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Política

Polarização é antiga, mas eleições apertadas são fenômeno recente

Levantamento do O Brasilianista mostra que vencedores abriram mais de 20 pontos em quatro eleições consecutivas entre 1994 e 2006

polarização
Em 2022, Lula venceu Bolsonaro por apenas 1,8 ponto, menor diferença da Nova República Foto: Ian Talmacs/Unsplash

O Brasil chegou ao segundo turno das eleições de 2026 separado por menos de dois pontos percentuais entre os dois candidatos mais votados.

Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva ficou com 45,16%.

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Foram pouco mais de 2,2 milhões de votos de diferença em um eleitorado no qual mais de 125 milhões de votos válidos foram registrados no primeiro turno.

A distância reduzida reforça uma percepção que acompanha as últimas disputas presidenciais, a de um país permanentemente dividido praticamente ao meio. Os dados históricos, porém, mostram uma realidade mais complexa.

Desde a volta das eleições diretas para presidente, em 1989, o Brasil sempre apresentou divisões políticas, territoriais e ideológicas. Isso não significou que as eleições fossem necessariamente equilibradas.

Fernando Henrique Cardoso derrotou Lula duas vezes ainda no primeiro turno. Lula venceu José Serra e Geraldo Alckmin com mais de 60% dos votos válidos. Dilma Rousseff abriu mais de 12 pontos sobre José Serra em 2010.

Até mesmo Jair Bolsonaro, em uma eleição marcada por forte polarização política em 2018, terminou quase dez pontos à frente de Fernando Haddad.

As margens realmente mínimas começaram a aparecer com maior força em 2014 e chegaram ao menor nível da história democrática recente em 2022.

“A polarização é um dado bastante evidente das nossas últimas eleições. Ela tem se acentuado muito, principalmente nas nossas últimas três eleições”, avalia Flavio Pierobon, mestre em Ciência Jurídica, especialista em Direito Constitucional, advogado e docente da Universidade Positivo.

O país separado por menos de dois

Para medir quanto as eleições presidenciais efetivamente foram disputadas, O Brasilianista comparou a porcentagem de votos válidos dos dois candidatos mais votados em todas as eleições diretas desde 1989.

Nos anos em que houve segundo turno, foi considerado o resultado final. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso venceu diretamente na primeira rodada. Para 2026, como o segundo turno ainda não ocorreu, aparece separadamente a diferença registrada na primeira votação.

EleiçãoVencedorSegundo colocadoDiferença
1989Collor — 53,03%Lula — 46,97%6,06 p.p.
1994FHC — 54,28%Lula — 27,04%27,24 p.p.
1998FHC — 53,06%Lula — 31,71%21,35 p.p.
2002Lula — 61,27%Serra — 38,73%22,54 p.p.
2006Lula — 60,83%Alckmin — 39,17%21,66 p.p.
2010Dilma — 56,05%Serra — 43,95%12,10 p.p.
2014Dilma — 51,64%Aécio — 48,36%3,28 p.p.
2018Bolsonaro — 55,13%Haddad — 44,87%10,26 p.p.
2022Lula — 50,90%Bolsonaro — 49,10%1,80 p.p.
2026 – 1º turnoFlávio — 47,03%Lula — 45,16%1,87 p.p.

Os resultados de 1989, 1994 e 1998 estão registrados pela Justiça Eleitoral e por acervos históricos do período. 

A série revela uma mudança nítida. Entre 1994 e 2006, nenhuma eleição presidencial terminou com diferença inferior a 20 pontos percentuais entre vencedor e segundo colocado.

Para Pierobon, a existência de antagonismos políticos precede em muito o atual ciclo eleitoral.

“Essa polarização não é um fenômeno de agora. O Brasil sempre teve vários embates políticos que demonstravam uma grande polarização no país, desde os tempos do Império, passando pela Proclamação da República e pelas disputas posteriores”, contextualiza o constitucionalista.

