javier Milei.

O presidente promete que uma eventual segunda etapa será ainda mais agressiva.

“O próximo pacote de reformas será muito mais profundo”, antecipa o argentino.

Economia desacelera

A inflação deixou de ser, porém, a única preocupação do eleitor. O governo projetava crescimento de 5% para a economia em 2026, mas meses de atividade fraca fizeram analistas reduzirem as projeções para algo próximo da metade desse número.

O crescimento também está concentrado em petróleo, mineração e agricultura, setores que empregam proporcionalmente menos trabalhadores.

Enquanto isso, manufatura e construção continuam pelo menos 10% abaixo do nível observado quando Milei assumiu.

O próprio Fundo Monetário Internacional reconhece os dois lados do programa. A instituição destaca a queda da inflação, os superávits fiscais e a retirada de controles, mas registra desaceleração da atividade e do emprego desde meados de 2025, aumento da informalidade e baixo crescimento dos salários reais.

Argentinos pessimistas

É essa diferença entre estabilização e vida cotidiana que começa a aparecer nas pesquisas.

Levantamento da Giacobbe & Associados realizado no fim de agosto apontou que 58,9% dos argentinos consideravam que a economia estava piorando. Apenas 28,5% disseram perceber melhora diretamente em sua situação.

Outros 7,3% acreditavam que a economia estava melhorando, mas ainda não sentiam os efeitos.

Outro levantamento, da QSocial, mostrou que 75% das famílias precisaram reduzir despesas para chegar ao fim do mês, enquanto 60% disseram não conseguir poupar. Para 59%, a situação do país estava pior do que no início do governo Milei.

Uma pesquisa mais recente da AtlasIntel também encontrou avaliação negativa: 63% classificaram a situação econômica como ruim, e 70% disseram o mesmo sobre o mercado de trabalho.

Menos empregos

Desde 2023, o setor privado formal argentino perdeu cerca de 230 mil postos de trabalho, redução de 3,6%. 

O próprio governo eliminou aproximadamente outros 86 mil empregos públicos.

Parte dos trabalhadores migrou para atividades informais ou para regimes destinados a pequenos prestadores de serviços.

Isso ajudou a conter estatisticamente a alta do desemprego, mas modificou a qualidade das ocupações.

No setor industrial, o impacto aparece de forma ainda mais clara. Desde 2024, cerca de 90 mil empregos industriais foram perdidos e aproximadamente 30 mil empresas fecharam, em meio à queda da demanda interna e ao aumento da concorrência com produtos importados.

A abertura comercial é uma das apostas centrais de Milei. Para o governo, empresas ineficientes não devem ser protegidas indefinidamente da concorrência internacional.

Os industriais veem outro problema. “É como se estivéssemos financiando nossa própria autodestruição”, critica Martín Rapallini, presidente da União Industrial Argentina.

Dívida explode

Mais de 20 milhões de argentinos têm dívidas, segundo dados do Banco Central e de consultorias reunidos pela BBC.

Cerca de 6 milhões estão em mora, com pagamentos atrasados ou inadimplência.

Em uma população de pouco mais de 46 milhões de habitantes, aproximadamente um em cada três argentinos enfrenta dificuldades para quitar compromissos com bancos, carteiras digitais, lojas ou credores informais.

Em agosto, Buenos Aires recebeu a primeira marcha de pessoas endividadas, que cobraram alternativas para refinanciar débitos.

Compras básicas

O endividamento não está ligado apenas a carros, viagens ou produtos de maior valor.

Dirigentes do sistema financeiro relataram que grande parte dos atrasos em cartões está relacionada a compras básicas.

“Cerca de 90% do atraso de pagamento de cartões de crédito são compras de supermercado”, relata o diretor do Cepa.

É justamente esse ponto que organizações de endividados utilizam para contestar a interpretação do governo de que o problema resulta principalmente de escolhas individuais de consumo.

Em bancos com crédito considerado mais barato, a taxa nominal anual chegava a aproximadamente 70%, enquanto a inflação esperada para os 12 meses seguintes estava perto de 30%.

Milei rebate

Milei rejeita a ideia de que seu programa seja responsável pelo aumento do endividamento.

Ao comentar a expansão das dívidas das famílias, o presidente chegou a relacionar parte do fenômeno às compras de televisores durante a Copa do Mundo.

Em entrevista ao La Nación, questionou se alguém havia colocado “uma pistola na cabeça” dos consumidores para obrigá-los a assumir dívidas, rebateu Milei, segundo relato reproduzido pela BBC.

O governo também considera que dívidas contraídas entre cidadãos e instituições financeiras pertencem essencialmente à esfera privada e resiste à criação de mecanismos amplos de renegociação patrocinados pelo Estado.

A posição começa a encontrar pressão política. Propostas para enfrentar o endividamento já chegaram ao Congresso argentino.

Pobreza recua

Nem todos os indicadores sociais caminham na direção negativa. A pobreza, que disparou no começo do ajuste, posteriormente caiu.

A taxa de probreza do país está em aproximadamente 28%, cerca de um terço abaixo de níveis registrados na primeira etapa do governo.

O FMI também reconhece que a estabilização e a recuperação econômica depois da forte contração inicial contribuíram para reduzir a pobreza.

O problema é que o avanço deixou de ser uniforme. Construção e indústria continuam atrás de setores como energia, mineração e agronegócio.

Abertura comercial

Milei aposta que a exposição à concorrência internacional eliminará estruturas pouco produtivas e permitirá que recursos sejam direcionados a setores mais competitivos.

Importações aumentaram depois da retirada de restrições e tarifas. Para consumidores, isso significa acesso a determinados produtos por preços menores.

Para fabricantes argentinos, significa competir com mercadorias estrangeiras enquanto enfrentam juros, impostos e custos locais elevados.

Esse choque já aparece em fábricas tradicionais. Empresas reduziram produção, demitiram funcionários ou fecharam as portas diante da combinação de consumo interno fraco e aumento das importações.

Milei não considera esse processo motivo para interromper a abertura.

Popularidade cai

A consequência política começa a aparecer. A aprovação do presidente se aproxima de 30%.

A inflação, que dominava as preocupações dos argentinos quando Milei chegou ao poder, caiu para a oitava posição entre os principais problemas citados pelos eleitores.

Emprego e salários passaram para o topo da lista.

A aprovação de Milei está em 33%, abaixo dos 49% registrados no fim de 2025.

Também pesam denúncias e escândalos políticos envolvendo integrantes do governo, que passaram a disputar espaço com o debate econômico.

Milei reagiu aumentando os ataques à imprensa e mantém o discurso de que não mudará suas principais políticas para melhorar sua situação eleitoral.

“Não vou parar de fazer o que é certo só pelo resultado da eleição”, garante o presidente argentino.

Siga O Brasilianista!