A Justiça de São Paulo decretou a prisão preventiva de seis pessoas acusadas de participar de uma tentativa de fraude de R$ 845,9 milhões contra o patrimônio deixado por João Carlos Di Genio, fundador do grupo Unip-Objetivo.
Segundo o Ministério Público, os investigados falsificaram documentos referentes à venda de 448 imóveis no interior paulista e recorreram a um procedimento arbitral supostamente fraudulento para cobrar a dívida dos herdeiros.
A decisão, assinada em 15 de outubro, também recebeu a denúncia contra nove pessoas.
O patrimônio do empresário, morto em fevereiro de 2022, é objeto de um inventário avaliado em aproximadamente R$ 16 bilhões.
A investigação identificou documentos com assinaturas atribuídas ao fundador da universidade e a seu procurador, posteriormente consideradas falsas em análises periciais.
O grupo teria utilizado esses papéis para transformar uma negociação imobiliária inexistente em uma cobrança judicial milionária.
Contratos falsos
A acusação envolve a Colonizadora Planalto Paulista, empresa imobiliária sediada na região de Alphaville, na Grande São Paulo.
Segundo a Promotoria, os investigados apresentaram documentos que simulavam uma compra de centenas de imóveis situados em Piraju, município a aproximadamente 300 quilômetros da capital paulista.
Os contratos mencionavam inicialmente 946 matrículas imobiliárias. Posteriormente, o número foi reduzido para 448 nos documentos utilizados para sustentar a suposta dívida.
A negociação teria sido realizada ainda durante a vida de Di Genio. Entretanto, laudos do Instituto de Criminalística identificaram falsificações nas assinaturas atribuídas ao empresário e a seu representante, com indícios de montagem digital e reprodução de traços.
Os documentos fundamentaram uma cobrança inicial de R$ 635 milhões, posteriormente elevada a R$ 845,9 milhões.
Em agosto de 2024, a Colonizadora notificou extrajudicialmente o espólio para exigir o pagamento.
A viúva do empresário, Sandra Rejane Gomes Miessa, responsável pelo inventário, comunicou às autoridades que desconhecia a negociação.
Em manifestação pública divulgada em março, informou ter apresentado as provas disponíveis para investigação.
Arbitragem investigada
A cobrança não ficou restrita às notificações enviadas à família. Segundo o Ministério Público, os acusados recorreram ao Fórum de Negócios e Finanças Internacionais e Nacionais por Arbitragem e Mediação (Fonamsp), entidade privada que teria sido utilizada para conferir aparência de legitimidade aos documentos.
Em janeiro de 2025, a árbitra Aline Cordeiro de Oliveira Boaventura proferiu uma sentença reconhecendo a cobrança contra o espólio. Meses depois, a Colonizadora buscou executar judicialmente a decisão.
A arbitragem é um mecanismo legal de solução privada de conflitos. Entretanto, sua utilização depende da existência de convenção arbitral válida e do respeito a garantias como a participação das partes e o direito de defesa.
No caso Di Genio, a suspeita é de que a instituição tenha conduzido um procedimento baseado em documentos falsificados, sem que existisse a obrigação contratual apresentada pelos cobradores.
Em março de 2026, a 7ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a suspensão da cobrança judicial.
A decisão considerou os indícios de falsificação e o risco de execução de uma dívida cuja origem estava sendo contestada.
A Fonamsp também aparece em outras disputas judiciais. Levantamento publicado pelo Consultor Jurídico identificou dez processos que questionavam decisões da instituição no Tribunal de Justiça paulista.
Em pelo menos quatro situações, sentenças arbitrais foram anuladas por irregularidades como falsificação documental, ausência de acordo válido para arbitragem e problemas na participação das partes.
Prisões decretadas
A decisão mais recente foi assinada pelo juiz Guilherme Eduardo Martins Kellner, da 3ª Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens.
Tiveram as prisões preventivas decretadas Anani Cândido de Lara e Luiz Teixeira da Silva Júnior, ligados à Colonizadora Planalto Paulista, além de Wagner Rossi Silva, Patricia Alejandra Ormart Barreto, Camila Mariana Alejandra Piaggio Nogueira Ormart e Carlos Xavier Lopes, vinculados ao núcleo da Fonamsp.
Outros três denunciados receberam medidas cautelares alternativas. São eles Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira, Rubens Maurício Bolorino e a árbitra Aline Boaventura. A decisão também determinou restrições à atuação de Boaventura em procedimentos arbitrais.
Na fundamentação, o magistrado apontou uma atuação organizada para dar aparência jurídica à cobrança.
A denúncia atribui funções diferentes aos envolvidos, desde a preparação dos supostos contratos até a tramitação do procedimento arbitral.
