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Justiça

A esquerda e a corrupção

Do Mensalão, Lava Jato às investigações sobre a fraude do INSS, a esquerda política esteve envolvida em diversos casos de desvios de verbas

Jaques Wagner e Dilma Rousseff
Os escândalos de corrupção da esquerda ajudaram a pressionar governos (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Há nomes relevantes da esquerda política que fazem parte das investigações do caso do Banco Master, como é o caso do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado.

A Polícia Federal apura suspeitas de que ele teria recebido vantagens indevidas ligadas ao ex-sócio do Master Augusto Ferreira Lima, incluindo a negociação de um apartamento em Salvador, pagamentos a empresas ligadas a familiares e benefícios como voos e ingressos para shows. Os investigadores também examinam sua atuação parlamentar em temas de interesse do banco.  

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No entanto, ele nega irregularidades e indica que não possui relação com o ex-dono do banco, Daniel Vorcaro. 

O Brasilianista mostrou que das 41,6 mil interações identificadas entre Daniel Vorcaro e políticos ou autoridades brasileiras, 90% ocorreram com figuras classificadas como de direita. Outros 9% envolveram nomes de centro e 1%, de esquerda.

Outros nomes da esquerda mencionados nas relações com Vorcaro incluem Guido Mantega, ex-ministro do Planejamento e Orçamento do governo Lula, que foi contratado como consultor do Banco Master e intermediou o encontro entre o presidente e Daniel Vorcaro em 2024; e também Rui Costa (PT), ex-ministro da Casa Civil, que é investigado pelo aumento do Credcesta durante sua gestão como governador na Bahia.

Ainda assim, o caso Master não é o único escândalo de corrupção que políticos e aliados da esquerda já foram mencionados e investigados.

Anões do Orçamento

Durante o governo de Itamar Franco, parlamentares foram investigados por um esquema de manipulação do Orçamento da União.

Apesar dos principais alvos da investigação serem de centro ou direita, parlamentares da esquerda foram responsáveis pelas denúncias e investigação.

O caso veio à tona em 1993 e foi investigado por uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI). Parlamentares eram suspeitos de manipular emendas orçamentárias para direcionar recursos públicos a empreiteiras e entidades, inclusive organizações fictícias.

Entre os mecanismos investigados estavam o favorecimento de empresas em obras públicas e o desvio de verbas por meio de entidades beneficiadas com recursos do Orçamento.

O termo "anões" surgiu porque os líderes do esquema eram deputados de baixa estatura física e, individualmente, possuíam pouca expressão ou projeção nacional dentro da política brasileira, agindo de forma silenciosa nos bastidores do Congresso. O ex-deputado João Alves, um dos principais personagens, chamou atenção ao alegar que sua fortuna vinha de ganhos extraordinários na loteria.

Para a esquerda, o escândalo serviu como instrumento político e discursivo para criticar o modelo de governabilidade tradicional da direita e do chamado "Centrão".

Caso Celso Daniel e propinas em Santo André

Um esquema de propinas em Santo André entre 1997 e 2001 durante o governo municipal de Celso Daniel (PT), então prefeito da cidade, desencadeou em condenação do próprio partido anos depois.

O caso envolve acusações de que integrantes da administração municipal teriam cobrado propinas de empresas de transporte coletivo. Segundo a sentença de primeira instância, os pagamentos teriam ocorrido entre agosto de 1997 e dezembro de 2001, com parte dos recursos destinada a interesses partidários.

Em janeiro de 2002, o prefeito foi sequestrado e assassinado. No entanto, não há comprovações de que os casos estejam relacionados.

Em 2016, a Justiça paulista condenou o diretório nacional do PT, em ação civil de improbidade administrativa, a ressarcir R$ 3,5 milhões e pagar multa de R$ 10,5 milhões, totalizando R$ 14 milhões. Também foram condenados outros réus, entre eles Gilberto Carvalho e pessoas apontadas como operadores do esquema. 

