Ter um filho passou a valer dinheiro, redução de impostos, financiamento habitacional, meses de licença e até perdão de dívidas em países que tentam impedir o encolhimento de suas populações.
Na Rússia, famílias recebem um capital estatal após o nascimento. Na Hungria, mães podem deixar de pagar imposto de renda.
A China criou um pagamento nacional para crianças de até três anos. Singapura promete transferir recursos durante praticamente toda a infância.
O Brasilianista comparou políticas adotadas em dez países que enfrentam queda na fecundidade.
O resultado expõe um problema para os governos, nenhum dos principais experimentos conseguiu levar a taxa de filhos por mulher novamente ao nível de reposição populacional, estimado em aproximadamente 2,1.
Em alguns casos, bilhões em benefícios foram acompanhados por novos recordes negativos de nascimentos.
| País | Principal estratégia | Fecundidade recente | Resultado |
|---|---|---|---|
| Coreia do Sul | Licença, creches, benefícios e apoio financeiro | 0,80 em 2025 | Subiu |
| Singapura | Dinheiro, poupança infantil e moradia | 0,87 em 2025 | Caiu |
| Polônia | Pagamento mensal por criança | 1,07 em 2025 | Caiu |
| Japão | Auxílios, creches e licença parental | 1,14 em 2025 | Caiu |
| Itália | Bônus por nascimento e benefício infantil | 1,14 em 2025 | Caiu |
| Hungria | Isenção fiscal, crédito e moradia | 1,31 em 2025 | Caiu |
| Suécia | Licença extensa e benefícios | 1,42 em 2025 | Caiu |
| Noruega | Licença, creche e benefício infantil | 1,48 em 2025 | Subiu |
| França | Creches, benefícios e apoio fiscal | 1,56 em 2025 | Caiu |
| Rússia | Pagamentos, benefícios e política cultural | 1,41 em 2023* | Abaixo da reposição |
Dinheiro russo
A Rússia transformou a natalidade em política de Estado antes de vários países que hoje enfrentam o mesmo problema.
O principal programa financeiro é o chamado capital maternidade, criado em 2007 e prorrogado até 2030.
Desde fevereiro de 2026, uma família elegível pode receber 728,9 mil rublos pelo primeiro filho.
Para um segundo filho, determinadas famílias podem alcançar 963,2 mil rublos, enquanto quem já recebeu o benefício pelo primeiro tem direito a um complemento.
O dinheiro não funciona como um prêmio sem finalidade. As famílias podem direcioná-lo para objetivos previstos pelo Estado, entre eles moradia e educação dos filhos.
O país também passou da política econômica para a cultural. Desde dezembro de 2024, a legislação russa pune a chamada propaganda de recusa à maternidade ou paternidade.
A regra alcança conteúdos ou atos públicos considerados capazes de apresentar uma vida sem filhos como atraente ou socialmente equivalente à decisão de ter filhos.
Pessoas, autoridades e empresas podem receber multas, e conteúdos podem ser bloqueados.
O esforço ocorre depois de uma reversão demográfica importante. A fecundidade russa chegou a aproximadamente 1,78 filho por mulher em meados da década passada e caiu para 1,41 em 2023.
Modelo húngaro
A Hungria construiu uma das experiências pronatalistas mais agressivas da Europa.
Desde outubro de 2025, mães de três filhos passaram a ter isenção de imposto de renda sobre determinados rendimentos do trabalho.
Em janeiro de 2026, o benefício começou a alcançar também mães de dois filhos com menos de 40 anos.
A expansão continuará gradualmente. Mulheres de 40 a 49 anos com dois filhos devem entrar no regime em 2027, seguidas por faixas etárias maiores nos anos seguintes.
Famílias também têm acesso a crédito subsidiado para compra de imóveis. O programa CSOK Plus permite financiamentos maiores conforme o número de filhos existentes ou planejados.
Outro mecanismo concede empréstimo sem juros a determinados casais. Quando nasce o segundo filho, parte da dívida pode ser perdoada. Com o terceiro, o restante pode desaparecer.
A estratégia produziu inicialmente um caso utilizado por defensores de incentivos econômicos.
A fecundidade húngara subiu durante parte da década passada, aproximando-se da média da OCDE.
A trajetória mudou novamente. Em 2023, a taxa estava em aproximadamente 1,51. Caiu para 1,39 em 2024 e para 1,31 em 2025. Nos primeiros oito meses de 2026, permanecia perto de 1,29.
Reação coreana
A Coreia do Sul continua tendo uma das menores taxas de fecundidade do planeta, mas passou a produzir o sinal mais positivo entre os grandes experimentos analisados.
A taxa avançou de 0,75 filho por mulher em 2024 para 0,80 em 2025. O número de nascimentos cresceu 6,7%, chegando a aproximadamente 254 mil.
