Surgiu durante a corrida presidencial para o segundo turno uma divisão mais ampla em relação à direita política e ao bolsonarismo. Líderes e figuras de direita se posicionam contra a figura do senador e candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL), conforme o pleito se aproxima.
Uma página reúne declarações de nove integrantes do governo e das campanhas bolsonaristas, cinco articuladores do impeachment do PT e oito líderes da direita que alertam para o risco de votar em Flávio Bolsonaro.
No total, 22 personalidades de direita — de ex-ministros do governo Bolsonaro e governo FHC, ex-parlamentares de partidos aliados à líderes da campanha do PL — são opositoras a um mandato do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre os principais motivos para que esses brasileiros da direita política não apoiam uma campanha de Flávio, 9 mencionam a corrupção (propina, lavagem de dinheiro e enriquecimento suspeito), 9 alertam para risco à democracia (golpismo, anistia e ataque às instituições), 7 revelam ameaça à soberania (submissão aos Estados Unidos e pedido de interferência externa), 5 indicam que Flávio não tem projetos para o país (sobrenome sobressai às propostas), 4 mencionam o extremismo e seita do bolsonarismo (culto ao líder e intolerância com quem discorda), 3 comentam a milícia e crime (ligações com as milícias do Rio de Janeiro), 3 falam de risco de concentração de poder (controle do Congresso, do STF e da República) e, por fim, 3 personalidades da direita se preocupam com direitos e dignidade em um possível mandato de Flávio (violência contra a mulher e direitos do trabalhador).
Ex-integrantes do governo Bolsonaro
São nove ex-integrantes do governo e das campanhas bolsonaristas que já revelaram publicamente sobre suas posições em relação a um novo governo do clã.
General Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo de Bolsonaro, por exemplo, declarou recentemente à Jovem Pan que o Bolsonarismo não é a direita, mas "vigarice", e a família é "capacho dos EUA".
“A busca de interferência é traição. Nem sei se tem na legislação um enquadramento para isso. Eu me considero de direita. Isso aí que a gente vê, esse extremismo. Isso aí não é direita, isso se chama vigarice [...] A busca de apoio externo, da maneira como foi feita, é um absurdo e realmente um ataque à soberania do Brasil. É submissão voluntária [...] O fanatismo apaga tudo. Apaga se você é corrupto, se você é pedófilo, se você é traidor”, declarou.
Outro ministro do governo Bolsonaro, Abraham Weintraub, responsável pela pasta da Educação entre 2019 e 2020, revelou que Flávio precisou "se entregar" para o Centrão porque a família "se lambuzou". Além disso, declarou que o bolsonarismo é uma farsa e que sobrenome não é projeto.
Em 2022, afirmou ao BNews: “Quando apoiei [Jair] Bolsonaro, não havia suspeitas de corrupção como há agora. Meu rompimento foi em 2020, com a entrada do centrão”.
Já na última semana, Weintraub declarou a O Globo: “Sobrenome não é projeto [...] Na nossa avaliação, o bolsonarismo hoje tenta usar o medo de Lula para exigir voto em Flávio. É isso que chamamos de fazer o eleitor de refém”.
A ex-deputada federal do PSL, Joice Hasselmann, primeira líder do governo Bolsonaro no Congresso, afirmou recentemente que "viu que ele [Flávio] era ladrão na hora" quando visitou a casa do senador.
Na última semana, ela publicou em suas redes sociais: “Gente, eu conheço Flavio Bolsonaro desde antes da campanha de 2018. Só quero avisar os senhores e senhoras: ele é bandido da pior espécie”.
Outras declarações de parlamentares incluem Pastor Otoni de Paula, deputado federal (MDB-RJ) e ex-vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara, indicando que Flávio estaria envolvido com milícia e corrupção nos hospitais do Rio de Janeiro; Julian Lemos, ex-deputado federal (PSL-PB) e coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste em 2018; Luciano Bivar, deputado federal (MDB-PE) e presidente do PSL quando o partido elegeu Bolsonaro em 2018; e Soraya Thronicke, senadora (MS), eleita em 2018 como "senadora de Bolsonaro". Todos mencionam corrupção e risco à democracia e soberania nacional como um grave problema de um possível governo de Flávio.