Caso Waldomiro Diniz

Waldomiro Diniz era assessor da Casa Civil e tinha ligação política com o ministro José Dirceu. Em fevereiro de 2004, a divulgação de uma gravação mostrou Diniz negociando com o empresário de jogos Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, e pedindo dinheiro para campanhas eleitorais e para si próprio. Na conversa, também se discutia a possibilidade de influenciar uma licitação.

O caso provocou uma crise no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à época no seu primeiro mandato, e levou a pedidos de investigação parlamentar.

A repercussão foi ampliada porque Diniz havia ocupado funções na administração de loterias do Rio de Janeiro e mantinha relações com pessoas interessadas em contratos públicos.

O episódio antecedeu a crise dos Correios e o Mensalão, e contribuiu para aumentar a pressão sobre o governo Lula.

Máfia dos Vampiros

A chamada Máfia dos Vampiros envolveu suspeitas de manipulação de licitações e superfaturamento em compras de medicamentos e hemoderivados no Ministério da Saúde durante o primeiro governo Lula. O caso iniciado na década de 1990 levou a investigações e operações policiais em 2004.

O Ministério Público Federal (MPF) chegou a apresentar uma denúncia formal contra o então ministro da pasta em 2006, Humberto Costa. Os procuradores argumentavam que ele tinha conhecimento das fraudes em andamento em sua pasta e que teria dado respaldo político a servidores envolvidos.

Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT também foi denunciado pelo MPF sob a acusação de que parte do dinheiro desviado pelo esquema de compra de hemoderivados teria beneficiado o caixa do partido.

A operação prendeu e afastou diversos servidores e diretores nomeados ou mantidos no Ministério da Saúde, além de lobistas que faziam a ponte entre as empresas farmacêuticas e o governo. 

Em 2010, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região absolveu Humberto Costa de forma unânime, após o próprio Ministério Público reconhecer a insuficiência de provas de que o ex-ministro tivesse participado ativamente ou se beneficiado das fraudes.

Escândalo dos Correios

A crise ganhou força em 2005, após a divulgação de uma gravação na qual o então funcionário dos Correios Maurício Marinho aparecia recebendo dinheiro e mencionando relações com integrantes do meio político. O caso gerou uma CPI e ampliou as investigações sobre contratos, indicações políticas e atuação de partidos da base governista.

O episódio foi um dos principais detonadores da crise política de 2005. As denúncias levaram a investigações mais amplas sobre o financiamento de partidos e a relação entre o governo e parlamentares.

A crise dos Correios contribuiu para trazer a público as denúncias que levaram à investigação do Mensalão. Isso não significa, contudo, que todos os investigados na estatal participassem do esquema de pagamentos a parlamentares.

Mensalão

Um dos principais escândalos dos primeiros governos de Lula, o Mensalão tornou-se público em 2005, após denúncias relacionadas ao sistema de pagamentos e ao financiamento político.

O esquema funcionava como uma compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional em troca de apoio a projetos do governo Lula. Eram utilizados recursos públicos e privados, operados pelo publicitário Marcos Valério e por dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT).

A investigação envolveu dirigentes partidários, operadores financeiros, empresários e parlamentares. Entre os nomes centrais estavam José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e Marcos Valério.

Em 2006, a Procuradoria-Geral da República(PGR) denunciou 40 pessoas. O STF julgou a Ação Penal 470 em 2012 e condenou diversos réus por crimes como corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato, conforme as imputações individuais. Não houve condenação de todos os acusados, e cada réu teve uma situação processual própria.

Dossiê dos Aloprados

Durante a campanha presidencial de 2006, integrantes e pessoas ligadas ao PT foram envolvidos em uma tentativa de comprar um dossiê que supostamente comprometeria candidatos do PSDB.

Integrantes do PT foram presos em flagrante pela Polícia Federal com R$ 1,75 milhão para comprar um dossiê falso que tentava ligar José Serra (PSDB) à "máfia das sanguessugas", que desviava dinheiro público da compra de ambulâncias.

