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Economia

Vorcaro entrou nas redações

Banqueiro revisou textos, pediu cortes e discutiu participações enquanto veículos negam interferência editorial

Vorcaro e sites
Mensagens da PF e contratos ligam o Master a ao menos dez sites de notícias (Foto: Obtido pelo UOL)

Daniel Vorcaro não buscou espaço na imprensa apenas pela compra de publicidade.

Mensagens extraídas pela Polícia Federal, contratos comerciais, documentos societários e relatórios financeiros revelados desde a liquidação do Banco Master mostram relações do banqueiro ou de pessoas próximas a ele com ao menos dez veículos digitais.

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O Brasilianista reuniu os casos envolvendo Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo, CartaCapital, Metrópoles, O Bastidor, GPS Brasília, Not Journal e Portal Léo Dias. Os vínculos não são iguais.

Há desde participação em empresas ligadas aos sites e contratos de mídia até mensagens nas quais Vorcaro recebe reportagens antes da publicação, pede mudanças, veta nomes ou reclama do teor de conteúdos.

Em parte dos episódios, os veículos ou profissionais negam interferência editorial e dizem que os pagamentos decorreram de publicidade ou contratos comerciais regulares.

Em outros, mensagens reproduzidas pela PF registram pedidos específicos de alteração ou retirada de conteúdo.

Brazil Journal

A aproximação com o Brazil Journal ganhou uma estrutura empresarial em 2023.

Naquele ano, o fundador do site, Geraldo Samor, criou a BJ Conteúdo, voltada a vídeos e eventos.

A Foone, empresa de Flávio Carneiro, ficou com 49,86% da companhia. Carneiro mantinha relação próxima com Vorcaro e aparece em diferentes frentes de comunicação ligadas ao banqueiro.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram Samor submetendo reportagens ao empresário antes da publicação.

Em fevereiro de 2024, ao preparar um texto recebido de Carneiro, perguntou se o banqueiro queria a publicação na manhã seguinte.

Vorcaro pediu que uma referência ao agronegócio fosse retirada. Samor respondeu apenas que o conteúdo estava atualizado.

Dias depois, o Brazil Journal preparou uma reportagem sobre a compra do Will Bank.

Vorcaro pediu a retirada do nome Voiter e sugeriu que o texto mencionasse apenas uma reorganização societária. “Mudei”, respondeu Samor.

A relação apareceu novamente durante um evento organizado pelo Master em Londres, em abril de 2024.

Samor encaminhou antecipadamente a matéria sobre a participação de Tony Blair e informou que Carneiro havia avisado que Vorcaro gostaria de ler o texto antes.

O banqueiro também sugeriu acrescentar informação sobre uma reunião privada entre Blair e três ministros do Supremo.

Documentos societários não mostram Vorcaro formalmente como sócio da BJ Conteúdo.

Thiago Miranda, empresário que posteriormente trabalhou para o banqueiro, afirmou que Flávio Carneiro o representava em investimentos de mídia.

Carneiro confirmou suas participações empresariais, mas negou atuar como sócio oculto de Vorcaro.

IstoÉ e Platô

Carneiro também aparece como investidor de publicações da IstoÉ e como sócio do PlatôBR.

Conversa entre Vorcaro e Flávio Carneiro sobre minutas na PlatôBR (Foto: Obtido pelo UOL)

As conversas indicam que Vorcaro tratava os dois veículos de maneira diferente de uma relação convencional entre fonte e redação.

Em 2024, o banqueiro pediu a Carneiro uma capa da IstoÉ Dinheiro sobre a Biomm, farmacêutica na qual havia investido.

Durante a conversa, definiu a margem que acreditava possuir sobre a publicação. “Na IstoÉ é que controlamos mais”, escreveu.

Em setembro daquele ano, Vorcaro determinou que conteúdos envolvendo Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta não fossem publicados sem que ele fosse consultado.

Carneiro respondeu que acrescentaria Lira à relação de nomes que deveriam receber atenção prévia.

No PlatôBR, a interferência descrita nas mensagens chegou ao texto antes da publicação.

Dois dias depois do anúncio da tentativa de compra do Master pelo BRB, Carneiro informou a Vorcaro que enviaria minutas para análise.

Naquela noite, encaminhou a íntegra de uma entrevista com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB.

Vorcaro reclamou da referência a precatórios no destaque da entrevista. Depois de o conteúdo entrar no ar com o tema ainda presente, voltou a cobrar. Carneiro informou que faria nova alteração.

A relação também alcançou a cobertura política. Em agosto de 2025, Vorcaro pediu que o PlatôBR não publicasse conteúdos envolvendo Ciro Nogueira e Antônio Rueda.

