Justiça

Operação mira Milton Leite e apura controle do PCC sobre empresas de ônibus em SP

18 dias antes da ação, Tarcísio de Freitas agradeceu Milton Leite e classificou a relação com a família do ex-vereador como uma “parceria enorme” durante ato de campanha

Primeiro Comando da Capital (PCC)
Polícia Civil e Ministério Público cumprem 16 mandados de prisão Foto: creative commons

A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público paulista deflagraram nesta quinta-feira (17) a terceira fase da Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte coletivo e em estruturas do poder público.

Entre os alvos de mandado de prisão está Milton Leite, do União Brasil, ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo e um dos políticos mais influentes da capital nas últimas décadas.

A operação cumpre 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.

A investigação mira o que as autoridades descrevem como controle financeiro ou operacional, direto ou indireto, do PCC sobre 12 empresas de ônibus, além da atuação de advogados, empresários, agentes públicos e pessoas ligadas à política.

Segundo os investigadores, há ainda suspeitas de fraudes sistemáticas em licitações e financiamento de campanhas eleitorais.

As acusações estão em fase de investigação e não representam condenação dos citados.

Tarcísio e Leite

A operação também ganhou repercussão política por causa da proximidade pública recente entre Milton Leite e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição.

Há apenas 18 dias, em 30 de agosto, Tarcísio participou de um evento na zona sul da capital para o lançamento das candidaturas dos filhos do ex-vereador.

Alexandre Leite disputa uma vaga de deputado estadual, enquanto Milton Leite Filho concorre à Câmara dos Deputados.

Durante o ato, Tarcísio agradeceu publicamente à família Leite e destacou a relação construída desde que chegou ao governo paulista.

“Uma parceria enorme”, afirmou o governador ao falar sobre a família.

Segundo o Metrópoles, Tarcísio disse ainda que ele e seus aliados haviam sido “abraçados” pela família quando chegaram a São Paulo e elogiou a atuação política do grupo na região.

O encontro ocorreu pouco mais de duas semanas antes de a Polícia Civil e o Ministério Público paulista deflagrarem a terceira fase da Operação Vectura Corrupta e obterem ordem de prisão contra Milton Leite.

Não há, até o momento, indicação de que Tarcísio seja investigado ou alvo da operação.

Milton Leite

Milton Leite passou 27 anos na Câmara Municipal de São Paulo, onde acumulou sete mandatos e presidiu a Casa em diferentes períodos.

Em 2024, deixou de disputar uma nova eleição, mas permaneceu na direção partidária.

Atualmente, preside o União Brasil na capital e foi escolhido em julho para comandar em São Paulo a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP.

A investigação desta quinta-feira sustenta que Leite teria participação na estrutura empresarial relacionada à Transwolff, concessionária do transporte público paulistano que já havia sido alvo da Operação Fim da Linha em 2024.

Os investigadores o apontam como possível “dono de fato” da companhia. Leite nega essa relação.

Em manifestação ao UOL nesta quinta-feira, o ex-vereador negou as acusações e afirmou que pretende se apresentar às autoridades.

Ele disse que estava no interior de São Paulo por compromissos familiares e políticos relacionados às campanhas de seus filhos e contestou a informação de que estivesse fugindo.

“Não estou foragido”, afirmou Leite ao veículo. Ele também declarou que deverá se apresentar às autoridades e voltou a dizer que sua atuação envolvendo a SPTrans ocorreu dentro de suas atribuições políticas.

Leite sustenta que uma das situações investigadas decorreu de uma interlocução realizada durante uma greve no transporte em 2019, a pedido do então prefeito Bruno Covas, morto em 2021.

Milton Leite negou qualquer relação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) após ser alvo da Operação Vectura Corrupta. Em declaração divulgada pela CBN, o ex-vereador afirmou que “não conhece quem quer que seja do PCC” e disse nunca ter mantido “relação de natureza qualquer” com a facção.