O movimento continuou em 2026. No primeiro semestre, os nascimentos cresceram 15,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O país oferece benefícios financeiros, creches, programas de moradia e uma estrutura crescente de licenças.
Em 2026, quase quatro de cada dez beneficiários de licença parental no primeiro semestre eram homens.
Novas mudanças passaram a permitir períodos curtos de licença parental, ampliaram direitos do cônjuge durante a gravidez e aumentaram proteções relacionadas a nascimento, aborto espontâneo e natimorto.
Parte da recuperação, porém, ocorreu depois do aumento dos casamentos registrado após a pandemia.
Japão encolhe
No Japão, os incentivos aumentaram enquanto os nascimentos continuaram diminuindo.
O governo elevou o pagamento relacionado ao parto e ampliou o auxílio infantil, retirando limites de renda e estendendo a cobertura até filhos em idade de ensino médio.
A estratégia também inclui apoio financeiro durante gravidez, expansão de creches, incentivo à licença dos pais e medidas para reduzir o impacto profissional de ter filhos.
O pacote conhecido como Children’s Future Strategy prevê aproximadamente 3,6 trilhões de ienes em novas medidas para crianças e famílias.
Mesmo assim, 2025 terminou com 671.236 nascimentos de japoneses residentes no país, o menor número da série iniciada no século XIX.
A fecundidade caiu para 1,14 filho por mulher, também um recorde negativo. O Japão chegou ao patamar de cerca de 670 mil nascimentos aproximadamente 15 anos antes do que projeções anteriores imaginavam.
China recua
A transformação chinesa talvez seja a mais radical. Durante décadas, o governo limitou a quantidade de filhos por família. Depois aboliu a política do filho único, permitiu dois filhos e, posteriormente, três.
Agora oferece dinheiro para que crianças nasçam. Desde 2025, o governo criou um benefício nacional de 3.600 yuans por ano para cada criança com menos de três anos.
Uma criança nascida depois da entrada do programa pode receber até 10.800 yuans ao longo dos três primeiros anos.
Em 2026, o governo central destinou 99,9 bilhões de yuans ao programa. Considerando também recursos locais, a previsão oficial é de aproximadamente 110 bilhões de yuans durante o ano.
O movimento acompanha creches, políticas locais de moradia, ampliação de licenças e uma campanha para construir o que Pequim chama de uma sociedade favorável à natalidade.
Ainda assim, a China registrou 7,92 milhões de nascimentos em 2025. A população caiu em 3,39 milhões de pessoas no mesmo ano.
Singapura paga
Poucos países foram tão longe quanto Singapura na transferência direta de recursos para famílias.
O atual Baby Bonus oferece dinheiro depois do nascimento e uma conta infantil na qual o governo deposita uma parcela inicial e complementa a poupança feita pelos pais.
Em 2026, o governo anunciou uma substituição ainda mais ampla. O novo pacote prevê até 62 mil dólares de Singapura em apoio direto por criança entre o nascimento e os 17 anos.
A estrutura inclui dinheiro no nascimento, créditos anuais durante a infância, contribuição para uma conta de desenvolvimento e recursos destinados posteriormente à educação.
O governo também subsidia educação infantil e utiliza sua política habitacional para favorecer casais e famílias.
A fecundidade, porém, foi na direção oposta. Caiu de 0,97 em 2024 para 0,87 em 2025, o menor nível registrado pelo país.
O próprio governo reconheceu no Parlamento que não consegue isolar o efeito do Baby Bonus sobre a decisão de ter filhos.
Polônia insiste
A Polônia oferece um dos exemplos mais claros de pagamento recorrente. O programa Família 800+ garante 800 zlotys mensais por criança até os 18 anos, independentemente da renda familiar.
Somente em 2025, o governo gastou 64,9 bilhões de zlotys com o programa. Quando a versão original do benefício foi lançada, o valor era de 500 zlotys.
O pagamento ajudou a elevar a renda de famílias e teve impacto importante no combate à pobreza infantil. A recuperação demográfica não acompanhou o gasto.
A fecundidade chegou a aproximadamente 1,48 em 2017, mas iniciou nova queda. Em 2024 estava em 1,10 e caiu para 1,07 em 2025.
O país registrou pouco mais de 238 mil nascimentos no ano passado. Em 2017, eram aproximadamente 402 mil.
França resiste
A França mostra uma estratégia diferente de simplesmente pagar um grande bônus.
O país mantém uma combinação de benefícios mensais, creches, auxílio de nascimento, sistema tributário que considera a composição familiar e diferentes formas de licença.
Em 2026, o bônus de nascimento podia chegar a pouco mais de 1.093 euros para famílias enquadradas nos critérios de renda.
Famílias com dois ou mais filhos também podem receber pagamentos mensais, cujo valor varia conforme número de crianças e renda.
Durante anos, esse sistema ajudou a manter a França entre os países de maior fecundidade na Europa Ocidental.
