A internet brasileira depende de uma infraestrutura instalada a milhares de metros de profundidade no Oceano Atlântico.
Cabos submarinos de fibra óptica conectam o país aos Estados Unidos, à Europa, à África e a outras regiões da América Latina.
Parte dessas estruturas pertence a empresas estrangeiras, como Google, América Móvil e China Unicom, que controlam sistemas de transmissão utilizados por operadoras e provedores brasileiros.
Embora o país disponha de diferentes conexões internacionais, a concentração de pontos de chegada em cidades como Fortaleza, Rio de Janeiro e Praia Grande levanta questões sobre a segurança da infraestrutura.
Um rompimento pode comprometer serviços digitais, provocar lentidão e exigir o redirecionamento de dados.
Para José Frederico Rehme, mestre em Telemática, engenheiro eletricista e professor da Universidade Positivo, compreender esses riscos exige distinguir os proprietários dos cabos de quem controla o funcionamento da internet.
Donos dos cabos
Os sistemas submarinos são administrados por empresas individuais ou consórcios internacionais.
O AMX-1, da mexicana América Móvil, conecta Fortaleza, Salvador e Rio de Janeiro a países das Américas.
O SAIL, controlado pela chinesa China Unicom e pela camaronesa Camtel, liga Fortaleza a Camarões, enquanto o EllaLink estabelece uma conexão direta entre a capital cearense e Portugal.
O Google possui o Firmina, que conecta os Estados Unidos ao litoral brasileiro, e participa do consórcio responsável pelo Monet, ao lado da Algar Telecom, Angola Cables e Antel.
Já a Meta integra, com a brasileira V.tal, o projeto Malbec, que liga Brasil e Argentina.
A propriedade dessas estruturas, contudo, não significa que uma companhia controle toda a internet utilizada pelos brasileiros.
“A internet não é uma empresa e não possui um único dono”, esclarece Rehme.
Segundo o professor, seu funcionamento depende da interconexão de redes públicas e privadas, que utilizam protocolos comuns para transmitir informações.
Os investimentos e a manutenção dos cabos são divididos entre seus proprietários, enquanto provedores e operadoras podem contratar capacidade de transmissão nessas estruturas.
Fortaleza estratégica
Fortaleza concentra algumas das principais rotas submarinas brasileiras. Da capital cearense partem conexões para Estados Unidos, Portugal, Angola e Camarões, o que transforma a cidade em um ponto importante para o tráfego internacional.
Outros sistemas chegam ao Rio de Janeiro, a Salvador e a Praia Grande, criando alternativas para a circulação de dados entre continentes.
Em muitos casos, a construção de um cabo resulta de acordos entre empresas interessadas em determinada rota.
“Essas estruturas são implantadas por consórcios formados por empresas de telecomunicações”, observa Rehme, ao descrever um modelo em que diferentes participantes compartilham investimentos e responsabilidades operacionais.
A composição dos grupos pode mudar ao longo dos anos, assim como a capacidade comercializada.
A concentração geográfica cria uma preocupação adicional. Mesmo quando dois cabos percorrem caminhos diferentes no oceano, suas estações de chegada podem estar próximas ou depender de instalações terrestres compartilhadas.
Por isso, a quantidade de conexões existentes não revela, isoladamente, o grau de proteção contra incidentes simultâneos.
Rompimento submarino
O rompimento de um cabo que conecta o Brasil aos Estados Unidos poderia afetar plataformas digitais, serviços em nuvem e aplicações que dependem de servidores internacionais.
Entretanto, o impacto dependeria da capacidade disponível em outras rotas e dos acordos de conectividade de cada operadora.
“Se uma avenida ou rodovia importante for interrompida, o fluxo precisa encontrar outras rotas. Na internet acontece algo semelhante”, compara o especialista.
Dessa forma, os dados podem ser encaminhados por outras conexões enquanto a estrutura danificada permanece indisponível.
Esse redirecionamento não elimina todos os problemas. O professor ressalta que a reorganização pode provocar “um período temporário de instabilidade, lentidão ou desequilíbrio na distribuição do tráfego”.
Nesse cenário, os efeitos podem permanecer por horas ou dias, conforme as condições das redes alternativas.
O reparo físico exige embarcações especializadas para localizar o dano, recuperar o cabo e substituir o trecho afetado.
A recuperação da conectividade percebida pelos usuários pode ocorrer antes da conclusão desses trabalhos, desde que existam rotas capazes de absorver o tráfego.
Risco de apagão
A existência de diferentes cabos reduz a dependência de uma única conexão internacional, mas não assegura que todas as falhas possam ser compensadas sem prejuízo.
A capacidade contratada, os caminhos terrestres e a localização das estações influenciam a resistência das redes.
“O Brasil dispõe de diversas rotas de conexão internacional, especialmente por cabos submarinos em direção aos Estados Unidos e à Europa”, pontua Rehme.
Para ele, essa multiplicidade permite distribuir a comunicação entre estruturas distintas quando uma delas deixa de funcionar.
O especialista também menciona os sistemas de comunicação por satélite como alternativas complementares.
Satélites geoestacionários e constelações de órbita baixa, como a Starlink, podem manter determinados serviços conectados, embora não substituam automaticamente toda a capacidade de transmissão dos cabos submarinos.
Proteção brasileira
Ampliar a segurança da infraestrutura exigiria avaliar novos trajetos, diversificar pontos de chegada e aumentar a capacidade de transmissão das rotas existentes.
Também seria necessário considerar a distribuição das redes terrestres, já que a chegada de um cabo ao litoral não garante que seus dados possam alcançar todas as regiões do país sem depender de estruturas compartilhadas.
“Não é possível estabelecer um valor único sem definir previamente o projeto, as rotas, a capacidade desejada e a infraestrutura que seria instalada”, pondera Rehme.
O custo de ampliar a redundância, portanto, dependeria das características dos investimentos e das condições de operação de cada sistema.
O planejamento também precisaria identificar quais conexões poderiam assumir o tráfego das demais em caso de interrupção e quais contratos permitiriam utilizar essa capacidade.
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