Segundo Leite, sua proximidade com o setor de transporte coletivo de São Paulo sempre foi institucional, decorrente de sua atuação como vice-prefeito da capital.

Ele também afirmou que, durante a gestão de Bruno Covas, foi chamado pelo então prefeito para conduzir negociações relacionadas ao transporte, inclusive em períodos de greve dos sindicatos.

Doze empresas

Uma das frentes mais relevantes da Vectura Corrupta é o tamanho que a Polícia Civil atribui à presença da organização criminosa no transporte.

A investigação identificou 12 empresas que seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC: Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes.

Os investigadores apuram se a estrutura era usada para movimentação de recursos, lavagem de dinheiro, participação coordenada em licitações e sustentação de interesses da facção.

Segundo a investigação, intermediários e laranjas seriam utilizados para permitir que integrantes ligados à organização criminosa exercessem controle sobre empresas sem aparecer formalmente em suas estruturas societárias.

A acusação representa um avanço em relação ao que já havia sido identificado em 2024.

Naquele ano, a Operação Fim da Linha atingiu principalmente Transwolff e UPBus, duas concessionárias que, juntas, transportavam mais de 16 milhões de passageiros por mês.

Somente em 2023, elas receberam mais de R$ 800 milhões da Prefeitura de São Paulo.

Na ocasião, o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco, já alertava que aquelas duas companhias não encerravam a investigação.

“Existem, sim, outras empresas [sobre as quais] já há inquérito policial instaurado pela Polícia Civil, com acompanhamento do Gaeco”, afirmou Gakiya durante entrevista coletiva em 2024.

Elo imobiliário

A relação entre Milton Leite e pessoas ligadas à Transwolff já vinha sendo investigada antes da operação desta semana.

Em novembro de 2024, foram encontrados 71 negócios imobiliários envolvendo a Neumax, construtora da família de Leite, e a LCP Empreendimentos e Participações, empresa da qual Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, foi sócio e administrador.

Pandora é apontado como dono da Transwolff e tornou-se réu na investigação sobre suposta lavagem de dinheiro do PCC.

Os negócios analisados envolviam terrenos de um loteamento em Sorocaba e somavam R$ 8,37 milhões.

Cinco imóveis chegaram a ser bloqueados judicialmente em processo relacionado a Pandora. Leite sempre negou qualquer irregularidade.

“Não há e nunca houve ilegalidade nos negócios da minha empresa”, afirmou em nota reproduzida pelo UOL em 2024.

Naquele período, ele também dizia que sua relação com empresários do transporte era “institucional”, decorrente da atividade política e de sua interlocução com representantes do setor.

SPTrans atingida

Outro nome alcançado pela operação é Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, empresa municipal responsável pelo gerenciamento do transporte coletivo paulistano.

Segundo a investigação divulgada nesta quinta-feira, Oliveira teria mantido encontros periódicos com José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, apontado pelos investigadores como intermediário entre empresários, advogados, pessoas ligadas à política e integrantes da facção.

A polícia apura se essas conversas envolviam interesses das empresas de transporte investigadas, especialmente após a Operação Fim da Linha.

Eleições municipais

A Vectura Corrupta também voltou a aproximar a investigação do processo eleitoral.

Entre os alvos está Danilo Morgado, que disputou a Prefeitura de Praia Grande pelo União Brasil em 2024 e recebeu 30.964 votos. Nesta eleição, ele aparece como candidato a deputado estadual.

A Polícia Civil afirma ter identificado um vínculo considerado relevante entre Morgado e pessoas investigadas como integrantes do PCC.

A hipótese policial é de que sua campanha municipal tenha recebido financiamento da organização criminosa. Essa suspeita ainda precisa ser comprovada judicialmente.

Operação Decúrio

A origem da atual fase está na Operação Decúrio, deflagrada em agosto de 2024. A investigação começou depois da prisão de uma mulher em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, suspeita de guardar aproximadamente 30 quilos de drogas.