A vantagem está diminuindo. Em 2025, a taxa caiu para 1,56 filho por mulher, ante 1,61 no ano anterior. Foi o menor nível francês desde o fim da Primeira Guerra Mundial.
Foram registrados aproximadamente 644 mil nascimentos, 24% abaixo do volume de 2010.
Itália paga
A Itália acrescentou em 2025 um bônus de mil euros para determinados pais de crianças recém-nascidas ou adotadas, condicionado a critérios econômicos.
O país também possui um benefício universal destinado às famílias com filhos, cujo valor depende de renda, número de crianças, idade e determinadas condições familiares.
A política tenta reagir a uma queda que já alterou a estrutura populacional italiana.
Em 2025 nasceram aproximadamente 355 mil crianças no país, 15 mil a menos que no ano anterior.
A fecundidade caiu de 1,18 para 1,14 filho por mulher. A idade média das mães no parto chegou a 32,7 anos, mostrando outro elemento presente em quase todos os países analisados, ter filhos está sendo adiado.
Nórdicos recuam
Os países nórdicos testam uma estratégia menos baseada em grandes prêmios pelo nascimento e mais voltada a diminuir o conflito entre trabalho e família.
Na Suécia, os pais dispõem de 480 dias de benefício parental por filho. Em 390 deles, a remuneração é relacionada à renda; os demais possuem um valor mínimo definido.
O país também paga benefício infantil e possui serviços públicos amplos de cuidado.
Mesmo assim, a Suécia terminou 2025 com aproximadamente 97,5 mil nascimentos, o menor volume em 23 anos. A fecundidade ficou em cerca de 1,42 filho por mulher.
A Noruega está seguindo direção diferente nos números mais recentes. A fecundidade aumentou pelo terceiro ano consecutivo e chegou a 1,48 em 2025, enquanto os nascimentos subiram para 55,4 mil.
O governo norueguês não considera o problema resolvido. Uma comissão nacional criada para estudar a baixa natalidade concluiu em 2026 que a dificuldade de formar família está ligada também ao preço da moradia, demora para entrar no mercado de trabalho, idade mais alta na formação dos casais e dificuldade de conciliar emprego com filhos.
Entre as propostas estão benefício maior para pais com menos de 30 anos, acesso garantido à creche a partir de um ano, licença mais flexível e até testes de redução de jornada para pais de crianças pequenas.
Dinheiro limitado
A comparação entre os países mostra que transferências financeiras conseguem reduzir o custo de criar um filho, mas possuem efeito limitado quando utilizadas isoladamente para elevar a fecundidade.
A OCDE encontrou associação positiva entre fecundidade e políticas de licença parental, educação e cuidado infantil.
Transferências em dinheiro também apresentam relação positiva, mas estatisticamente mais fraca.
A revisão da literatura internacional feita pela organização conclui que pagamentos diretos produzem, na melhor das hipóteses, efeitos modestos ou temporários sobre o número de filhos.
Habitação apareceu na direção contrária. Quanto maior o peso dos gastos com moradia, menor tende a ser a fecundidade.
A estabilidade profissional também pesa. Desemprego e dificuldade de entrada dos jovens no mercado de trabalho estão associados a decisões de adiar ou abandonar planos de ter filhos.
Trabalho e filhos
A relação entre emprego feminino e natalidade também mudou. Décadas atrás, países com maior presença das mulheres no mercado de trabalho frequentemente apresentavam menor fecundidade. Nas economias desenvolvidas atuais, a associação pode ser inversa.
Quando mulheres conseguem manter carreira e dividir cuidados com os homens, a fecundidade tende a ser maior do que em sociedades nas quais ter um filho exige abandonar ou reduzir fortemente a vida profissional.
Creches acessíveis ajudam justamente nessa transição. A disponibilidade de cuidado infantil depois que termina a licença permite que os pais retornem ao emprego sem que uma segunda ou terceira criança represente uma ruptura profissional completa.
Coreia do Sul e Japão ilustram a dificuldade oposta. Jornadas longas, custo educacional, preços de moradia e culturas de trabalho intensas permanecem como barreiras mesmo com expansão dos benefícios governamentais.
Brasil abaixo
O Brasil já entrou no mesmo problema demográfico, embora ainda não tenha adotado uma política nacional explicitamente destinada a elevar a natalidade nos moldes de Rússia, Hungria ou Coreia do Sul.
O Censo de 2022 encontrou uma taxa de fecundidade de 1,55 filho por mulher, abaixo dos aproximadamente 2,1 necessários para reposição populacional sem considerar migração.
Em 1960, eram 6,28 filhos por mulher. As projeções mais recentes do IBGE indicam que a fecundidade brasileira pode ficar próxima de 1,47 em 2030.
A população continuará envelhecendo enquanto diminui proporcionalmente a quantidade de pessoas em idade de trabalhar.
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