A Oi chegou ao mercado como uma promessa de gigante brasileira das telecomunicações. Anos depois, a empresa que ampliou sua presença nacional, incorporou a Brasil Telecom e tentou construir uma operação internacional termina sua trajetória marcada por dívidas bilionárias, venda de ativos e sucessivas tentativas de recuperação financeira.
Nesta terça-feira (25), a Primeira Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decretou novamente a falência da operadora.
A decisão acontece depois de a própria companhia informar à Justiça que não teria recursos suficientes para manter pagamentos essenciais no fim de agosto.
O processo também registra patrimônio líquido negativo superior a R$ 22,6 bilhões.
Assim, a falência interrompe a segunda recuperação judicial da empresa, que envolvia uma dívida de R$ 44,3 bilhões.
De Telemar à criação de uma gigante nacional
A história da Oi começou antes da marca que ficou conhecida pelos brasileiros. Em 1998, após a privatização do sistema Telebrás, a Telerj foi incorporada pela Telemar, empresa que posteriormente adotaria a marca Oi.
A companhia passou a operar sob o nome Oi em 2007 e, no ano seguinte, deu um dos maiores passos de sua história ao comprar a Brasil Telecom.
A operação de 2008 tinha uma ambição maior do que simplesmente ampliar a presença comercial.
A união criou uma operadora com atuação nacional e contou com participação importante de instituições financeiras públicas.
O BNDES, por exemplo, apoiou a operação, que também envolveu fundos de pensão de estatais.
Naquele momento, a estratégia era transformar a companhia em uma grande empresa brasileira de telecomunicações.
O movimento ganhou força justamente porque a Oi passou a reunir operações que ampliavam sua presença no país.
A aquisição da Brasil Telecom, porém, também aumentou a exposição financeira do grupo e trouxe passivos que pesaram posteriormente sobre o balanço.
A expansão que aumentou o peso das dívidas
A trajetória de expansão continuou nos anos seguintes. Em 2013, Oi e Portugal Telecom anunciaram uma operação para unir suas atividades, criando uma estrutura com presença no Brasil, em Portugal e em países africanos.
A negociação avançou em 2014, mas acabou acrescentando novos problemas financeiros à companhia.
Segundo estudo disponibilizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), as reorganizações realizadas entre 2008 e 2016 não produziram os resultados esperados para o crescimento econômico da empresa.
O levantamento aponta ainda que o endividamento em moeda estrangeira utilizado na incorporação da Brasil Telecom aumentou a pressão financeira e que a operação envolvendo a Portugal Telecom contribuiu para uma nova elevação das dívidas.
O problema ganhou dimensão ainda maior quando surgiu um rombo relacionado à Portugal Telecom.
A companhia portuguesa havia adquirido títulos da RioForte, operação que posteriormente representou um prejuízo próximo de € 1 bilhão (R$ 6,01 bilhões) para a estrutura da Oi.
A primeira recuperação judicial
O acúmulo de compromissos levou a Oi ao primeiro pedido de recuperação judicial em 2016.
Na época, a companhia informou dívidas de aproximadamente R$ 65 bilhões com credores, em um dos maiores processos desse tipo já registrados no país.
A empresa conseguiu concluir aquela primeira recuperação no fim de 2022. Entretanto, a saída do processo não resolveu completamente sua situação financeira.
A Oi ainda carregava uma dívida de R$ 44,3 bilhões e entrou novamente em recuperação judicial poucos meses depois, no início de 2023.
O segundo processo previa uma nova reestruturação financeira. Em abril de 2025, os credores aprovaram um plano que incluía financiamento de até US$ 655 milhões (R$ 3,37 bilhões).
Desse montante, US$ 505 milhões (R$ 2,60 bilhões) seriam aportados por credores financeiros, enquanto a V.tal poderia colocar entre US$ 100 milhões (R$ 515 milhões) e US$ 150 milhões (R$ 772,59 milhões).
A tentativa, entretanto, não conseguiu recolocar a companhia em uma situação financeira sustentável.
Em novembro de 2025, a Justiça do Rio já havia decretado a falência da Oi ao reconhecer a insolvência técnica e patrimonial do grupo.
Bancos credores recorreram, entre eles Itaú Unibanco e Bradesco, e conseguiram suspender temporariamente os efeitos da decisão.
A segunda falência chega com caixa em queda
A suspensão abriu espaço para a continuidade da recuperação judicial, mas o quadro financeiro voltou a se deteriorar.
Conforme os dados apresentados no processo, a projeção de caixa para o fim de julho de 2026 era de R$ 88,1 milhões.
Em abril, porém, os recursos disponíveis já haviam caído para R$ 19,6 milhões.
A própria administração judicial comunicou à Justiça que a companhia caminhava para o “esgotamento total dos recursos” no fim de agosto.
Sem liquidez suficiente para cumprir despesas essenciais, a situação tornou-se um dos principais elementos considerados no novo julgamento.
Enquanto isso, fornecedores começaram a interromper serviços diante da falta de pagamentos.
Em julho, a Sitelbra suspendeu conexões utilizadas pela rede de lotéricas da Caixa, além de sistemas de videomonitoramento na Bahia e em Goiás e serviços ligados a lojas da Enel no Ceará.
Outras empresas, como Nava Software, Nava Serviços e Hughes, também paralisaram atividades contratadas pela Oi.
A Justiça determinou posteriormente o restabelecimento de serviços considerados essenciais e estabeleceu multa de R$ 5 milhões em caso de descumprimento.
O que ainda resta da antiga gigante
A Oi também tentou levantar recursos com a venda de ativos. Uma das principais tentativas envolveu a Oi Soluções, unidade voltada ao atendimento de empresas e órgãos públicos.
O leilão realizado em junho de 2026 tinha preço mínimo de R$ 1,4 bilhão, mas não recebeu propostas. A administração judicial pediu uma nova rodada de venda.
Outro ativo importante permanece em disputa: a participação de 27,2% da Oi na V.tal.
A fatia havia sido homologada por R$ 4,5 bilhões para fundos ligados ao BTG Pactual, mas recursos apresentados por credores e investidores mantiveram a operação suspensa pela Justiça.
Além disso, a companhia ainda não recebeu R$ 60,1 milhões referentes à venda da UPI Serviços Telefônicos para a Método Telecomunicações.
Embora a empresa tenha vencido o leilão em abril, a conclusão depende do cumprimento de condições contratuais e de aprovações regulatórias.
Agora, com a nova decisão da Justiça do Rio, o advogado Bruno Rezende foi nomeado administrador judicial.
Caberá a ele auxiliar o processo de arrecadação dos bens, pagamento dos credores e encerramento das atividades dentro das regras determinadas pela Justiça.
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