Economia

A reação de Lula que mudou o debate sobre bets nas redes

Relatório do Instituto DX identificou 654,8 mil publicações e 9,3 milhões de interações sobre possíveis restrições às apostas

presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Manifesto do futebol provocou o maior pico de mobilização Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A discussão sobre uma possível medida provisória para restringir as bets ultrapassou o debate regulatório e se transformou em uma das maiores mobilizações políticas recentes nas redes sociais.

Entre 14 e 21 de setembro, conteúdos relacionados ao tema somaram 654,8 mil publicações e 9,3 milhões de interações, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX).

O maior pico ocorreu em 18 de setembro, depois que clubes e entidades do futebol divulgaram um manifesto contra possíveis restrições ao setor.

Naquele momento, o volume chegou a 34,3 mil publicações por hora. O relatório aponta que a repercussão perdeu força nos dias seguintes, mas ainda registrava até 2,8 mil posts por hora na manhã do dia 21.

O estudo analisou conteúdos publicados no Facebook, Instagram, YouTube, X e TikTok, além de informações coletadas pela ferramenta Talkwalker.

A base monitorada pelo DX reúne mais de 19 mil perfis, entre políticos, influenciadores e veículos de comunicação.

Clubes provocaram o pico

O manifesto das equipes de futebol foi o principal responsável pelo aumento no volume de publicações. Esse eixo representou 32% dos posts no recorte político detalhado pelo instituto.

Clubes como Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Palmeiras, Santos e São Paulo se posicionaram contra uma eventual proibição.

As entidades argumentaram que o mercado regulamentado se tornou uma fonte importante de receitas para o esporte e defenderam fiscalização e proteção aos consumidores no lugar de um veto.

A reação dos torcedores, porém, tornou-se outro eixo da discussão. O DX classificou como “Torcedor Paga a Conta” as publicações que criticavam as diretorias, questionavam a dependência financeira das equipes e associavam o posicionamento dos clubes à defesa de interesses econômicos.

Esse grupo correspondeu a 23% das publicações e 19% das interações do recorte analisado.

O instituto encontrou nos comentários acusações de ganância, cobranças por responsabilidade social e manifestações de torcedores favoráveis a boicotes.

Uma publicação de Lula muda o alcance

Em volume de conteúdo, a manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve participação pequena. Em engajamento, ocorreu o contrário.

O eixo denominado pelo DX “Bet Não É Futebol” reuniu apenas 16 publicações, equivalentes a 6% do recorte, mas concentrou 3,15 milhões de interações, 53% de todo o engajamento observado nessa parte do estudo. Quase todo esse resultado veio de uma única publicação do presidente.

Lula respondeu ao argumento de que restrições poderiam prejudicar o futebol lembrando títulos conquistados por clubes e pela seleção antes da expansão das casas de apostas.

“Bet não é futebol”, escreveu o presidente, associando o setor a vício, endividamento e sofrimento de famílias.

A declaração também veio acompanhada de uma defesa mais ampla de novas restrições.

Lula afirmou publicamente que, se dependesse de sua vontade, acabaria com as bets. O formato da medida, entretanto, ainda está em discussão dentro do governo.

Esquerda no recorte político

Em uma análise específica de 261 publicações de perfis políticos e da imprensa, que juntas geraram 5,9 milhões de interações, o DX classificou 66% das postagens como provenientes da esquerda, 20% da extrema-direita e 15% da imprensa, diferenças decorrentes de arredondamento levam a soma a ultrapassar 100%.

Nos dados de engajamento, os perfis classificados pelo instituto como de esquerda responderam por 90% das interações, contra 6% da extrema-direita e 4% da imprensa.

PT e Psol registraram, respectivamente, 475 e 177 publicações no universo mais amplo de conteúdos partidários monitorados.

A distribuição não foi igual em todos os assuntos. No eixo sobre endividamento das famílias, 71% das publicações foram atribuídas à esquerda.

Na discussão sobre torcedores arcando com os efeitos do modelo, a participação chegou a 77%.

Já o debate sobre a relação das apostas com PIB, arrecadação e economia foi o único dominado pela categoria classificada pelo DX como extrema-direita, com 72% das postagens daquele grupo temático.

Esse último eixo, porém, teve circulação mais limitada, representou 7% dos posts e apenas 1% das interações.

Endividamento

Além da disputa em torno do futebol, o impacto das apostas sobre a renda das famílias aparece como uma das discussões mais constantes.

O eixo “Endividamento das Famílias” também respondeu por 32% das publicações, mas teve comportamento diferente do manifesto dos clubes.

Enquanto a reação do futebol provocou um pico concentrado, conteúdos sobre dívida, dependência e saúde mental permaneceram distribuídos ao longo dos dias seguintes.

No total, esse grupo reuniu 83 publicações no recorte detalhado e pouco mais de 1 milhão de interações.

O DX afirma que a proteção da renda familiar se consolidou como um dos principais argumentos utilizados por defensores de regras mais rígidas.

O que pode entrar na MP

O governo ainda não divulgou a versão final da medida provisória. Entre as possibilidades discutidas estão restrições adicionais à publicidade, proibição de jogos de cassino online, como modalidades semelhantes ao chamado Tigrinho, ou medidas mais abrangentes contra apostas digitais.

Segundo a Reuters, uma das propostas avaliadas preservaria as apostas esportivas e os patrocínios de clubes, mas proibiria cassinos online.

O setor argumenta que uma restrição desse tamanho reduziria receitas, poderia provocar judicialização e afetaria contratos esportivos, enquanto defensores do endurecimento das normas apontam os efeitos do vício e do endividamento.

O relatório do DX foi concluído antes da definição do texto e apontava a possibilidade de uma nova onda de discussão quando o governo apresentasse os termos concretos da proposta. 

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