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Justiça

Ipiranga, BR Distribuidora e Refit são citadas em investigação sobre a Máfia dos Combustíveis

Distribuidoras de combustível têm histórico de investigações no Ministério Público, nas Polícias Civis, na Polícia Federal e no Cade

CNJ afasta desembargador do TJRJ por decisões favoráveis à Refit
Refit é investigada por ter conseguido blidagem do governo do Rio de Janeiro em esquema de sonegação e importação ilegal (Foto: Refit)
A investigação da Polícia Federal (PF) sobre a Máfia dos Combustíveis no Rio de Janeiro esbarrou em menções diretas à BR Distribuidora (atual Vibra Energia), à Ipiranga e à Refit.
 
As menções foram descobertas em conversas mantidas entre José Carlos Alves de Souza Júnior (conhecido como "Júnior" ou "Careca") e Pablo Jukiá Felix Ferreira ("Pablo Russo").
 
Júnior e Ferreira são considerados pela PF como operadores centrais do núcleo econômico-financeiro da organização criminosa liderada por Márcio Canella, prefeito de Belford Roxo eleito deputado estadual recentemente.
 
Mensagens trocadas  por Júnior e Ferreira em 23 de março de 2026 revelam que o grupo controlava diretamente 43 postos de gasolina da bandeira BR Distribuidora.
 
Embora os estabelecimentos estivessem formalmente registrados em nome de interpostas pessoas ("laranjas") — como Luana Oliveira e Luisi Corrêa Pinho —, o controle factual e financeiro era exercido por Júnior e Pablo Russo.
 
Nas conversas, José Carlos reclama da limitação das cotas de combustíveis liberadas pelas distribuidoras e apresenta uma planilha detalhando os volumes recebidos da Ipiranga,Refit, BR e Minuano.

Em áudio enviado a Pablo Russo, o investigado admite abertamente atuar à margem das regras contratuais e regulatórias:

"Eu errei tá, a Ipiranga liberou 320 de gasolina, tá. A Refit tinha liberado 200, só que a Ipiranga tá mais barata. Por isso eu peguei só isso aí, entendeu (...) Se eu fosse o santinho, eu tava com os postos tudo seco, falido."
Segundo a Polícia Federal, o reconhecimento explícito de que a operação dos postos "faliria" caso respeitasse estritamente as cotas e regras de fornecimento constitui forte indício de que o abastecimento da rede era complementado por vias irregulares ou ilegais. 

Vazamento de fiscalizações

Saiba quem é Márcio Canella, candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro
Márcio Canella é apontado pela PF como líder da organização criminosa (Foto: Reprodução)
A relação com a bandeira BR Distribuidora também aparece em episódios de corrupção passiva, ativa e violação de sigilo funcional envolvendo órgãos de fiscalização.

Em 9 de abril de 2026, o advogado Diogo Pacheco do Couto repassou a Pablo Russo informações privilegiadas obtidas com fiscais do Procon-RJ sobre uma operação de aferição de bombas que seria realizada no "Posto BR da Raul Veiga".
 
O alerta antecipado permitia ao grupo liderado por Márcio Canella evitar autuações por fraude em quantidade ("bomba baixa") ou qualidade de combustível.

Refit

Quem é Ricardo Magro e por que o dono da Refit entrou na mira da Polícia Federal
Ricardo Magro é o dono da Refit (Foto: Reprodução)
As distribuidoras citadas na investigação têm histórico com as autoridades. A Refit, por exemplo, é investigada pela PF por ter recebido ajuda de integrantes do governo e do Judiciário do Rio de Janeiro para burlar determinações da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
 
Em abril de 2024, a Secretaria de Fazenda do Estado (Sefaz-RJ), então chefiada por Juliano Pasqual, concedeu registros a empresas do grupo do empresário Ricardo Magro mesmo sem a homologação prévia da agência reguladora.
 
Segundo a PF, Pasqual teria sido nomeado pelo ex-governador Cláudio Castro justamente para favorecer os negócios de Magro, com a intermediação de Álvaro Barcha, que operava como ponte entre o grupo e a secretaria.

