Flávio Bolsonaro (PL) nunca escondeu a intenção de aproximar relações com o presidente norte-americano, Donald Trump. Em maio deste ano, o candidato à presidência da República viajou aos Estados Unidos, onde realizou uma reunião com o republicano.
Em coletiva de imprensa realizada em solo americano, o parlamentar revelou ter pedido formalmente ao presidente Donald Trump a classificação das facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Posteriorimente, Trump realmente aplicou essa definição.
O papo ainda teria abordado temas como segurança pública, tarifas comerciais, terras raras e até o estado de saúde de Jair Bolsonaro. Na altura, Flávio ainda foi presenteado com uma challenge coin, moeda militar comemorativa tradicionalmente usada no ambiente político e de defesa americano.
Em julho, ele encaminhou uma carta ao escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), solicitando a suspensão da aplicação das tarifas adicionais de 25% sobre as exportações brasileiras. Pedido negado por Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos.
A parceria é uma via de mão dupla?
As tentativas de Flávio, apontadas acima, não tiveram sempre o desfecho desejado. As tarifas, por exemplo, não foram retiradas e, embora Trump tenha classificado o PCC e CV como organizações, criminosas, isso já era um desejo do presidente norte-americano.
Vale pontuar que após o encontro entre os dois, Trump fez um post na Truth Social, em que escreveu: "Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil! Presidente DONALD J. TRUMP".
No último domingo (04), contrariando as pesquisas eleitorais, Flávio terminou o 1º turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O candidato do PL recebeu 56.104.503 votos (47,03%), enquanto o candidato do PT somou 53.879.538 votos (45,16%).
Trump comentou sobre o resultado das urnas ao deixar a Casa Branca no dia seguinte. "Bem, é uma grande vitória — apertada, mas uma vitória muito grande. Incrível, na verdade", disse.
O que realmente Trump pode fazer em um possível governo Flávio?
Wilson Mendonça, professor de Relações Internacionais da SKEMA Business School, antes de tudo, faz questão de enfatizar que a Presidência americana é muito poderosa em política externa, mas não é onipotente: "Acho importante fazer essa ressalva porque muitas vezes se atribui a Trump uma liberdade de ação maior do que aquela que o próprio sistema institucional americano permite".
O especialista explica que muitas decisões precisam passar pelo Congresso e também destacou que existe o Judiciário nesta equação.
Diante de um possível governo de Flávio, ele entende que a maior mudança aconteça no campo político: "Existe uma proximidade evidente entre o campo político representado por Flávio Bolsonaro e o trumpismo, e isso poderia facilitar o diálogo com a Casa Branca", em temas como segurança, defesa, combate ao crime organizado, por exemplo.
Pressão x influência
Contudo, ele alerta: "Eu teria bastante cuidado com a ideia de que uma vitória de Flávio significaria alinhamento automático aos Estados Unidos. Uma coisa é a afinidade entre dois grupos políticos. Outra são os interesses nacionais de Brasil e Estados Unidos. Eles não são necessariamente os mesmos", e exemplificou com a questão das tarifas e o pix.
Assim, o professor conclui: "Trump não teria necessariamente mais capacidade de pressionar Flávio. Talvez tivesse mais capacidade de influenciá-lo. [...] Se um eventual governo Flávio considerar a proximidade com Trump uma parte importante de sua identidade internacional, preservar essa relação passa a ter um valor político maior. E isso naturalmente aumenta a capacidade de negociação dos Estados Unidos".
Nesta matéria de O Brasilianista, já havíamos deixado claro: Trump quer ganhar, seja com Lula ou com Flávio. No fim, muito mais do que com quem se negocia, ele valoriza o resultado final: positivo e lucrativo (para ele).
O que a história nos mostra?
Tanto a ditadura militar brasileira, quanto o recente caso da Venezuela mostram que, na prática, esse poder dos EUA não se mostra tão soberano quanto se prometeu.
Começando pelo caso brasileiro, os militares não foram tão subservientes quanto parecia. Eles falavam com a China antes mesmo dos EUA, que só foi estabelecer aproximação no governo de Richard Nixon, em 1972, via Henry Kissinger, Assessor de Segurança Nacional.
Já no caso da Venezuela, a captura de Maduro prometia um rompimento total do governo por ele formado. Contudo, meses depois, foi aceita Delcy Rodríguez, que era vice-presidente executiva de Nicolás, como presidente interina do país, claro, abrindo portos e rotas de exportação de petróleo para os norte-americanos.
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