A investigação levou à realização de uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da Polícia Civil em 31 de março.
Na ocasião, foram expedidos mandados de prisão e busca e apreensão, além de medidas para bloqueio de bens.
Ligação eleitoral
Um dos denunciados, Luiz Teixeira da Silva Júnior, também possui ligação com outro caso de falsificação documental que ganhou repercussão nacional.
Segundo informações divulgadas durante a investigação, ele é responsável pela clínica cujo nome apareceu em um laudo médico falso utilizado pelo influenciador Pablo Marçal durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 2024.
O documento foi apresentado para associar falsamente o então candidato Guilherme Boulos (PSOL) a uma internação por consumo de drogas. A falsidade do laudo foi identificada durante a campanha eleitoral.
A existência dessa ligação não significa que os dois episódios façam parte de um mesmo procedimento criminal.
No caso da herança de Di Genio, a responsabilidade dos denunciados deverá ser examinada individualmente pela Justiça.
Defesa dos acusados
O advogado Guilherme do Amaral Pereira, responsável pela defesa de Wagner Rossi Silva e Aline Boaventura, nega a participação de seus clientes em fraude.
Segundo a defesa, a Fonamsp seguiu as regras legais aplicáveis e utilizou documentos apresentados durante o procedimento.
O advogado afirma que a árbitra não pode ser responsabilizada automaticamente por eventuais irregularidades nos contratos fornecidos à instituição.
Pereira também informou que Boaventura suspendeu os efeitos da sentença arbitral em abril de 2026, após questionamentos sobre a autenticidade das assinaturas.
A defesa destacou que o recebimento da denúncia representa uma etapa inicial do processo criminal e não constitui condenação.
Em manifestações anteriores, a defesa de Luiz Teixeira sustentou que o empresário não participou das negociações imobiliárias contestadas, pois teria ingressado na Colonizadora depois dos fatos investigados.
A Justiça autorizou o compartilhamento de provas com a Ordem dos Advogados do Brasil, o Ministério Público e corregedorias responsáveis pela fiscalização de cartórios.
A medida busca examinar possíveis irregularidades nos atos notariais utilizados para dar suporte à cobrança e identificar outras pessoas eventualmente envolvidas.
Ligações com Marçal
Um dos denunciados na suposta fraude de R$ 845,9 milhões contra a família Di Genio, Luiz Teixeira da Silva Júnior, também esteve envolvido em uma investigação relacionada ao laudo médico falso divulgado por Pablo Marçal (PRTB) contra Guilherme Boulos (PSOL) na eleição municipal de São Paulo, em 2024.
Teixeira era proprietário da clínica Mais Consultas, cujo nome apareceu no documento utilizado pelo então candidato para atribuir falsamente ao adversário uma internação por uso de cocaína.
A relação entre Marçal e Teixeira antecede o episódio eleitoral. O empresário foi paciente do biomédico, realizou procedimentos estéticos com ele e chegou a discutir possíveis investimentos em uma clínica e em uma fazenda.
Um ex-sócio de Teixeira afirmou que os dois estiveram próximos de formalizar uma sociedade, mas o negócio não avançou.
O vínculo também abriu portas no meio político. Em agosto de 2024, Teixeira intermediou um encontro entre Marçal e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no Palácio dos Bandeirantes.
Ele procurou o chefe de gabinete do governador, André Porto, apresentou-se como amigo do então candidato e solicitou a reunião.
Teixeira acompanhou a conversa, durante a qual Tarcísio reafirmou seu apoio à reeleição de Ricardo Nunes (MDB). Aliados do governador negaram que houvesse uma relação de proximidade com o empresário.
O investigado também publicou fotografias ao lado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, do então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e do deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP).
Os registros foram divulgados nas redes sociais de Teixeira. As imagens documentam encontros com as autoridades, mas não demonstram participação delas nos negócios ou nas investigações envolvendo o empresário.
Antes do caso Di Genio, Teixeira já havia sido condenado pela Justiça Federal por falsificação de documento público e uso de documento falso.
Segundo decisão confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em 2021, ele apresentou um diploma de medicina e uma ata de colação de grau falsificados ao Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul, na tentativa de obter registro profissional. A pena privativa de liberdade foi substituída por medidas restritivas de direitos.
No episódio eleitoral de 2024, perícias da Polícia Civil e da Polícia Federal confirmaram a falsidade do laudo divulgado por Marçal.
Teixeira negou ter participado da elaboração do documento, afirmou que nunca atendeu Boulos e sustentou que o nome de sua clínica foi utilizado indevidamente. Seu advogado, Marcelo Marcochi, reiterou essa versão.
O Brasilianista mantém espaço aberto para manifestações dos demais citados e para novos esclarecimentos dos representantes da família Di Genio
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