A cooperação ilícita visava contornar sanções aplicadas após a constatação de fraudes no setor de distribuição e refino. A Refit declarava o processamento diário de até 2,4 mil m³ de petróleo, afirmando que importava o insumo e o refinava no país.
 
Contudo, vistorias realizadas em setembro de 2025 revelaram que o maquinário da refinaria estava desligado e inativo. Ficou comprovado que a empresa importava combustíveis já refinados e simulava o processo fabril para ocultar a comercialização de produtos de origem irregular.

Essas irregularidades culminaram na Operação Cadeia de Carbono, deflagrada pela ANP e pela Receita Federal, que resultou na apreensão de mais de 80 milhões de litros de óleo bruto e hidrocarbonetos, interditando totalmente a refinaria.
 
Para tentar reverter as punições, a organização de Ricardo Magro pressionou uma diretora da ANP alegando perseguição comercial. O esquema contava ainda com o suporte de dois escrivães da Polícia Federal lotados em Nova Iguaçu, responsáveis por vazar informações privilegiadas ao grupo.

Máfia da Nafta

Gasolina a R$ 9 em SP? Qual a relação do preço dos combustíveis com a privatização da BR Distribuidora?
Petrobras era dona da BR Distribuidora, assim como é da Riograndense (Foto: Petrobras)
A Refinaria Riograndense, joint venture formada por Petrobras, Braskem e Ultrapar, é investigada pelo Ministério Público de São Paulo na chamada “Máfia da Nafta” por supostas ligações com o PCC.
 
A BR Distribuidora, assim como a Riograndense, pertenceu à Petrobras antes de ser vendida e renomeada como Vibra Energia. A refinaria é apontada como principal fornecedora de nafta para a Petrodansk por ter emitido 3.444 notas fiscais para a companhia, totalizando R$ 586 milhões.

Em sua defesa, a Riograndense afirmou ter bloqueado a Petrodansk em outubro de 2024, encerrando qualquer fornecimento e assegurando que, no período das vendas, a compradora possuía todas as licenças operacionais em vigor.
 
Já a Petrobras declarou que a refinaria opera com gestão autônoma e sem ingerência direta da estatal, ressaltando ainda que não é alvo de medidas do Ministério Público e não foi notificada no âmbito da investigação.

Outras investigações

Ipiranga já respondeu a processos por cartel (Foto: Ipiranga)
A Ipiranga e a BR Distribuidora (atual Vibra Energia) já foram alvo de investigações, denúncias e condenações no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no Ministério Público Federal e em órgãos estaduais por formação de cartel, fixação de preços e controle de mercado.

Em abril de 2019, o Cade condenou as duas empresas por influenciar a conduta comercial de postos na Região Metropolitana de Belo Horizonte entre 2006 e 2008, impondo a uniformização dos preços nas bombas e aplicando multas milionárias aos envolvidos.

Em maio de 2021, o órgão concorrencial voltou a punir a Ipiranga, desta vez com uma multa de R$ 8,18 milhões, após apurações do Ministério Público de Santa Catarina comprovarem o alinhamento forçado de preços no mercado de Joinville. A empresa recorreu da decisão.

No Paraná, a Operação Margem Controlada revelou um esquema em que as distribuidoras fixavam artificialmente as margens de lucro do varejo. O material foi usado num processo administrativo no Cade que apurou o controle de preços e a divisão de mercado pelas companhias.

A apuração sobre a atuação das distribuidoras alcançou também o Distrito Federal durante a Operação Dublê. Investigações apontaram que executivos da Ipiranga e da BR Distribuidora repassavam valores combinados aos revendedores locais para impor uma tabela fixa na capital federal, o que resultou no indiciamento de gestores.

Além do alinhamento direto de preços, as duas empresas também enfrentam representações por cartelização velada e fechamento de mercado. Associações de postos independentes acusam Ipiranga e BR Distribuidora de impor barreiras contratuais e multas rescisórias abusivas para dificultar a concorrência no setor.
 
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.
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