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Geopolítica

Espionagem empresarial atingiu a Nvidia

O governo americano sabia da ameaça, mas preferiu não prejudicar sua relação com a China

Nvidia
O presidente da Nvidia esteve em contato com uma executiva de uma empresa de data center disfarçada (Foto: Unsplash)

Suspeitas de que a Nvidia foi alvo de espionagem chinesa vieram à tona após agências americanas acompanharem Alice Huang ou Huang Le de perto por desconfiar que ela estaria direcionando chips avançados de inteligência artificial (IA) da gigante de tecnologia para a China.

Uma reportagem do New York Times indicou que o presidente da Nvidia, Jensen Huang, esteve em contato com uma executiva de uma empresa de data center disfarçada. A suspeita é de que ela enviada informações para Pequim.

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O presidente dos EUA, Donald Trump, sabia dessa ameaça há pelo menos um ano, de acordo com a reportagem. No entanto, o republicano decidiu não tomar atitudes para não interromper a venda de chips da empresa de seu aliado. Vale lembrar que a maioria do material que produz chips, além de boa parte dessa produção, é chinesa.

Além disso, apesar da espionagem, Trump considerou que Nvidia tem impulsionado o mercado de ações e a economia americana em um momento de inflação alta e rejeição de seu mandato. O presidente americano também não deseja desgastar sua relação comercial com a China neste momento. 

A Casa Branca, a CIA e a Agência de Segurança Nacional se recusaram a comentar. 

Esse não é o primeiro caso de espionagem empresarial. Ao longo dos anos, diversas companhias tiveram modelos vazados, espiões infiltrados e informações delicadas compartilhadas com pessoas não confiáveis, comprometendo marcas e produções.

Casos de espionagem empresarial

1. Samsung x CXMT (2025-2026)

O Brasilianista mostrou um caso em que a Samsung deve processar a chinesa ChangXim Memory Technologies (CXMT) por espionagem industrial.

A maior companhia de semicondutores DRAM da China planejava usar tecnologias de fabricação de memórias da gigante coreana para desenvolver seus produtos. 

No caso, um ex-funcionário da Samsung contou a um tribunal na Coreia do Sul que a marca chinesa queria usar a tecnologia da antiga contratante para evitar criar métodos de produção do zero. O engenheiro, que começou a trabalhar na CXMT em 2016, era testemunha do caso de vazamento de informações da Samsung Electronics sobre o processo de fabricação de DRAM de 18nm para a China.

Ele testemunhou em juízo que desde a fundação da empresa chinesa, o CEO e o CTO da CXMT tentaram desenvolver DRAM roubando informações do Plano de Receita de Processo (PRP) da Samsung Electronics, que continha 600 etapas para a produção dos semicondutores.

O homem alegou que, na época de sua fundação, a CXMT não possuía instituto de pesquisa nem instalações próprias, e não tinha a intenção de desenvolver tecnologia por meio de pesquisa própria.

O engenheiro, que trabalhou na Samsung Electronics por 28 anos, foi indiciado no ano passado sob a acusação de participação na aquisição e uso ilegal de tecnologia de processo essencial enquanto empregado na CXMT, e foi condenado a sete anos de prisão no primeiro julgamento em abril passado.

O PRP da Samsung custou cerca de 1,6 trilhão de won (R$ 5,9 trilhões) para ser desenvolvido, ao longo de cinco anos. Ainda que uma cópia dos documentos não garante efeito imediato sobre a funcionalidade dos semicondutores, a engenharia não precisaria começar do zero, o que garantiu maior velocidade de produção — e lucro — da CXMT.

A companhia chinesa começou a produzir SDRAM DDR4 em 2019, por meio do processo de 22 nm. Em 2023, passou a montar sistemas de 18 nm — o mesmo da gigante de tecnologia. O tempo de avanço gerou questionamentos sobre a propriedade intelectual do planejamento.

2. Coca-Cola x Pepsi (2006)

Um dos episódios mais conhecidos de espionagem empresarial envolveu uma funcionária da Coca-Cola, Joya Williams, acusada de furtar documentos confidenciais e amostras de produtos ainda não lançados para vendê-los à Pepsi.

O caso aconteceu em 2006. Os envolvidos tentaram negociar as informações por pelo menos US$ 1,5 milhão. Porém, a Pepsi recebeu uma carta oferecendo os segredos comerciais e, em vez de comprar o material, avisou a Coca-Cola.

A Coca-Cola acionou o FBI, que organizou uma operação disfarçada para identificar os responsáveis. Uma funcionária da Coca-Cola e dois cúmplices foram condenados. Williams recebeu pena de oito anos de prisão.

3. Google x Uber (2017-2020)

Entre 2017 e 2020, um roubo de tecnologia de carros autônomos envolveu o Google e a Uber. A disputa envolveu Anthony Levandowski, engenheiro que trabalhava no projeto de carros autônomos do Google, posteriormente transformado na Waymo.

Antes de deixar o Google, Levandowski baixou milhares de arquivos confidenciais relacionados ao desenvolvimento de veículos autônomos. Depois, ele fundou a Otto, empresa de caminhões autônomos posteriormente adquirida pela Uber.

O Google acusou a Uber de se beneficiar de informações confidenciais sobre sua tecnologia de sensores LiDAR. A Uber fechou um acordo com a Waymo em 2018, avaliado em aproximadamente US$ 245 milhões em ações.

Em 2020, Levandowski foi condenado a 18 meses de prisão após admitir o roubo de segredos comerciais.

4. Volkswagen x General Motors (1993)

José Ignacio López de Arriortúa, o "inquisidor" das compras da GM, era o executivo responsável por cortar custos com fornecedores na Europa. Em 1993, ele deixou a GM de forma abrupta para virar chefe de produção e compras da Volkswagen, levando consigo sete executivos da GM e — segundo a acusação — quatro conjuntos de materiais: uma listagem de 3.350 páginas com 60 mil peças, fornecedores, custos e cronogramas de entrega da GM-Europa; detalhes da linha futura de produtos da GM; um estudo detalhado de fabricação e custos de uma fábrica específica; e o portfólio de apresentações usado por López para pressionar fornecedores.

A polícia alemã chegou a encontrar caixas cheias de documentos internos da GM na casa de um dos executivos que o acompanhou. O caso terminou em 1997 com a Volkswagen pagando US$ 100 milhões à GM e se comprometendo a comprar ao menos US$ 1 bilhão em peças da GM nos sete anos seguintes. López chegou a ser indiciado nos EUA anos depois, mas nunca foi extraditado da Espanha.

5. DuPont x Kolon Industries (2009–2015)

A DuPont acusou a sul-coreana Kolon de recrutar sistematicamente ex-funcionários seus, entre eles um engenheiro chamado Michael Mitchell, para obter segredos sobre a fabricação do Kevlar, fibra usada em coletes à prova de balas.

Em 2011, um júri considerou a Kolon culpada de se apropriar de 149 segredos comerciais ligados ao Kevlar e condenou a empresa a pagar US$ 919,9 milhões, o maior veredito contestado da história em casos de segredo industrial. O valor foi anulado em recurso em 2014 por questões processuais, mas o caso terminou em 2015 com um acordo civil e uma confissão de culpa criminal, no qual a Kolon pagou US$ 275 milhões de restituição à DuPont mais US$ 80 milhões em multas criminais.

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