O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estuda uma verdadeira repaginada na comunicação digital para os próximos quatro anos.
O Brasilianista mostrou como Lula precisou comprimir e divulgar 4 anos de mandato em três semanas de "intensivão" nas redes sociais como uma das principais estratégias para vencer as eleições de 2026.
Depois de praticamente ignorar a comunicação digital em seu terceiro mandato — o que ele e outros membros do governo e do PT reconheceram ao longo dos últimos anos —, o objetivo é seguir uma série de medidas para que a população entre em contato não apenas com resultados de políticas públicas, mas engagem com a política brasileira.
Ministério da Comunicação Digital
Interlocutores disseram à CNN que Lula pretende criar um Ministério da Comunicação Digital, mas ainda não há decisão. A pasta também seria responsável por cuidar das regulamentações das plataformas digitais, outra pauta relevante para o governo.
Outra alternativa seria criar uma Secretaria de Comunicação Digital dentro da estrutura da Secom. Lula teria chamado o deputado André Janones (Rede) para uma conversa no Palácio da Alvorada, em 29 de outubro, para discutir a reformulação. O presidente considera Janones um dos principais conselheiros para essa iniciativa, por sua atuação na campanha eleitoral.
O objetivo é dar mais protagonismo à comunicação digital e fazer com que ela deixe de ser uma área secundária da comunicação governamental.
Estratégia nova
Vale lembrar que no primeiro discurso após a reeleição, no domingo do segundo turno, Lula anunciou que a comunicação digital terá um espaço muito maior no próximo governo.
“Daqui para a frente, vou conversar com o povo brasileiro muitas vezes por dia direto. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé. Vou dizer o que penso, o que faço”, disse o presidente reeleito.
A fala indica uma mudança na relação de Lula com a comunicação: ele pretende utilizar seus próprios canais para divulgar decisões, explicar medidas e apresentar sua versão dos acontecimentos, sem depender exclusivamente de entrevistas e da cobertura jornalística.
Ao longo dos últimos anos, a direita no Brasil vem utilizando essa estratégia e alcançando números recorde de engajamento. Apesar da política não ser feita na internet, boa parte do que a população consome ajuda a moldar o cenário de um bom ou mau governo.
Como estratégia, as intenções do governo são:
- Aumentar a frequência de aparições do presidente nas redes;
- Criar uma comunicação mais direta entre Lula e seus eleitores;
- Reduzir a dependência de intermediários para transmitir mensagens políticas;
- Utilizar as redes para defender o governo e responder a adversários.
A estratégia anterior estava muito concentrada em apresentar programas, investimentos, benefícios e entregas do governo. O problema é que a divulgação institucional não necessariamente se transforma em engajamento político.
A mudança que se desenha para 2027 é utilizar a comunicação como instrumento de disputa política permanente.
Poder do "Exército do Lula"
Há outra frente relevante, que deseja manter vivo o chamado "Exército do Lula", canal de WhatsApp comandado por Janones, com mais de 10 milhões de integrantes.
A intenção é utilizar essa rede para mobilizar apoiadores, influenciar debates no Congresso e pressionar parlamentares em pautas de interesse do governo. Lula já deu um exemplo de como pretende utilizar o grupo ao convocar pressão popular sobre a discussão das bets nesta semana.
O novo formato de engajamento, que o bolsonarismo já dominava, foi encabeçado pelo deputado André Janones (Rede). O canal saiu de 600 mil seguidores para mais de 1 milhão em menos de 24 horas. Até dois dias antes do segundo turno, o grupo já marcava 10 milhões de seguidores.
Estratégia de redes sociais, transmissões ao vivo e apoiadores tiveram um papel que não se restringiu às plataformas digitais. As manifestações em apoio à Lula também marcaram a presença de milhões de brasileiros que reforçaram os esforços das redes sociais.
Para o cientista político e docente na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando, a mobilização de apoio ao presidente nas redes sociais — e eventualmente nas ruas — foi essencial nas três semanas entre primeiro e segundo turno para alcançar o resultado deste domingo.
A hipótese do cientista político é de que as redes permitiram uma coesão simbólica tão grande que reverberou nas manifestações de rua.
Por sua vez, a manifestação de rua, que provavelmente levou aqueles já convertidos para as manifestações, deu sinais de força simbólica a um movimento de recusa do candidato Flávio Bolsonaro e de expressão de força, de coesão simbólica entre os eleitores do Lula e a militância petista.
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