A operação foi descoberta antes que o conteúdo fosse apresentado como prova política.

O episódio ficou conhecido como caso dos aloprados depois que Lula usou o termo para se referir aos envolvidos.

Lava Jato

A Operação Lava Jato representou um dos maiores escândalos do governo de Dilma Rousseff e que desencadeou na pressão política que resultou no impeachment da ex-presidente.

A Lava Jato começou em março de 2014, inicialmente com investigações sobre doleiros e operações financeiras. O trabalho avançou para contratos da Petrobras, empreiteiras, operadores financeiros e agentes públicos.

Segundo o histórico do MPF, a operação começou com investigações de organizações criminosas e se expandiu para diferentes estados e núcleos.

Entre as legendas com maior número de investigados estavam PP, PMDB, atualmente MDB, e PT.

Entre os mecanismos investigados estavam:

  • contratos públicos supostamente superfaturados;
  • pagamento de propina a agentes públicos;
  • repasses por operadores financeiros;
  • lavagem de dinheiro;
  • formação de cartel entre empresas;
  • utilização de recursos ilícitos em benefício de agentes políticos e partidos.

A operação atingiu pessoas de diferentes partidos e níveis de governo. Integrantes do PT e de partidos da base governista foram investigados, assim como políticos de outras legendas.

O conjunto de processos da Lava Jato teve resultados diferentes. Houve condenações e acordos, mas também absolvições, arquivamentos e anulações.

No PT, a operação alcançou dirigentes como José Dirceu, Antonio Palocci e João Vaccari Neto, além do próprio Lula.

As condenações do presidente nos processos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia foram anuladas pelo Supremo em 2021, depois do reconhecimento da incompetência da Justiça Federal de Curitiba.

No caso do tríplex, a Corte também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro.

A operação sofreu reveses posteriores no Judiciário, incluindo anulações de provas e decisões condenatórias.

Operação Custo Brasil

A Operação Custo Brasil, deflagrada em 2016, investigou suspeitas de irregularidades em contratos de serviços de tecnologia relacionados à gestão de crédito consignado de servidores públicos. Paulo Bernardo, ex-ministro dos governos Lula e Dilma, esteve entre os investigados.

A apuração examinou suspeitas de pagamentos ilegais e a atuação de intermediários.

Fraude do INSS

A Operação Sem Desconto, deflagrada em 2025, é uma das crises mais recentes repercutidas no governo Lula. A Polícia Federal investiga suspeitas de descontos associativos não autorizados em benefícios previdenciários entre 2019 e 2024 — entre o governo de Jair Bolsonaro e o 3º de Lula — que resultaram em um rombo de mais de R$ 6 bilhões na Previdência.

Segundo material oficial da Controladoria-Geral da União (CGU), auditorias iniciadas em 2023 examinaram entidades que mantinham acordos de cooperação com o INSS. A Controladoria informou ter entrevistado 1.300 aposentados e identificado indícios de que a maioria dos entrevistados não havia autorizado os descontos. Também apontou falhas na documentação e na estrutura operacional de parte das entidades examinadas. 

O caso provocou questionamentos sobre os mecanismos de controle do INSS desde o governo Bolsonaro, a fiscalização de convênios e a atuação de agentes públicos.

Alessandro Stefanutto, o ex-presidente do INSS nomeado na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, foi demitido do cargo após o avanço das investigações. Ele foi indiciado pela Polícia Federal em julho de 2026 sob suspeitas de inserção de dados falsos, organização criminosa e corrupção.

Embora não figure nominalmente na lista de indiciados criminais por desvios direta no topo dos operadores do esquema, o ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, enfrentou forte desgaste político. A oposição no Congresso e a CPMI instalada para apurar o caso miraram sua gestão pelo expressivo aumento do volume de descontos indevidos registrados entre 2023 e 2024.

Lulinha e Roberta Luchsinger

O filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e sua amiga lobista, Roberta Luchsinger, também são investigados por corrupção. Uma das investigações envolve a fraude do INSS.

