Em publicação nas redes sociais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (12) que o país já possui controle total do Estreito de Ormuz e que estuda manter esse controle.
Ele ainda alegou que o bloqueio naval está sendo chamado de “muro de aço” contra navios iranianos ou que comercializem em portos do Irã.
“Os EUA têm controle total sobre o Estreito de Ormuz. ACHO QUE VAMOS MANTÊ-LO! Nosso bloqueio naval está sendo chamado por todos de ‘UM MURO DE AÇO’, e não há nada que o Irã possa fazer a respeito”, escreveu Trump na sua rede social, a Truth Social.
Ainda em junho, os EUA e Irã assinaram um acordo para o fim da guerra que previa a liberação total do Estreito de Ormuz da parte dos dois países, que se comprometiam a colocar um fim no bloqueio naval que suas embarcações haviam imposto. Desde então, porém, isso não aconteceu.
Trump sustenta a narrativa de que o regime iraniano está sendo derrotado e de que suas Forças Armadas não possuem mais recursos para combater o Exército americano.
“Eles (Irã) não têm Marinha, não têm Força Aérea, seus soldados restantes não recebem pagamento, a Guarda Revolucionária Islâmica está dizimada e em fuga. E sua ‘liderança’ é incerta, na melhor das hipóteses. Eles não têm dinheiro — seu país está acabado. Tudo o que eles têm são notícias falsas e inflação de 300% — e piorando! O Irã só fala e não age. Não é mais o valentão do Oriente Médio”, escreveu na postagem.
Apesar dos EUA possuírem uma enorme superioridade militar na região e uma capacidade muito significativa de controlar o tráfego marítimo e do Estreito de Ormuz, o professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), José Renato Ferraz da Silveira, reforça que há uma diferença importante entre ter superioridade militar e afirmar que se possui controle absoluto e permanente sobre uma passagem marítima dessa importância.
Os efeitos de um possível bloqueio dos EUA no Estreito
Segundo o especialista, a primeira consequência é econômica. O estreito de Ormuz continua a ser um dos principais pontos de estrangulamento da economia mundial. Historicamente, uma parcela muito significativa de petróleo é transportado por essa via marítima e mais 20% do comércio mundial de gás natural que é feito passam por essa região.
Portanto, qualquer dúvida sobre a liberdade na navegação afeta preços de energia, seguros marítimos, fretes e expectativas de mercados. Isso acaba chegando às economias de países que estão muito distantes do Oriente Médio.
Uma segunda consequência que é geopolítica. Se os Estados Unidos transformarem uma situação militar excepcional em um controle prolongado do estreito, haverá uma discussão muito mais ampla sobre liberdade de navegação direito internacional e sobre até onde uma potência pode exercer unilateralmente controle de sobre uma rota fundamental para o comércio internacional.
“Quanto à afirmação de que o Irã já não teria a capacidade de reagir, não me parece correto concluir que o Irã simplesmente perdeu toda a capacidade de contra-ataque. As forças iranianas sofreram perdas importantes e a superioridade convencional norte-americana é muito grande. Mas a capacidade de retaliação não significa necessariamente enfrentar a marinha e a força aérea dos Estados Unidos de maneira simétrica”, avalia Silveira.
O professor explica que o Irã, historicamente, trabalha também com capacidades assimétricas, mísseis, drones, minas navais, ataque contra instalações e bases na região e outras formas de pressão. Portanto, dizer que o país pérsico tem dificuldade para desafiar diretamente a superioridade militar americana seria o mais adequado.
Como resolver a situação do Estreito?
O cenário menos arriscado para a comunidade internacional na visão do especialista seria uma solução negociada que restabelecesse de maneira estável a liberdade de navegação pelo estreito de Ormuz, acompanhada de mecanismos de segurança e de redução das tensões.
“O problema de prolongar indefinidamente uma situação de bloqueio é que ela pode produzir até vantagem militar no curto prazo, mas também aumenta os riscos de incidente, erro de cálculo e escalada. Então, eu diria que a questão central não é simplesmente perguntar quem controla Ormuz hoje. A pergunta mais importante é como transformar uma situação de superioridade militar momentânea em uma arquitetura minimamente estável de segurança regional. Porque Ormuz não é apenas uma questão entre Estados Unidos e Irã. É uma artéria da economia mundial”, explica.
Por esse motivo, ele comenta que quanto menor a margem para aventuras militares e quanto maior o espaço para negociação diplomática, menor seria o risco para todos.