Dois líderes de campanha jovens também destacam o extremismo do bolsonarismo e o risco aos direitos e dignidade da população. Bruno Fonseca, ex-coordenador do PL Jovem de São Paulo, revelou que quando passou a defender direitos básicos, como a defesa da mulher e descanso do trabalhador, aliados passaram a chamá-lo de "esquerdista".
Por sua vez, João Pedro Sastre, influenciador conhecido como "gay de direita", candidato a deputado federal pelo MDB-SP em 2026 e apoiador da campanha de Flávio, revelou à Folha que se sentiu desprezado por parte da direita pelos LGBT.
Articuladores do impeachment do PT
Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça de FHC e coautor do pedido de impeachment de Dilma; Renan Santos, fundador do MBL e candidato a presidente pelo Missão em 2026; Kim Kataguiri, deputado federal (Missão-SP) e cofundador do MBL, apoiador de Bolsonaro em 2018; Arthur do Val, ex-deputado estadual (SP), ex-integrante do MBL e apoiador de Bolsonaro em 2018; e Alexandre Frota, ex-deputado federal (PSL-SP) e ex-aliado de Bolsonaro, são os cinco representantes de um impeachment do Partido dos Trabalhadores que já declararam riscos de um possível governo de Flávio Bolsonaro.
Boa parte indica que Flávio Bolsonaro é corrupto, seja por envolvimento com milícias no Rio de Janeiro ou o caso do Banco Master e a relação com Daniel Vorcaro. Alguns também citam o risco à democracia que o filho do ex-presidente representa.
O coautor do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, Miguel Reale Júnior, afirmou recentemente que votar em Flávio é legitimar um golpe.
"Nada justifica que, ao se pretender mudar o rumo, tome-se o caminho do precipício [...] Votar em Flávio é, portanto, legitimar o golpe, dando sinal de aprovação à tentativa de assunção ao poder pela força e de desamor à democracia", disse.
O fundador do MBL, Renan Santos, alertou para um possível acúmulo de poder: “eu acho que, em termos de acúmulo de poder, o perigo do acúmulo específico é maior com o Flávio [...] Se o Lula ganhar a eleição, o Lula não tem poder para passar PEC, para passar nada".
Líderes da direita
Uma série de personalidades conhecidas da direita política que já atuaram em outros governos, como o de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, descreveram que um governo de Flávio Bolsonaro seria um risco à democracia, possibilidade de acúmulo de poder e acusam o senador de não possuir projetos concretos para o Brasil e alimentar sua campanha somente de ódio ao partido adversário.
“Não tenho nenhuma simpatia por qualquer um dos candidatos [...] Tem um que realmente tem uma representação de risco para o país, dessa concentração de poder”, disse Pedro Parente, ex-ministro da Casa Civil e do Planejamento de FHC e ex-presidente da Petrobras no governo Temer.
“Consideramos que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva oferece ao país melhores condições para assegurar esse equilíbrio institucional”, assinou Claudia Costin, ex-ministra da Administração e Reforma do Estado de FHC, em manifesto.
Já Geddel Vieira Lima, ex-ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer (MDB-BA) disse: “Flávio Bolsonaro é tocar fogo no país ano que vem. Eu acho que isso ninguém quer, nem o empresariado nem a população [...] Não dá para comparar o perfil democrático, gerencial, de experiência de Lula e do Flávio Bolsonaro”.
Outras declarações que indicaram até mesmo o risco à soberania e influência dos Estados Unidos no Brasil também vieram de personalidades como José Aníbal, ex-líder do governo FHC e ex-presidente nacional do PSDB; Aloysio Nunes, ex-ministro das Relações Exteriores (governo Temer) e ex-ministro da Justiça de FHC; Rafael Greca, três vezes prefeito de Curitiba (MDB) e candidato a vice-governador do Paraná em 2026; João Amoêdo, fundador do Novo e candidato à Presidência em 2018; e Rachel Sheherazade, jornalista, ex-âncora do SBT conhecida por comentários conservadores e candidata a deputada federal pelo PSD-SP em 2026.
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