O telefonema de uma hora e vinte minutos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, na última sexta-feira (21), destravou uma nova rodada de negociações entre os países.
Na próxima segunda-feira (31), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, se reúnem virtualmente às 14h30 (horário de Brasília) para dar início a uma nova rodada de negociação sobre o tarifaço.
É a primeira reunião de fato entre as duas equipes desde que os Estados Unidos aplicaram, neste ano, duas tarifas adicionais aos produtos brasileiros: uma de 25%, sob a alegação de que o Brasil adota práticas que restringem o comércio — caso do Pix e da regulação de plataformas digitais —, e outra de 12,5%, motivada por uma investigação sobre fiscalização do trabalho forçado nas cadeias de importação.
Somadas, ampliam para cerca de 37,5% a alíquota que incide sobre uma lista de produtos brasileiros nos Estados Unidos.
Porém, o momento não discute simplesmente tarifas. José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), afirma que a nova rodada de negociações discute poder, acesso a mercados e capacidade de transformar interdependência econômica em instrumento de negociação política.
Os interesses do Brasil e EUA
O objetivo imediato brasileiro com a conversa é bastante claro: reduzir as tarifas americanas, ampliar as exceções e diminuir os prejuízos para setores exportadores brasileiros.
Por outro lado, a agenda americana é muito mais ampla. Washington colocou sobre a mesa questões relacionadas ao comércio digital, sistemas de pagamentos, propriedade intelectual, etanol, meio ambiente e outras políticas brasileiras. Portanto, os Estados Unidos tentarão transformar eventual redução tarifária em moeda de troca.
"A lógica é simples. Eu retiro determinada pressão comercial e você oferece determinada concessão. O Brasil, por sua vez, precisa conseguir uma redução das tarifas sem produzir a percepção doméstica de que cedeu excessivamente a pressão americana. E é justamente aqui que Lula e Trump entram. Os dois presidentes possuem estilos políticos muito diferentes, mas compartilham uma característica importante: ambos compreendem profundamente o valor político de uma negociação apresentada como vitória pessoal", reitera o professor.
Segundo Silveira, Trump gosta da imagem do negociador que for seu adversário a fazer concessões. Já Lula gosta da imagem do estadista capaz de conversar com qualquer liderança internacional e defender os interesses brasileiros. Isso significa que um eventual encontro entre os dois poderá ser muito mais do que uma reunião diplomática, mas transformar-se numa disputa narrativa.
O especialista vê três possíveis cenários para essa negociação:
- Acordo parcial: primeiro e mais provável no curto prazo, infere que algumas tarifas serão reduzidas, algumas exceções são ampliadas e grupos técnicos continuam negociando;
- Grande acordo político: Trump oferece uma redução significativa das barreiras e o Brasil oferece concessões específicas em determinadas áreas;
- Fracasso das negociações: nesse caso, haveria manutenção das tarifas, aprofundamento da disputa jurídica e possibilidade de medidas brasileiras de reciprocidade.
"Nesse momento considero o primeiro cenário mais plausível, porque permite que os dois governos digam que houve progresso, sem obrigar nenhum deles, a fazer imediatamente uma grande concessão", avalia o professor.
Quem ganha politicamente as negociações?
Uma dimensão fundamental nessa negociação é a época das negociações. Em 2026, qualquer grande acordo entre Lula e Trump será inevitavelmente interpretado também dentro do calendário eleitoral brasileiro.
Se Lula conseguir reduzir substancialmente as tarifas americanas, proteger setores exportadores e apresentar o resultado como consequência de uma negociação direta com Trump, isso pode produzir um ativo político importante.
A narrativa seria simples: o Brasil sofreu opressão, resistiu e depois conseguiu negociar de igual para igual com os Estados Unidos. Naturalmente, o impacto eleitoral dependerá do tamanho da vitória.
Para Silveira, uma pequena lista adicional de produtos isentos dificilmente mudará uma eleição, mas uma redução expressiva do tarifas, acompanhada de investimentos ou outras concessões americanas poderia ser politicamente explorada pelo governo. E Trump sabe disso — esse é um elemento interessante na negociação.
Ao mesmo tempo, Washington também precisa calcular se determinadas concessões podem fortalecer Lula eleitoralmente. Ainda, a América Latina e especialmente Argentina, México, Chile, Colômbia e outros governos alinhados a Trump observarão atentamente o resultado.
Isso porque existe uma pergunta importante na avaliação do especialista: qual será o preço de um acordo com Trump?
"Se o Brasil conseguir reduzir as tarifas preservando grande autonomia regulatória, outros países poderão concluir que resistência seguida de negociação funciona. Mas se o Washington conseguir concessões profundas em políticas domésticas brasileiras, a leitura poderá ser outra", comenta o professor.
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