A análise das informações encontradas em dispositivos eletrônicos levou a Polícia Civil a mapear uma rede de comunicação e movimentação financeira atribuída ao PCC.

Naquele momento, investigadores identificaram diferentes estruturas internas da facção, entre elas a chamada “Sintonia Restrita”, relacionada a ações violentas, e a “Sintonia dos Gravatas”, formada, segundo a polícia, por advogados que auxiliavam integrantes presos a manter contatos externos.

A Decúrio também identificou o que os investigadores chamaram de “núcleo político”.

Segundo a apuração, integrantes da organização buscavam lançar ou apoiar candidatos nas eleições municipais de 2024.

Dois então candidatos a vereador, um pelo União Brasil em Mogi das Cruzes e outro pelo PSD em Santo André, foram alvos daquela operação.

A Justiça determinou naquele momento o bloqueio de R$ 8,1 bilhões em bens relacionados aos investigados, uma das maiores medidas patrimoniais já adotadas em uma investigação sobre o PCC.

Financiamento político

A terceira fase agora procura entender se a influência econômica sobre empresas de ônibus chegou efetivamente ao financiamento eleitoral.

A investigação sustenta que recursos provenientes de atividades atribuídas à facção teriam sido utilizados em campanhas municipais.

Esse ponto muda a dimensão do caso. Não se trata apenas da suspeita de que empresas legalmente constituídas tenham sido usadas para lavagem de dinheiro, mas da possibilidade de recursos provenientes de atividades criminosas circularem entre concessionárias de serviços públicos, agentes políticos e campanhas eleitorais.

As autoridades ainda terão de demonstrar a origem dos valores, identificar eventuais beneficiários e comprovar se os candidatos conheciam a procedência do dinheiro.

O simples recebimento de uma doação ou a existência de contato com um investigado não comprovam participação em organização criminosa.

Dinheiro público

A presença de empresas suspeitas no transporte também chama atenção pelo volume de recursos públicos envolvido.

Na Operação Fim da Linha, de 2024, a Transwolff tinha 1.111 veículos e transportava aproximadamente 613 mil passageiros por dia. A UPBus possuía 138 ônibus e atendia cerca de 67,8 mil passageiros diariamente.

Somente naquele ano anterior à investigação, as duas haviam recebido mais de R$ 800 milhões da Prefeitura.

Posteriormente, a administração de Ricardo Nunes iniciou procedimentos para romper os contratos.

Em dezembro de 2024, a prefeitura informou que as duas concessionárias permaneciam responsáveis por mais de 650 mil passageiros por dia e que o atendimento seria mantido mesmo durante a intervenção.

O desafio das autoridades era retirar os dirigentes investigados sem paralisar um serviço utilizado diariamente por centenas de milhares de pessoas.

PCC empresarial

Em maio, O Brasilianista mostrou que investigações recentes já não se limitavam ao tráfico de drogas ou à violência praticada nas ruas e nos presídios.

A movimentação de grandes volumes por empresas, contas de terceiros, bancos digitais e estruturas corporativas passou a ocupar parte crescente das investigações.

O advogado e mestre em Direito Welington Dutra explicou ao portal:

“Não se fala mais em drogas, violência, se fala em movimentação de dinheiro mesmo. Movimentação de dinheiro em larga escala, empresas, contas de terceiros, lavagem de dinheiro, movimentação em fintechs, em bancos digitais, circulação financeira que muitas vezes passa por negócios aparentemente legais”, afirmou.

Em julho, O Brasilianista também detalhou a Operação Janus, que mirou operadores financeiros suspeitos de movimentar recursos da facção e integrantes da Polícia Militar investigados por relações com pessoas vinculadas ao grupo.

A Vectura Corrupta acrescenta agora as concessões de transporte público e a política eleitoral a essa sequência de investigações.

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