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Política

Polarização deve continuar após as eleições de 2026, dizem especialistas

O ambiente político brasileiro dificilmente voltará ao padrão anterior à última década, dizem especialistas

Polarização deve continuar após as eleições de 2026, dizem especialistas

Independentemente de quem vencer a disputa presidencial de 2026, a polarização política deve continuar fazendo parte do cenário brasileiro.

A avaliação é compartilhada por especialistas ouvidos pelo O Brasilianista, embora eles divirjam sobre a intensidade do fenômeno e sobre as possibilidades de uma pacificação nos próximos anos.

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Entre os fatores apontados estão a crise de representação dos partidos, o papel das redes sociais, a disputa entre projetos políticos antagônicos e os incentivos do próprio sistema eleitoral.

Apesar do diagnóstico desafiador, os entrevistados indicam caminhos que podem reduzir o ambiente de confronto e fortalecer o diálogo democrático.

Polarização permanece

Embora reconheçam a possibilidade de reduzir os conflitos, os especialistas concordam que o país dificilmente verá uma pacificação imediata após as eleições.

O economista e especialista em políticas públicas Luis Carlos Burbano Zambrano afirma que a polarização “veio para ficar”. Segundo ele, trata-se de um fenômeno estrutural, observado também em outros países da América Latina e do mundo, resultado de transformações políticas, culturais e sociais que vão além do cenário brasileiro.

Já o advogado eleitoral Juarez da Silva avalia que a redução das tensões é possível, mas dependerá da postura das lideranças políticas e do respeito às regras democráticas. Para ele, o presidente eleito deverá governar para todos os brasileiros, enquanto a oposição deverá exercer seu papel sem colocar em dúvida a legitimidade do processo democrático.

O especialista em Gestão Governamental Paulo Serra também acredita que o país pode iniciar um processo de despolarização, mas somente se o debate político voltar a priorizar propostas concretas. Na avaliação dele, o brasileiro “parou de escolher o melhor para simplesmente evitar o pior”, substituindo a discussão sobre projetos nacionais por ataques pessoais entre adversários.

Já o cientista político Rodrigo de Carvalho entende que a saída de cena de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro poderá alterar a dinâmica da disputa presidencial. Para ele, a ausência das duas principais lideranças dos últimos anos pode fragmentar tanto a direita quanto a esquerda, abrindo espaço para novas lideranças nacionais.

O que alimenta a divisão política

Entre as causas da polarização, há consenso de que o problema vai muito além das campanhas eleitorais.

Burbano aponta uma combinação de fatores estruturais, como a crise de representação partidária, o enfraquecimento dos partidos, a perda de confiança nas instituições democráticas, o funcionamento dos algoritmos das redes sociais e o calendário eleitoral brasileiro, que mantém o país em campanha praticamente permanente.

Juarez acrescenta que o fenômeno da chamada “polarização afetiva” faz com que o adversário deixe de ser visto apenas como alguém com ideias diferentes e passe a ser tratado como uma ameaça. Para ele, isso dificulta qualquer tentativa de negociação política.

Paulo Serra, por sua vez, atribui parte da radicalização à ausência de um debate qualificado sobre políticas públicas. Segundo ele, temas complexos acabam sendo reduzidos a rótulos ideológicos, impedindo a construção de soluções compartilhadas.

Rodrigo de Carvalho ressalta que também existem projetos políticos efetivamente distintos em disputa, representando visões diferentes de Estado e de sociedade, o que torna natural parte da divergência observada no país.

O desafio das instituições

Os entrevistados também convergem quanto à responsabilidade das instituições na redução das tensões políticas.

Para Juarez, o presidente eleito deverá atuar como chefe de Estado, evitando discursos de revanche e reconhecendo a legitimidade da oposição. O Congresso Nacional, por sua vez, deve recuperar seu papel como espaço de negociação e construção de consensos.

Na avaliação de Paulo Serra, qualquer processo de pacificação exigirá diálogo permanente, participação social e disposição para ouvir ideias vindas de diferentes correntes políticas.

Burbano observa, entretanto, que existe um obstáculo importante: a própria polarização gera dividendos eleitorais. Segundo ele, o confronto costuma produzir mais retorno político do que a conciliação, o que reduz os incentivos para que lideranças busquem consensos amplos.

Rodrigo de Carvalho acrescenta que o avanço dependerá da capacidade de negociação entre governo e oposição para evitar que interesses partidários se sobreponham às pautas nacionais.

Redes sociais ampliam conflitos

As plataformas digitais aparecem como um dos poucos pontos de consenso entre praticamente todos os especialistas.

Para Paulo Serra, as redes sociais ampliam uma polarização que, na vida cotidiana, costuma ser menos intensa. Segundo ele, os algoritmos acabam expondo os usuários apenas a conteúdos compatíveis com suas próprias opiniões.

Burbano vai além e afirma que as plataformas se tornaram o principal espaço da disputa política contemporânea. Em sua avaliação, empresas responsáveis pelas grandes redes sociais controlam algoritmos que privilegiam conteúdos capazes de gerar indignação e conflito, contribuindo para a manutenção da polarização.

Juarez concorda que o ambiente digital atua como um catalisador, acelerando e intensificando conflitos já existentes, embora ressalte que as divisões sociais antecedem a internet.

Rodrigo de Carvalho também defende algum tipo de regulamentação das redes sociais, argumentando que o ambiente digital facilita a circulação de desinformação, discursos de ódio e manipulação.

Existem caminhos para reduzir a polarização?

Apesar do diagnóstico cauteloso, todos os especialistas identificam medidas capazes de diminuir a intensidade dos conflitos.

Paulo Serra defende que o debate político volte a priorizar propostas concretas para temas como segurança, emprego, educação e desenvolvimento, deixando em segundo plano disputas personalistas.

Juarez aposta na construção de consensos mínimos em torno da Constituição, do respeito ao resultado das eleições e da cooperação institucional.

Burbano sustenta que a mobilização da sociedade civil, o fortalecimento do jornalismo, a educação cívica, a reconstrução dos partidos e a governança democrática das plataformas digitais podem reduzir a temperatura do debate, ainda que não eliminem completamente a polarização.

Rodrigo de Carvalho acredita que o Brasil deverá construir seu próprio caminho de pacificação, sem importar modelos estrangeiros, mas mantendo a capacidade de diálogo político após a eleição.

Divergências permanecem, mas o diálogo é apontado como ponto de partida

Embora discordem sobre a intensidade e a duração da polarização, os especialistas convergem em um aspecto: o ambiente político brasileiro dificilmente voltará ao padrão anterior à última década apenas com a realização das eleições.

Seja por meio do fortalecimento das instituições, da valorização do debate programático, da atuação da sociedade civil ou de mudanças no ambiente digital, todos apontam que a redução das tensões dependerá de um esforço contínuo de reconstrução do diálogo democrático, independentemente do vencedor da disputa presidencial de 2026.

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