O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou que faturava R$ 5 milhões por dia sendo beneficiário final de um fundo ligado às bets.
Trocas de mensagens de Vorcaro com Luiz Rennó, ex-diretor jurídico do banco, interceptadas pela Polícia Federal (PF) e reveladas pelo Valor mostram que o empresário ganhava parte do faturamento da plataforma de apostas Bet.Bet.
Uma série de conversas entre Vorcaro e Rennó revela que o então diretor jurídico do Master organizou uma substituição do beneficiário final do fundo FIP Oracle após o Ministério da Fazenda passar a exigir a identificação de quem estava por trás do veículo de apostas.
Indiretamente, o banqueiro era dono de 30% da casa de apostas por meio da Bet Participações, que tinha como sócio o FIP Oracle. Por sua vez, o fundo era administrado pela Reag, ligada ao Master e liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central.
A ocultação do nome de Vorcaro foi bem sucedida. Documentos apresentados ao Ministério da Fazenda apontaram Adriano Garzon Correa como cotista do Oracle. O homem é um despachante de Nova Lima (MG) e era sócio de Vorcaro em outras empresas.
"Você tem que sumir de lá"
As mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro pela PF, que datam entre setembro e o início de outubro de 2024, mostram Rennó alegando a Vorcaro que ele não poderia aparecer e questiona quem poderia o substituir. “Vc tem que sumir de lá”, diz uma das mensagens.
Ainda em julho de 2024, Vorcaro afirmou que "essa bet nossa" não era ativa quando já faturava milhões por dia. “Bet.bet”, “Nem lancou ainda”, “Ta faturando 5mm por dia.”
Os dois falaram também sobre a mudança da estrutura societária da Oracle motivados pela pressão do governo. “Assunto bet. Aquilo que te falei, vc não pode aparecer e teremos que informar quem é o beneficiário final!”, escreveu Rennó.
O diretor jurídico também questionou se Vorcaro tinha alguma sugestão ou se deveria procurar “alguém de confiança”. O homem ainda disse que seria necessário abrir uma conta em outra instituição, aconselhando Vorcaro a desconsiderar essa possibilidade na Reag ou no Banco Master.
No início de outubro, Rennó tranquilizou o banqueiro sobre essa operação e alegou que "esse negócio vai dar muuuito dinheiro”. Quando Vorcaro respondeu que estava com dúvidas sobre a operação da empresa, o ex-diretor jurídico afirmou: “O negócio vai rodar clean! Jurídico e financeiro nosso! Colocar um cara de confiança! Pode ficar tranquilo! Vc tem que sumir de lá".
Financiamento do projeto
Depois das conversas sobre a mudança societária, Vorcaro e Rennó também discutiram a forma de financiar a participação no negócio.
O profissional jurídico confirmou que o aporte seria realizado via debêntures conversíveis, Informou ter recebido a emissão da debênture uma semana depois da conversa.
Já em novembro de 2024, Rennó perguntou se havia ficado combinado que “o investidor pagaria a outorga e colocaria o restante a partir de janeiro”. Vorcaro questionou se o valor seria R$ 30 milhões, mas o diretor jurídico respondeu que seriam "30+5".
Vale lembrar que R$ 30 milhões é o valor estabelecido pelo governo para a outorga das empresas de apostas. Porém, as mensagens analisadas não confirmam o destino dos outros R$ 5 milhões debatidos.
Uma integralização do capital em R$ 21 milhões também foi pauta de outra conversa entre os dois, em dezembro daquele ano, por meio de uma Cédula de Crédito Bancário (CCB).
Porém, em fevereiro de 2025, as mensagens de Rennó indicam que estariam retirando o investimento da plataforma de bets.
Advogado investigado
O advogado Willer Tomaz de Sousa, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL) e um dos donos do jato de Vorcaro em que o candidato à Presidência viajou, é investigado pela PF por usar operações de apostas para lavar dinheiro.
De janeiro de 2025 a julho de 2026, Tomaz apostou R$ 6,6 bilhões e teve um prejuízo de R$ 188,5 milhões, de acordo com um processo aberto contra a casa de apostas Blaze.
O advogado teria realizado 2.145 depósitos na casa de aposta, totalizando R$ 325 milhões.
Vale lembrar que o homem é investigado ainda pela Operação Sem Desconto, que apura o esquema bilionário de fraudes em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Willer Tomaz também já foi preso no âmbito da Operação Lava Jato após ter sido acusado de envolvimento em esquemas de propina.
Em 2017, o empresário Joesley Batista o denunciou em uma delação premiada por cooptar Ângelo Goulart, então procurador do Ministério Público Federal (MPF), para atuar como infiltrado na Operação Greenfield em troca de suborno pago pela JBS.
Na época, Tomaz chegou a ser preso, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu revogar a prisão preventiva de ambos após entender que não havia mais motivos para mantê-los detidos, uma vez que outros investigados já estavam em liberdade.
Amigo de Flávio Bolsonaro, Tomaz não esconde o trânsito livre e a interlocução privilegiada que cultiva com ministros dos tribunais superiores, especialmente no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
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