O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, na última quarta-feira (04), manter a Selic em 13,75% ao ano. A decisão interrompe a sequência de cortes de 0,25 ponto percentual dos últimos encontros e reacende uma pergunta que já circulava no mercado: o Brasil corre risco de entrar em estagflação?
O termo descreve uma combinação de economia estagnada, inflação alta e desemprego. Ela é rara, já que uma economia fraca costuma frear os preços, mas marcou os anos 1970 por exemplo com a crise do petróleo.
Segundo especialistas, o risco existe, mas esse ainda não é o cenário mais provável.
As projeções do BC
O Boletim Focus de 30 de outubro, o último antes da decisão, mostra um quadro de pressão sobre os preços e desaceleração gradual da atividade:
- IPCA 2026: a mediana das projeções subiu para 5,22%, ante 5,01% há quatro semanas;
- IPCA 2027: saltou de 4,34% para 4,76% em uma semana;
- PIB: a projeção para 2026 caiu para 1,76%. A de 2027 recuou pela terceira semana seguida, para 1,20%, ante 1,40% há quatro semanas;
- Câmbio: a projeção para o fim de 2026 foi de R$ 5,05 para R$ 5,34 em uma semana;
- Selic em 2027: a projeção passou de 11,75% para 12,50% em uma semana.
Ou seja, o mercado ainda enxerga crescimento positivo, mas cada vez menor, com inflação e juros mais altos.
Risco baixo de estagflação
Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, o risco de estagflação existe, mas ainda não é grande. Segundo ele, esse cenário exige um PIB negativo ou parado combinado a uma inflação bem acima da meta.
"Hoje, a inflação está acima da meta, mas longe dos patamares de mais de 10% vistos em outros momentos, e a economia cresce de forma modesta, sem recessão", explica.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, concorda que o risco aumentou, mas não é o cenário mais provável. Ele aponta o dilema do Banco Central: manter os juros elevados para conter os preços enfraquece o consumo, encarece o crédito e reduz os investimentos.
"Se as expectativas fiscais e o câmbio piorarem, o país pode enfrentar um período prolongado de crescimento muito baixo, inflação elevada e mais pressão sobre o emprego", avalia.
O debate não é novo. O Brasilianista mostrou, em março, quando a Selic estava em 14,75%, que o presidente da CNI, Alban, já alertava que juros caindo devagar demais poderiam impedir a economia de ganhar tração. Ao mesmo tempo, uma inflação pressionada deixaria o país preso nesse “meio termo perigoso”.
O que esperar da Selic e da inflação em 2027?
Segundo o Focus, o mercado projeta Selic de 12,50% ao fim de 2027 e IPCA de 4,76%. Lima vê um ano de juros elevados e inflação acima da meta, com risco considerável de revisão desses números para cima. Para ele, o problema está na deterioração das expectativas para os próximos anos, além da inflação atual.
Magno, por sua vez, diz que Selic e inflação vão depender dos sinais que o governo der sobre a equipe econômica e o ajuste fiscal. Ele explica que a taxa foi mantida em 13,75% justamente pela piora das expectativas de inflação e da curva de juros.
"Se o governo sinalizar um ambiente mais benigno nos gastos, o mercado tende a retirar prêmio da curva, o dólar pode ceder e o Banco Central ganha espaço para retomar os cortes. Sem esses sinais, o cenário pode ser de manutenção da taxa ou até de alta, caso o dólar ganhe força e pressione o IPCA", comenta o especialista da AW Capital.
Em outra reportagem de O Brasilianista, o economista Rafael Richter, associado Livres, projetou um cenário um pouco mais favorável. Para ele, a Selic pode terminar 2027 entre 10% e 12% ao ano, desde que as contas públicas estejam em ordem ou em trajetória de equilíbrio.
Ele considera “muito difícil” chegar a 9% ou 10% e acha improvável que a taxa suba do patamar atual. Segundo Richter, os indicadores mais relevantes são câmbio e inflação.
“É possível que os cortes na Selic sejam mais lentos do que gostaríamos, mas vejo que ainda é possível ver alguns cortes no próximo ano”, afirmou na ocasião.
Governo pode controlar juros e inflação
Para Magno, o ponto central é recuperar a credibilidade do ajuste fiscal e reduzir a incerteza do mercado sobre a equipe econômica. Quanto antes isso for indicado, mais provável é que os juros sejam controlados, o prêmio de risco do Brasil caia e a volatilidade do dólar, com seu efeito sobre a inflação, diminua.
Já Lima defende controle do crescimento dos gastos, melhora na qualidade das despesas e metas fiscais efetivamente cumpridas. Para ele, não adianta o Banco Central manter os juros altos enquanto o governo amplia despesas sem mostrar como vai financiá-las.
"O maior erro seria tentar estimular artificialmente o consumo com mais gastos e crédito subsidiado, o que ampliaria a pressão inflacionária e obrigaria o BC a manter os juros altos por mais tempo", avalia o analista da Ouro Preto.
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