No mesmo mês, cobrou uma ofensiva contra Ricardo Cappelli, que fazia críticas à operação entre Master e BRB. Carneiro respondeu que alinharia a pauta no veículo.

DCM

A Polícia Federal atribui outra modalidade de relação ao Diário do Centro do Mundo.

Segundo os investigadores, Vorcaro buscou estabelecer um pagamento mensal de R$ 50 mil para interromper publicações negativas sobre o Master e produzir conteúdos contra pessoas consideradas adversárias do banqueiro.

Felipe Mourão, responsável por questões relacionadas à reputação digital de Vorcaro, aparece como intermediário nas conversas.

Em outubro de 2024, depois de uma publicação negativa, o banqueiro ordenou que fosse estabelecida uma parceria mensal com o site e pediu que nenhuma referência a ele ou ao Master fosse publicada.

Mensagens posteriores atribuídas a Mourão informavam que o acordo permitiria também a publicação mensal de um conteúdo positivo ou negativo sobre alguém escolhido pelo grupo. Em uma delas, ele escreveu que o DCM estava “pago e fechado”.

Em maio de 2025, após a publicação de um artigo crítico ao Master, Vorcaro exigiu a retirada. A mensagem seguinte informou que o conteúdo havia sido apagado.

O DCM nega ter recebido dinheiro de Vorcaro. Em manifestação anterior, o portal afirmou que não recebeu recursos ou benefícios do banqueiro e contestou a interpretação dada pela investigação às mensagens e referências ao veículo.

CartaCapital

A relação financeira com a CartaCapital começou antes das tratativas identificadas em outros veículos.

Em dezembro de 2020, o banco que ainda se chamava Máxima adiantou R$ 300 mil à revista.

No ano seguinte, foi firmado um contrato de patrocínio com duração prevista de cinco anos.

As mensagens mostram que o dinheiro também entrou nas discussões sobre despesas da empresa.

No início de 2021, Manuela Carta informou a Vorcaro que precisaria de novos recursos para a folha de pagamentos.

A relação avançou para uma eventual participação societária. Em 2023, Vorcaro e Manuela discutiam havia cerca de um ano a possibilidade de o empresário entrar como sócio da publicação.

Depois de uma reunião em agosto, ela enviou informações sobre o endividamento da revista e aguardou uma proposta. O negócio não foi fechado.

Naquele mesmo período, uma reportagem em preparação foi submetida à decisão de Vorcaro sobre a publicação.

Em 2024, Manuela pediu um adiantamento de publicidade e o banqueiro respondeu que poderia auxiliar com recursos fora do banco.

Metrópoles

O Metrópoles acrescenta números e uma sequência extensa de intervenções editoriais.

Mensagens divulgadas nesta quinta-feira mostram que a relação direta entre Vorcaro e a CEO do grupo, Lilian Tahan, foi estabelecida em 2024, mesmo ano em que o Master negociou um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o portal.

Um levantamento identificou pelo menos 14 textos enviados ao banqueiro antes da publicação.

Onze foram modificados depois de pedidos feitos por ele e outros dois conteúdos foram publicados após sugestões do controlador do Master.

Em abril de 2025, depois de Vorcaro contestar uma informação sobre uma suposta oferta de R$ 1 por ativos do banco, Lilian respondeu que o trecho havia sido retirado.

Dias depois, perguntou ao banqueiro se uma comparação entre os balanços do Master e do BRB ajudaria ou atrapalharia seus interesses. O texto foi encaminhado a ele antes de entrar no ar.

Vorcaro também analisou previamente conteúdos sobre Renato Gomes, então diretor do Banco Central envolvido na avaliação da compra do Master pelo BRB.

Pediu a retirada de referência à possibilidade de falência, sugeriu mencionar divergências internas no BC e propôs inserir especulações sobre o futuro profissional do diretor. As solicitações foram incorporadas ao texto publicado.

O banqueiro ainda pediu que o portal reduzisse durante uma semana a cobertura sobre Ricardo Cappelli. “Deixa comigo”, respondeu Lilian.

Separadamente, relatório do Coaf identificou R$ 27,2 milhões enviados pelo Banco Master ao Metrópoles entre 2024 e 2025.

Luiz Estevão afirmou que os pagamentos estavam relacionados a patrocínio de futebol e divulgação publicitária das marcas Master e Will Bank.

O valor apontado pelo Coaf e o contrato de R$ 20 milhões mencionado nas mensagens não podem ser simplesmente somados porque os registros podem abranger pagamentos relacionados às mesmas negociações.

Lilian afirma que enviar materiais a fontes para verificar contexto faz parte de sua prática jornalística e nega relação entre o contrato publicitário e a cobertura editorial.

Ela também aponta que o portal publicou conteúdos críticos sobre empresas ligadas a Vorcaro.

