Publicidade
Geopolítica

Trump está ambicioso com o acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita

O Congresso americano avalia a proposta, que pode mudar o jogo político do Oriente Médio

Trump
O governo Trump tenta transformar a cooperação nuclear americana em instrumento de negociação para produzir uma transformação política no Oriente Médio (Foto: Molly Riley via Fotos Públicas)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enviou ao Congresso um acordo de energia nuclear civil com a Arábia Saudita na última terça-feira (25).

Agora, os parlamentares americanos possuem 90 dias para analisar o documento que foi estabelecido entre os países em julho deste ano. Além de estabelecer regras para o desenvolvimento de ogivas nucleares, os EUA exigem que o país saudita entre para os Acordos de Abraão e reconheça Israel.

Publicidade

O tratado permitiria a empresas americanas a exportação de tecnologia nuclear civil para o reino. Essa não é a primeira vez que os EUA tentam um acordo com a Arábia Saudita, visto que o ex-presidente Joe Biden também iniciou as conversas de normalizar as relações com Israel, mas foi interrompido pelo início da guerra em Gaza. 

José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), avalia que Donald Trump está tentando fazer uma operação geopolítica bastante ambiciosa.

Isso porque o governo Trump tenta transformar a cooperação nuclear americana em instrumento de negociação para produzir uma transformação política no Oriente Médio, apaziguando as relações diplomáticas entre saudistas e israelenses. 

"Esse seria um prêmio extraordinário para Washington, porque uma coisa foi conseguir a normalização de Israel com os Emirados Árabes Unidos, entre outros países. Outra muito diferente seria conseguir o reconhecimento de Israel pela Arábia Saudita. Estamos falando de uma das principais potências árabes,  maior economia do Golfo e país que abriga Meca e Medina. Portanto, o peso político, econômico, simbólico da Arábia Saudita dentro do mundo islâmico, é incomparavelmente maior", afirma o professor.

Na prática, Trump está essencialmente oferecendo ajuda dos Estados Unidos no desenvolvimento de um programa nuclear civil sofisticado, que pode aprofundar a parceria estratégica e ampliar garantias de segurança, mas deixando claro que existe um preço político, a normalização com Israel. 

O especialista ressalta que há também uma dimensão econômica. A Arábia Saudita pretende construir uma indústria nuclear importante nas próximas décadas. Se os americanos não participarem desse processo, existem outros fornecedores possíveis, como China, Rússia, Coreia do Sul e outros atores com capacidade tecnológica e interesse comercial.

Washington, portanto, também deseja impedir que Pequim amplie sua presença estratégica numa área extremamente sensível.

O Congresso americano pode aprovar o acordo?

Está nas mãos do Congresso americano confirmar ou não o acordo pelo lado dos EUA. Nesse contexto de revisão, politicamente haverá resistência, especialmente em torno da possibilidade de enriquecimento de urânio e das garantias de não proliferação.

"Eu diria que o maior problema, talvez não esteja em Washington, está em Riad e Jerusalém. A Arábia Saudita continua relacionando a normalização com Israel à questão palestina. E o governo israelense possui enorme resistência à criação de um Estado palestino. Então existe um paradoxo. Trump possui uma proposta capaz de alterar profundamente o Oriente Médio, mas precisa compatibilizar três agendas que não são naturalmente compatíveis: as ambições nucleares sauditas, as exigências de segurança israelenses e a questão palestina", comenta Silveira.

Se Washington conseguir, será uma transformação histórica, mas se não conseguir, será mais um grande projecto diplomático americano bloqueado pelas próprias contradições do Oriente Médio. 

O jogo político do Oriente Médio

Uma das principais questões sobre esse acordo é como ficaria a relação política do Oriente Médio. 

O Brasilianista mostrou como o jogo de poder na região mudou desde o início da guerra, em outubro de 2023, de Israel em Gaza. Uma aproximação entre Turquia e Síria com a queda do regime de Bashar al-Assad deixou o governo israelense em alerta. 

Desde a queda de Assad, a Turquia tem influência direta dentro do novo governo sírio, apoiando o novo líder do HTS, Ahmed al-Sharaa.  Israel se viu ameaçado com a nova configuração e já realizou bombardeio em regiões da síria comandadas pela Turquia.

O ataque aumentou a percepção de que o Estado judeu teria poder superior para impor suas vontades, se necessário. O cenário impulsionou uma aliança militar entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, que está sendo aplidada de "Otan islâmica". Os países muçulmanos são de maioria sunita.

Em relação ao acordo nuclear com os EUA, o professor explica que inevitavelmente a questão também é de poder. 

"Possuir um programa nuclear civil não significa possuir uma arma nuclear, mas determinadas capacidades tecnológicas, particularmente em riquecimento de urânio e domínio do ciclo do combustível nuclear, que podem diminuir a distância tecnológica entre um programa exclusivamente civil e uma capacidade nuclear militar potencial. É aquilo que podemos chamar de capacidade nuclear latente. Isso modifica os cálculos estratégicos do Oriente Médio, porque imediatamente aparece o Irã", comenta.

A Arábia Saudita acompanha há muitos anos o desenvolvimento nuclear iraniano e não deseja ficar em uma posição de vulnerabilidade estratégica diante do país.

Dessa forma, o que pode surgir com o acordo são países que não necessariamente desejam construir imediatamente uma bomba nuclear, mas que querem possuir conhecimento, infraestrutura e capacidade tecnológica suficientes para reduzir o tempo necessário caso decidam fazê-lo algum dia.

"Esse é o verdadeiro desafio. O acordo pode produzir aquilo que poderíamos chamar de uma competição de redes nuclear no Oriente Médio. Israel observa tudo isso com enorme ambivalência. Do ponto de vista diplomático, a normalização com a Arábia Saudita seria uma vitória histórica. [...] Mas existe o outro lado. Israel tradicionalmente procura preservar sua superioridade estratégica regional e certamente observará com enorme cuidado qualquer ampliação significativa das capacidades nucleares sauditas", diz o especialista.

Silveira ainda ressalta uma contradição importante na política americana. Ao mesmo tempo em que Washington pressiona fortemente o Irã para limitar sua capacidade nuclear, considera oferecer à Arábia Saudita acesso a uma cooperação nuclear avançada.

Nesse caso, o mais interessante será entender qual tipo de capacidade nuclear os sauditas terão.

Confira mais notícias de O Brasilianista nas redes sociais