FHC venceu Lula duas vezes

Se eleição apertada fosse consequência inevitável da polarização entre grandes campos políticos, a década de 1990 deveria apresentar números semelhantes aos atuais.

Não apresenta. A eleição de 1994 começou a estruturar uma disputa que dominaria a política presidencial brasileira por duas décadas, PT contra PSDB.

Fernando Henrique Cardoso recebeu 54,28% dos votos válidos, contra apenas 27,04% de Lula. A diferença foi de 27,24 pontos percentuais, a maior de toda a série analisada.

Quatro anos depois, FHC voltou a vencer no primeiro turno. Recebeu 53,06%, contra 31,71% de Lula e 10,97% de Ciro Gomes. A distância para o petista ainda foi de 21,35 pontos.

Foi a última eleição presidencial brasileira decidida sem segundo turno. Desde 2002, todas exigiram uma segunda votação.

Lula também venceu

A chegada do PT à Presidência não tornou imediatamente as disputas mais equilibradas.

Em 2002, Lula terminou o primeiro turno com 46,44%, enquanto José Serra tinha 23,20%. Na segunda rodada, o petista ampliou ainda mais a vantagem.

Lula recebeu 52.793.364 votos, equivalentes a 61,27% dos válidos. Serra ficou com 38,73%. A distância final foi de 22,54 pontos percentuais.

Em 2006, o resultado foi praticamente uma repetição. Lula terminou com 60,83%, contra 39,17% de Geraldo Alckmin. Foram mais de 20,7 milhões de votos de diferença e uma vantagem de 21,66 pontos percentuais.

Ou seja, durante quatro eleições consecutivas — 1994, 1998, 2002 e 2006 — dois grandes campos disputaram o poder, mas o vencedor terminou pelo menos 20 pontos à frente do principal adversário.

A diferença começa a diminuir com Dilma

Em 2010, a distância caiu, mas ainda permaneceu muito superior aos números observados atualmente.

Dilma Rousseff recebeu 56,05% dos votos válidos, enquanto José Serra terminou com 43,95%. Foram 55,7 milhões contra 43,7 milhões de votos e uma vantagem de 12,10 pontos percentuais.

Quatro anos depois aconteceu a primeira mudança realmente expressiva do padrão. Dilma enfrentou Aécio Neves em uma eleição decidida por 3.459.963 votos.

A presidente recebeu 54.501.118 votos, ou 51,64%, contra 51.041.155 de Aécio, equivalente a 48,36%. A diferença foi de apenas 3,28 pontos percentuais.

Até então, nenhuma eleição presidencial desde 1989 havia terminado com uma margem tão pequena.

A disputa também marcou um momento em que estudos acadêmicos começam a identificar sinais mais claros do crescimento da chamada polarização afetiva, quando a rejeição ao grupo adversário passa a ocupar espaço tão importante quanto a identificação com o próprio campo político.

2018 foi extremamente polarizado

Essa distinção fica ainda mais clara na eleição seguinte. O confronto entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad foi marcado por forte antagonismo político, mobilização digital e rejeição entre campos adversários.

Pesquisadores que analisaram dados de opinião pública entre 2002 e 2018 encontraram justamente em 2018 o aumento mais expressivo da polarização afetiva, especialmente em relação às lideranças políticas.

Nas urnas, porém, a distância não foi pequena. Bolsonaro recebeu 57.797.847 votos, ou 55,13% dos válidos. Haddad terminou com 44,87%. A vantagem foi de 10,26 pontos percentuais.

O resultado mostra por que utilizar apenas a diferença de votos como sinônimo de polarização pode produzir uma conclusão errada.

Uma sociedade pode apresentar forte hostilidade entre grupos políticos e ainda assim produzir uma eleição com vantagem relativamente confortável para um dos lados.

Do mesmo modo, uma votação muito apertada não permite, sozinha, medir quão radicalizadas estão as relações entre os eleitores.