Luchsinger é alvo de três inquéritos da Polícia Federal (PF) e segue no radar de algumas apurações das autoridades. Ela é investigada por suspeitas de corrupção e tráfico de influência ligadas à sua atuação junto ao governo federal e à proximidade com Lulinha.

Vale lembrar que ela, assim como o filho do presidente, nunca foram oficialmente denunciados. A lobista nega irregularidades e sustenta que fazia consultoria e representação institucional. Já a defesa de Lulinha nega participação em qualquer esquema e diz que ele não pode ser responsabilizado por declarações da amiga.

Ainda assim, os dois estão na mira das autoridades que analisam a fraude do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), pela proximidade de ambos ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. 

A lobista reconhece a amizade com o filho do atual presidente e afirma que ela é anterior ao atual mandato de Lula. Para a PF, a relação pode ter ido além de uma simples amizade. Os investigadores falam em possível "sociedade oculta" entre Roberta, Lulinha e Fernando Bittar, ex-sócio dele, e em "comunhão de interesses econômicos". Em uma das representações, chamaram o filho do presidente de possível "beneficiário indireto" da atuação da empresária.

A PF também examina viagens. Documentos achados no celular de Roberta indicam que ela organizou uma viagem de Lulinha e da família pela Europa em janeiro de 2025, com orçamento de R$ 1,868 milhão.

Reportagem da Veja mostrou recentemente imagens que constam do inquérito da Polícia Federal, mostrando o empresário em um jatinho avaliado em mais de US$ 20 milhões ao lado da lobista. A foto teria sido tirada em viagem dos dois, com as respectivas famílias, para a Finlândia no ano passado.

Roberta Luchsinger e Lulinha em viagem em jatinho avaliado em US$ 20 milhões (Foto: Reprodução)

Há ainda uma viagem à África prevista para julho de 2024, de cerca de US$ 20 mil. A defesa de Lulinha afirma que não foi demonstrado que o dinheiro tenha bancado despesas dele.

A PF aponta que Roberta recebeu ao menos R$ 1,5 milhão para atuar nos interesses do Careca do INSS. A RL Consultoria, empresa de Luchisnger teria recebido R$ 18,27 milhões no período analisado pela CPMI do INSS.

Outro eixo é a 3Structure IT, empresa de Cleber Ribas de Oliveira que contratou Roberta para prospectar negócios com o poder público. A PF identificou quase R$ 3 milhões pagos ao grupo dela em três anos, com contrato de "success fee" discutido em março de 2023. A 3Structure soma mais de R$ 81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais, a maior parte no Ministério do Desenvolvimento Social.

A empresa e o ministério negam favorecimento e dizem que os procedimentos foram regulares. A PF investiga se a atuação de Roberta teve relação com esses contratos.

Em outra frente, ela buscava participação de 20% em projeto de venda de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde, parte de uma tratativa de R$ 627 milhões. Testes de dengue e negócios com a Iquego também foram discutidos, e a PF apura ainda uma minuta ligada aos Correios com comissão de 50%. Nenhuma dessas negociações avançou na Saúde, segundo o ministério.

Nesse contexto, a PF sustenta um suposto crime de tráfico de influência, em que Lulinha atuava em "comunhão de interesses econômicos" com Roberta e seria beneficiário indireto das ações da lobista.

Apesar de ser investigado em três inquéritos do STF, além de outras apurações feitas em outros anos, a Lulinha nunca virou réu. Ele nunca chegou a ser formalmente acusado, por falta de provas concretas que imputassem crime ao filho do presidente.

Vale lembrar que os escândalos com o filho mais velho do presidente são fomentados próximos aos anos eleitorais. Além disso, indiciamento não é denúncia, e esta por sua vez só produz réu quando aceita pelo Judiciário.

A defesa do filho do presidente sugere, sobre os inquéritos mais recentes, que os vazamentos de mensagens e o uso do nome de Lulinha no noticiário próximo às eleições não seja mera coincidência.

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