A disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados terá um cenário diferente nas eleições de 2026, uma vez que a quantidade de candidatos a deputado federal caiu 28% em relação a 2022, indo de 10,6 mil para 7,6 mil.
O movimento levanta questões sobre o que está por trás dessa redução e se ela reflete mudanças nas estratégias dos partidos, nas regras eleitorais ou no próprio interesse de candidatos em disputar uma vaga no Congresso.
Os efeitos não necessariamente terminam com a apuração dos votos. A composição da Câmara influencia a formação de maiorias, a negociação entre Executivo e Legislativo, a aprovação de projetos e a relação entre governo e Congresso ao longo do mandato.
Para entender o que explica a queda nas candidaturas e quais consequências esse cenário pode produzir tanto nas eleições quanto na atuação dos futuros parlamentares, O Brasilianista conversou com Silvana Krause, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O número de candidaturas a deputado federal caiu cerca de 28% em relação a 2022. O que está por trás dessa redução?
Preferencialmente, duas coisas. A primeira é que diminuiu o número de candidatos possíveis a cada partido. A segunda é que as coligações para as eleições proporcionais já estão proibidas desde 2022.
Então, a ideia de muitas candidaturas é quase como cada chapa anexar cabos eleitorais para fazer campanha e essa estratégia não tem mais como, porque as coligações foram proibidas, o que se pode fazer são as federações.
As federações obrigam a manutenção desta aliança durante todo mandato. Antes era uma coisa muito menos comprometedora: você se candidatava, juntava um monte de candidatos dentro de uma mesma coligação, depois da eleição cada um procurava sua vida e não tinha obrigação de ter um mínimo de orientação comum na ação parlamentar.
O importante aqui é ter claro que a exigência maior deste ano para a aquisição de uma vaga numa federação partidária ficou maior e isso limita, vamos dizer assim, o risco de não conseguir representação. Então, os partidos estão mudando suas estratégias diante dessas novas regrinhas.
Às vezes, talvez a gente podia também observar se não há uma desmotivação também muito grande em função de cada vez mais se consolidar uma campanha, inclusive nas redes sociais e também nos órgãos de imprensa mais consolidados e tradicionais, de que a política meramente não presta, e se resume a corrupção. Isso desmotiva a formação de pessoas que querem fazer carreira dentro de partidos. São inúmeras variáveis, como sempre, que contribuem para que tenha um número menor de candidatos, seja por federação ou seja por uma legenda.
Essa queda representa principalmente menos pessoas interessadas em disputar uma eleição ou uma mudança na estratégia dos próprios partidos?
Para essa pergunta, farei uma comparação com a medicina. Quando a gente vai no médico, o especialista, geralmente, diz que existem várias causas para desenvolver aquela doença. São muitas variáveis. Essas que eu mencionei são as importantes para tentar explicar, mas não indicam que é uma ou outra. Elas contribuem para o fenômeno.
A gente costuma ter ansiedade de saber qual é a causa de um fenômeno, só que é preciso ter muito cuidado. Cada vez mais as pesquisas em todas as áreas mostram que um fenômeno não tem uma causa única.
Na prática, o que muda para o eleitor quando existem quase 3 mil candidatos a deputado federal a menos?
O eleitor não vai ter a proposta de três mil candidatos para avaliar, porque a votação ocorre por cada estado. É claro que facilita, ele tem uma menor lista de controle, apesar de que, de fato, aqui no Brasil, o eleitor geralmente decide por questões bem pessoais.
Então essa quantidade maior ou menor não é uma questão central, mas, com certeza, se você tem menos opções, tem condições de controlar mais a sua decisão.
Existe o risco de uma redução no número de candidaturas significar também menos diversidade de perfis representados na disputa?
Diversidade não é tamanho. Vale uma analogia: eu preciso tirar todo o meu sangue para descobrir como está meu colesterol? Não, uma amostra é suficiente.
Não é necessário ter um tamanho muito grande para garantir a diversidade, isso é um grande equívoco, achar que pelo tamanho você pode perceber. Claro, tem que se estudar melhor para ver se com a diminuição de tamanho das listas houve uma maior ou menor diversidade, mas não é tão simples assim.
Como a redução do número de candidaturas interfere no quociente eleitoral e no quociente partidário?
O quociente eleitoral ficou mais exigente, como eu disse, em função da exigência da diminuição do tamanho das listas, mas principalmente também com a cláusula de barreira ("mecanismo previsto em dispositivo legal que impede a existência ou a representação parlamentar da agremiação partidária que não conte com o apoio de um determinado número ou percentual de eleitores", segundo definição de Orides Mezzaroba, professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina).
Considerando a polarização atual e a diminuição de candidatos, isso torna a disputa mais previsível na Câmara?
São duas coisas diferentes. Estamos misturando eleição proporcional com eleição majoritária.
A polarização tem a ver com eleição proporcional, ela é constatada atualmente na campanha presidencial, sendo intensificada nos últimos tempos.
A pergunta que a ciência política tem cada vez mais se feito, especialmente os brasileiros, é: o que move a polarização e qual a polarização? Você tem vários tipos de polarização: ideológica, emocional...
É difícil. Hoje em dia, todo mundo nas redes quer saber de tudo, é advogado, é juiz, é médico, é virólogo... Dentro da discussão da polarização, você tem uma dimensão ideológica, você tem uma dimensão emocional, você tem uma característica comum de tendência no sistema eleitoral majoritário do tipo dois turnos.
Assim, é óbvio que, ao final, provavelmente vai ter uma polarização de dois candidatos. A gente confunde as coisas, isso me deixa muito preocupada, porque o eleitor quer julgar tudo, mas a qualificação do sujeito tem lacunas.
Pensando nos próximos quatro anos, o que é esperado da Câmara dos Deputados?
A ciência política não faz previsões, está muito difícil de fazer uma projeção para eleição proporcional, assim como para eleição presidencial.
Sem dúvida, tudo indica para a permanência dos principais partidos, o PT e o PL, com a representação. Outra questão é que quase com certeza nenhum desses partidos vai ter maioria na Câmara, como sempre, nenhum presidente do Brasil teve maioria na Câmara, então ele vai ter que fazer coalizões.
Esse será o problema, porque em um momento em que você tem dois candidatos à presidência com a maior rejeição, qualquer um desses dois eleitos vai ter uma rejeição muito alta, até então nunca constatada na nova democracia brasileira.
Portanto, o perfil da liderança vai ser muito importante para a governabilidade, necessitando de maior capacidade de negociação.
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