2022 mudou novamente a escala da disputa

A eleição de 2022 levou a competitividade eleitoral a um nível inédito na Nova República.

Lula recebeu 60.345.999 votos, equivalente a 50,90% dos válidos. Jair Bolsonaro obteve 58.206.354, ou 49,10%.

A diferença foi de apenas 2.139.645 votos em um universo de mais de 118 milhões de votos válidos.

Em termos percentuais, apenas 1,8 ponto separou o vencedor do derrotado. Nenhuma eleição presidencial direta desde 1989 havia terminado tão apertada.

Em 1989, Collor havia vencido Lula por 6,06 pontos. Em 2014, Dilma superou Aécio por 3,28.

Em 2022, a distância foi menos de um terço daquela registrada na primeira eleição direta da Nova República.

Redes sociais mudaram

A redução das margens eleitorais ocorreu simultaneamente à transformação da forma como brasileiros consomem e produzem informação política.

Pierobon coloca as redes sociais entre os elementos que ajudam a explicar por que a polarização atual se tornou mais visível no cotidiano.

“Hoje as pessoas fazem questão de tomar partido, de ser de um lado ou de outro. Orgulham-se de dizer ‘sou de direita’ ou ‘sou de esquerda’, mesmo que não tenham muita compreensão sobre o que efetivamente significa estar nesses campos”, observa o professor.

A literatura acadêmica faz uma distinção relevante nesse ponto. Estudo de Mario Fuks e Pedro Henrique Marques concluiu que houve crescimento da polarização brasileira, mas que ela foi predominantemente afetiva e mais intensa em relação aos candidatos do que aos partidos.

Os pesquisadores também encontraram evidências muito mais fortes do fenômeno em 2018 do que nos períodos anteriores.

Outro levantamento que analisou 7,7 milhões de publicações no Facebook entre 2011 e 2019 encontrou oscilações na separação entre redes políticas de esquerda e direita, indicando que a polarização digital aumenta e diminui conforme acontecimentos políticos e momentos de maior tensão.

Isso impede atribuir a divisão brasileira exclusivamente à existência das plataformas.

As redes podem acelerar circulação de discursos, organizar comunidades políticas e aumentar a exposição a conflitos, mas operam sobre divisões que já existiam.

“O fenômeno das redes sociais, dessa comunicação em que cada indivíduo produz o seu conteúdo, é algo que não podemos deixar de considerar porque já vem trazendo mudanças significativas na realidade social e individual”, ressalta Pierobon.

Brasil polarizado existia antes de Bolsonaro

Outro erro histórico seria tratar a polarização política brasileira como um fenômeno criado a partir da ascensão de Jair Bolsonaro.

Entre 1994 e 2014, PT e PSDB ocuparam as duas primeiras posições em seis eleições presidenciais consecutivas.

Durante vinte anos, todos os presidentes eleitos pertenciam a um desses dois partidos. Pierobon vê nesse período uma etapa anterior da bipolaridade eleitoral brasileira.

“Na década de 1990 tivemos uma polarização grande com PSDB e PT, marcada entre esses dois partidos. A polarização é um dado da política brasileira e me parece também um dado da própria realidade social”, recorda o advogado.

A diferença está na intensidade e na natureza dessa divisão. A pesquisa publicada em Estudos Avançados, que analisou todas as eleições presidenciais entre 1989 e 2018 nos 5.570 municípios brasileiros, encontrou padrões significativos de polarização geográfica ao longo de toda a série.

O que se altera nos últimos ciclos é a combinação entre polarização territorial, rejeição afetiva ao adversário, identificação ideológica mais explícita e disputas nacionais progressivamente mais competitivas.

E Pierobon acredita que a transformação tecnológica ainda pode acrescentar uma nova camada a essa dinâmica.

“Com o advento da inteligência artificial, isso provavelmente ficará ainda mais evidenciado”, projeta Flavio Pierobon.

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