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Geopolítica

Acordo com países ricos da Europa pode abrir mercado que o Brasil ainda não sabe aproveitar

Tratado Mercosul–EFTA já começou a valer para a Islândia e terá novas regras comerciais com a Noruega em novembro

Europa
Especialista aponta oportunidades para o agronegócio e a indústria, mas alerta que pequenas empresas podem ficar de fora (Foto: Christian Lue/Unsplash)

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) abriu uma nova possibilidade de acesso dos produtos brasileiros a quatro dos mercados de maior renda da Europa.

O tratado, assinado em setembro de 2025, começou a vigorar entre Brasil e Islândia em 1º de outubro de 2026 e terá aplicação também com a Noruega a partir de 1º de novembro.

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A Suíça e Liechtenstein ainda precisam concluir seus procedimentos internos para colocar em funcionamento as preferências comerciais negociadas.

A abertura, entretanto, não significa que empresas brasileiras conseguirão ampliar imediatamente suas exportações.

Além da redução das tarifas, os produtores precisam atender às exigências sanitárias, comprovar a origem das mercadorias e cumprir requisitos ambientais.

Em entrevista ao O Brasilianista, Marco Aurelio da Silva, mestre em Administração, consultor de empresas em Negócios Internacionais e professor dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha, explica quais setores podem se beneficiar do acordo e por que os grandes exportadores tendem a aproveitar primeiro as oportunidades.

Mercado europeu

A EFTA reúne Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, países que não integram a União Europeia como membros do bloco.

O acordo estabelece condições preferenciais para o comércio de produtos agrícolas e industriais, além de compromissos relacionados a serviços, investimentos, compras governamentais e desenvolvimento sustentável.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), quase 99% do valor das exportações brasileiras destinadas à EFTA estará contemplado por condições de livre comércio quando as disposições correspondentes entrarem em vigor.

Isso não significa eliminação imediata de todas as tarifas, já que determinados produtos dependem de cotas ou de cronogramas específicos.

A Suíça e a Noruega respondem, juntas, por 94% das exportações brasileiras destinadas à associação.

A concentração torna esses dois países particularmente relevantes para empresas interessadas em aproveitar o tratado.

Nesta terça-feira (20), o governo brasileiro publicou regras para distribuição das cotas de exportação destinadas ao mercado norueguês, incluindo carne bovina, frango, mel, milho, maçãs e suco de maçã.

A medida estabelece procedimentos para que exportadores solicitem os benefícios previstos no acordo.

Entretanto, a possibilidade de vender com tarifas menores continua condicionada à existência de demanda, à capacidade de produção e ao cumprimento das normas de cada mercado.

Confira a entrevista completa

Quais setores e produtos brasileiros têm maior potencial para ampliar as exportações aos países da EFTA? Que barreiras comerciais ou regulatórias ainda dificultam esse acesso?

Marco Aurelio da Silva - O bloco da EFTA oferece um mercado consumidor de altíssima renda, representando uma oportunidade expressiva para o agronegócio e a indústria de alimentos do Brasil, com destaque para a ampliação do envio de carnes, café, complexo soja e sucos de frutas.

Além disso, setores como o de mineração, insumos industriais e nichos específicos de manufaturados podem expandir sua presença na cadeia de suprimentos europeia.

No entanto, o acesso a esses mercados exige superar importantes barreiras não tarifárias. Suíça e Noruega adotam padrões extremamente rigorosos de controle sanitário e fitossanitário, além de exigências crescentes de sustentabilidade, rastreabilidade e critérios ambientais.

A complexidade das legislações alfandegárias locais e os elevados custos logísticos e tributários internos desses países também se mantêm como desafios relevantes para o exportador brasileiro.

As empresas brasileiras, especialmente as pequenas e médias, estão preparadas para aproveitar as oportunidades do acordo ou os benefícios tendem a se concentrar nos grandes exportadores?

Marco Aurelio da Silva - Os benefícios do acordo tendem a se concentrar de imediato nos grandes exportadores e tradings, que possuem escala, departamentos técnicos especializados e capacidade financeira para absorver custos de adequação regulatória.

As pequenas e médias empresas brasileiras enfrentam desafios estruturais mais acentuados, como o desconhecimento operacional das regras de origem, a dificuldade de acesso ao crédito competitivo e os altos custos para obter as certificações exigidas pelos países do bloco.

Para que as PMEs possam usufruir dessas preferências tarifárias, é indispensável a implementação de políticas públicas voltadas à facilitação de comércio, ações de inteligência de mercado direcionadas a nichos específicos e a redução das burocracias aduaneiras na ponta do processo.

Como o acordo pode alterar a posição do Brasil nas negociações comerciais internacionais e quais medidas seriam necessárias para transformar a abertura de mercado em aumento efetivo das exportações?

Marco Aurelio da Silva - A consolidação do acordo com a EFTA fortalece a credibilidade do Brasil nas negociações internacionais, sinalizando ao mercado global uma postura pragmática de inserção comercial e convergência regulatória.

Para converter a abertura de mercado em um crescimento real das vendas externas, o Brasil precisa atuar em duas frentes. Internamente, é preciso reduzir o custo produtivo e logístico por meio da modernização da infraestrutura e do ambiente de negócios.

Na frente promocional, é essencial intensificar a difusão de informação técnica sobre o uso do acordo, apoiando as empresas no cumprimento das normas de origem e na certificação de sustentabilidade exigida pelas nações europeias.

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