O próximo presidente vai assumir um Orçamento que já nasce apertado. As três medidas adotadas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes das eleições, o reajuste do Bolsa Família, o Desenrola 3.0 e a proibição das chamadas bets, terão um impacto de R$ 42,3 bilhões no Orçamento de 2027.
Segundo o economista Tiago Velloso, formado pelo Ibmec, o conjunto de medidas adiciona pressão a uma peça que previa superávit primário de apenas R$ 18,6 bilhões.
"O problema é que 2027 já começa com pouquíssimo espaço fiscal", afirma Velloso.
Para Alisson Batista, mestre em administração e professor dos cursos de Gestão da Estácio BH, o problema não se resume ao valor. "O grande desafio não é apenas encontrar R$ 42 bilhões para fechar o Orçamento de 2027. É garantir que essas medidas tenham financiamento sustentável nos anos seguintes", diz.
Bolsa Família trará o maior impacto
O reajuste do Bolsa Família responde pela maior fatia, cerca de R$ 22,7 bilhões a mais no Orçamento e cria uma despesa recorrente, segundo os especialistas. A reforma tributária, por sua vez, não compensará o impacto.
O novo reajuste no programa social foi de 15,04%, que passa a ser pago a partir do próximo mês. A mudança promovida, então, é de R$ 91,00, já que o programa saiu de R$ 600,00 para R$ 691,00. Essa mudança foi aplicada com base na variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), de março de 2023 a agosto de 2026. A justificativa do governo para o ajuste foi a falta de correção desde 2023.
Batista lembra que "a CBS [Contribuição sobre Bens e Serviços] vai substituir tributos que já existem". Velloso completa que "receita extraordinária ou simplesmente substituição de tributos não deveria financiar expansão permanente de despesa".
"O aumento do Bolsa Família tem impacto permanente e, portanto, exige financiamento da mesma maneira", afirma Batista.
Desenrola 3.0
Juntamente da proibição das bets, o governo anunciou mais uma etapa do programa Desenrola Brasil, apelidado de Desenrola 3.0. O programa de renegociação de dívidas deve custar aproximadamente R$ 15 bilhões à próxima equipe econômica.
O Tesouro espera comprar dos bancos cerca de R$ 150 bilhões em dívidas de famílias, com deságio de aproximadamente 90%.
Na prática, o governo pretende adquirir dívidas antigas por uma pequena parcela do valor original e repassar esse desconto ao consumidor. Por exemplo, uma dívida de R$ 10 mil poderia ser renegociada por R$ 1 mil.
O custo fiscal depende de quanto o Tesouro consegue recuperar.
"Se o Tesouro pagar R$ 10 e recuperar R$ 12, há retorno positivo sobre a aquisição, mas se recuperar R$ 6, existe perda. Não faz sentido tratar os R$ 150 bilhões como gasto público, mas também não podemos tratar a operação como fiscalmente neutra antes de conhecer inadimplência, recuperação e custo de financiamento do Tesouro", explica o economista da Ibmec.
Para o administrador e economista, por sua vez, existe um custo fiscal e a efetividade dependerá também da capacidade dessas famílias de pagar os novos acordos.
Proibição das bets
A proibição das apostas anunciada na última sexta-feira (25) representa perda estimada de R$ 5,3 bilhões em arrecadação em 2027.
O impacto pode ser maior se o apostador migrar para plataformas ilegais. Pesquisa da LCA Consultoria Econômica revelou que o mercado legal de apostas gera cerca de R$ 54 bilhões em receitas anualizadas, frente a uma receita entre R$ 33 bilhões e R$ 43 bilhões ao ano no mercado ilegal. O setor de apostas ilegais teria potencial de arrecadar de R$ 9,1 bilhões a R$ 12 bilhões por ano.
"Se migrarem para o mercado clandestino, teremos movimentação financeira sem tributação e com menor proteção ao consumidor", diz Batista.
Velloso reitera que proibir a oferta legal não significa necessariamente eliminar a demanda por apostas. Segundo ele, parte dos apostadores pode deixar de apostar, parte pode redirecionar a renda para consumo ou poupança, e parte pode ir para operadores ilegais. Ele afirma que será necessário comparar a externalidade social que se quer reduzir com o risco de deslocar a mesma demanda para o mercado clandestino.
Por outro lado, conforme mostrou O Brasilianista, em 2025, a redução do consumo das famílias associada às apostas teria retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica, equivalente a aproximadamente 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). A perda de arrecadação decorrente dessa redução da atividade econômica é estimada entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões.
Expectativas de inflação e Selic
O economista Tiago Velloso pondera que R$ 42,3 bilhões, isoladamente, não determinam a trajetória da inflação brasileira.
"O risco está nas expectativas: se o mercado ler as medidas como deterioração permanente da trajetória da dívida, o prêmio de risco sobe, o câmbio pode depreciar e o Banco Central encontra menos espaço para reduzir a Selic", explica.
Vale lembrar que a meta de inflação é de 3,00%, mas o último Boletim Focus mostra projeção de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerre o ano em 4,99%. Por sua vez, a taxa básica de juros, a Selic, está prevista para fechar 2026 no patamar de 13,50% ao ano — atualmente, está em 13,75% a.a..
"A política fiscal e a política monetária precisam conversar. Quando o governo amplia gastos sem financiamento adequado, o Banco Central pode precisar manter os juros elevados por mais tempo", complementa Batista.
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