O Bastidor

No caso de O Bastidor, a Polícia Federal relaciona uma publicação ao próprio dia da primeira prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025.

Segundo os investigadores, Diego Escosteguy enviou ao banqueiro a versão de uma nota sobre uma investigação sigilosa.

Vorcaro devolveu o conteúdo com alterações e o jornalista voltou a consultá-lo antes da publicação.

Menos de uma hora depois, a reportagem entrou no ar. A defesa de Vorcaro utilizou a publicação posteriormente em uma tentativa de acessar o inquérito que corria sob sigilo.

Uma planilha apreendida continha a referência “2M - Escosteguy”. Outro diálogo, de setembro de 2025, registra o jornalista cobrando uma segunda parcela e encaminhando dados para uma transferência.

A documentação pública não esclarece se os R$ 2 milhões representavam valor efetivamente pago, total de contrato ou outra obrigação financeira.

Escosteguy afirma que sua relação com Vorcaro era estritamente profissional, tanto como fonte jornalística quanto em negociações comerciais.

Segundo ele, os valores se referiam a publicidade e patrocínio e não houve direcionamento editorial.

Projeto DV

Depois da primeira prisão de Vorcaro, uma estrutura diferente passou a operar por meio da agência Mithi, do publicitário Thiago Miranda.

Documentos do chamado Projeto DV previam aproximadamente R$ 8 milhões em contratos destinados a sites, influenciadores e páginas digitais durante uma campanha crítica ao Banco Central e a Renato Gomes.

Dos valores previstos, R$ 3,5 milhões foram pagos entre o fim de dezembro de 2025 e 5 de janeiro de 2026.

A Mithi havia recebido a mesma quantia da Super Empreendimentos, empresa ligada ao entorno de Vorcaro.

Um dos contratos envolvia o GPS Brasília. O documento estabelecia pagamento de R$ 100 mil mensais durante um ano e previa seis conteúdos por mês, divididos igualmente entre Instagram e o site.

A apresentação do projeto determinava inclusive o tom das publicações e sugeria títulos críticos à gestão de Renato Gomes.

O GPS publicou textos contra o então diretor do BC no fim de dezembro e início de janeiro.

O editor Jorge Eduardo confirmou a existência do acordo, mas afirmou que ele foi rescindido dez dias depois devido a incompatibilidades entre os conteúdos propostos e a linha editorial.

Not Journal

O Not Journal aparece nos mesmos documentos com um contrato de R$ 30 mil mensais para 12 publicações por mês no site e no Instagram.

A orientação do Projeto DV determinava que os conteúdos adotassem linguagem institucional e tratassem de eficiência de mercado.

Textos publicados posteriormente criticaram a administração de Renato Gomes no Banco Central.

O diretor Bruno Richards confirmou o contrato com a Mithi, mas negou que houvesse determinação editorial prévia e atribuiu a um ex-funcionário as publicações que coincidiram com o direcionamento da agência.

Os documentos mostram ainda uma tentativa de avançar da publicidade para a sociedade.

O projeto previa a compra de 50% do Not Journal por R$ 5 milhões. Richards afirma que recusou a proposta.

Portal Léo Dias

A aproximação com o Portal Léo Dias envolveu tanto uma operação societária quanto pagamentos publicitários.

Um contrato de julho de 2024 registra a venda de 17% do portal para Flávio Carneiro por R$ 10 milhões.

Thiago Miranda afirma que Carneiro representava Vorcaro na negociação. Carneiro nega ter atuado como sócio oculto do banqueiro.

O Coaf identificou ainda pelo menos R$ 9,9 milhões enviados diretamente pelo Banco Master à Leo Dias Comunicação e Jornalismo entre fevereiro de 2024 e maio de 2025.

Outros R$ 2 milhões chegaram à empresa por meio da LD Produções, companhia de Carneiro que havia recebido recursos do banco.

A defesa de Léo Dias afirma que os valores decorreram de publicidade do Will Bank.

Em agosto de 2025, uma reportagem do portal antecipou informações sobre o filme “Dark Horse”, projeto sobre Jair Bolsonaro financiado por Vorcaro.

O banqueiro reclamou da publicação diretamente com Miranda. Cerca de uma hora depois, a matéria havia sido retirada do ar.

O portal afirmou posteriormente que decidiu remover o conteúdo porque a equipe ainda tinha dúvidas sobre a apuração e que a decisão passou por Thiago Miranda, então CEO da empresa.

O texto só voltou a tratar do filme meses depois, quando imagens das gravações já circulavam publicamente.

Em janeiro de 2026, o Grupo Léo Dias informou que Miranda havia iniciado a transferência de sua participação minoritária no fim do ano anterior e reafirmou compromisso com transparência e independência editorial.

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