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Geopolítica

O apoio de Milei ao clã Bolsonaro

Flávio fugiu do Brasil com ajuda de empresa ligada à aliados do presidente argentino

Milei e Flávio Bolsonaro
O apoio do presidente argentino ocorre desde o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (Foto: Redes sociais/ Fotos Públicas)

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina às 22h50 de terça-feira (27), acompanhado da esposa e filhas. O avião que transportou o candidato derrotado à presidência da República é de uma empresa investigada por corrupção no governo de Javier Milei, presidente argentino.

O Brasilianista foi o primeiro veículo brasileiro a confirmar a fuga de Flávio Bolsonaro, em 27 de outubro.

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O jato particular que realizou o traslado da Argentina aos Estados Unidos é da empresa argentina Baires Fly, acusada por lavagem de dinheiro que seria destinado à compra de medicamentos para pessoas com deficiência. Aliados de Milei, incluindo sua irmã, Karina Milei, são investigados pelo caso.

Em entrevista ao UOL News, o deputado argentino Esteban Paulón (Partido Socialista) destacou que Sergio Mastropietro é um dos sócios da empresa de aviação. O empresário é investigado pelo desvio de verba da Agência Nacional de Deficiência (Andis) e suspeito de ser o principal articulador do esquema dentro da Baires Fly.

De acordo com a declaração do deputado, Mastropietro também possui vínculos com Alfredo Machado, condenado nos EUA por lavagem de dinheiro e narcotráfico além de ser próximo de José Luiz Espert, investigado por receber dinheiro de um empresário ligado ao narcotráfico. Todos os empresários são próximos à Milei, segundo Paulón.

O próprio presidente da Argentina já utilizou um jato da Baires Fly, do empresário Luis Grande, para sua primeira viagem internacional para os EUA. Na ocasião, o voo era financiado pelo empresáio Gerardo Werthein, nomeado pouco tempo depois como embaixador da Argentina em Washington.

No entanto, essa não é a única relação de Milei com o clã Bolsonaro. O apoio do presidente argentino ocorre desde o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Milei e os Bolsonaro

Javier Milei e Jair Bolsonaro compartilham posições políticas associadas à direita, ao liberalismo econômico e à oposição à esquerda latino-americana. O ex-presidente brasileiro apoiou o argentino nas eleições do país vizinho e construíram uma sólida relação.

O início

Os primeiros contatos documentados entre Milei e a família Bolsonaro passaram por Eduardo Bolsonaro. Em setembro de 2021, os dois conversaram por videoconferência. Em 2022, Milei participou de um evento conservador em São Paulo ao lado de Eduardo e do chileno José Antonio Kast, com discursos centrados no combate ao socialismo. Eduardo também viajou a Buenos Aires durante a campanha presidencial argentina de 2023.

O presidente argentino eleito em 2023 demonstrou simpatia pelo ex-presidente brasileiro e por seu grupo político, mesmo em meio ao desgaste das relações entre Buenos Aires e o governo Lula.

Em 7 de julho de 2024, Milei fez sua primeira visita ao Brasil como presidente para participar da CPAC Brasil, conferência conservadora realizada em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, organizada em torno de lideranças da direita e do bolsonarismo.

Na ocasião, Milei preferiu comparecer ao evento de Bolsonaro e não à cúpula presidencial do Mercosul, realizada no Paraguai no dia seguinte, onde poderia ter encontrado Lula. A decisão foi interpretada como um sinal de preferência política pelo ex-presidente brasileiro em detrimento de uma aproximação pessoal com o presidente em exercício.

A viagem ocorreu em meio a uma crise verbal entre Milei e Lula. O argentino havia chamado o presidente brasileiro de corrupto e comunista, enquanto Lula cobrava um pedido de desculpas. Os dois ainda não haviam realizado uma reunião bilateral desde a posse de Milei.

Apoio ao 8 de janeiro

A aliança forte se manteve até mesmo após os ataques de 8 de janeiro. Milei acusou sem provas na época que o evento teria sido organizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em agosto de 2025, a Polícia Federal informou ter encontrado no celular de Jair Bolsonaro um arquivo com um pedido de asilo político dirigido a Milei. O documento, segundo a PF, havia sido salvo em fevereiro de 2024, dois dias depois de uma operação que determinou a apreensão do passaporte do ex-presidente.

O texto alegava perseguição política e solicitava proteção na Argentina. A PF interpretou o arquivo como um indício de que Bolsonaro havia considerado deixar o Brasil para evitar consequências judiciais. Porém, a existência do documento não comprova que ele tenha sido enviado a Milei, que o argentino tenha aceitado o pedido ou que tenha existido um acordo entre os dois presidentes.

Apoio à Flávio

A relação ganhou uma nova dimensão em 2026, ano eleitoral no Brasil. Além de manter a proximidade com a família Bolsonaro, Milei passou a atuar publicamente em favor do projeto eleitoral do senador Flávio Bolsonaro, primogênito do ex-presidente.

Em janeiro, o argentino afirmou, em entrevista à CNN em Espanhol, que preferia “uma solução com os Bolsonaro” para a eleição brasileira. Na mesma ocasião, ressaltou que a escolha caberia aos brasileiros, mas declarou que considerava a família amiga. 

Em julho, Milei viajou novamente ao Brasil para participar de um evento do PL e respaldar a candidatura presidencial de Flávio. A visita estava prevista para incluir um encontro com Jair Bolsonaro, que cumpria prisão domiciliar, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) não autorizou a visita.

Durante a passagem pelo Brasil, Milei atacou Lula e seu governo e apresentou Flávio como alternativa política. A crise diplomática se aprofundou: logo depois da visita, o Brasil chamou de volta seu embaixador em Buenos Aires e rebaixou a relação entre os países.

A crise entre Argentina e Brasil

A Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil. As exportações de produtos brasileiros costumam ser maiores do que as importações, mas a corrente de comércio anual costuma alcançar, em média, US$ 30 bilhões.

O que Javier Milei busca com esse confronto contínuo é apaziguar sua relação com Washington e isolar politicamente o Brasil, conforme afirmou o cientista político Hernán Maurette a esta reportagem de O Brasilianista.

Além disso, nunca houve um momento pior do que este para os países vizinhos. Já existiram momentos de tensão em que ambos os governos sempre tentaram resolver. A diferença agora é a falta de vontade de alinhar os problemas.

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