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Opinião

O voto de 4 de outubro decide mais que os próximos quatro anos

No próximo domingo, 4 de outubro, você escolherá mais que candidatos. Você escolherá uma visão de Estado

Urna eletrônica
O voto de cada empregado pode ajudar a manter sua carreira ou apoiar o projeto político que pretende eliminá-la (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

**Texto por Luís Kolle

De um lado, existe o projeto de um país com instituições democráticas, empresas públicas estruturadas, engenharia valorizada e serviços essenciais planejados para atender à população.

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Do outro, avança uma visão que trata empresas públicas como ativos à venda, servidores como custo e decisões técnicas como obstáculos ao mercado.

Essa escolha atinge a mobilidade, a água, a energia, a saúde, a pesquisa, a infraestrutura e a segurança nacional.

Como engenheiro de uma empresa pública estadual, diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo, o SEESP, e integrante da Engenharia pela Democracia, a EngD, tenho uma posição clara: voto responsável exige defesa firme da democracia e rejeição a qualquer tentativa de golpe de Estado.

A democracia não termina no dia da eleição. Ela depende do respeito ao resultado das urnas, à Constituição e às instituições responsáveis por investigar, julgar e punir crimes contra o Estado Democrático e de Direito.

O Brasil viveu uma tentativa concreta de ruptura institucional. A articulação ligada à extrema direita brasileira culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, com a invasão e a depredação do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Os crimes foram julgados. Jair Bolsonaro, ex-presidente e principal liderança do movimento golpista, foi preso.

Esse fato precisa entrar na decisão de cada eleitor.

Alianças internacionais de grupos extremistas ampliam o risco. A tentativa de transformar decisões do Supremo Tribunal Federal em motivo para sanções, tarifas e pressão diplomática mostra que a soberania brasileira também sofre ataques externos. A carta de parlamentares dos Estados Unidos criticou possíveis ações de interferência sobre o processo político brasileiro.  

Nenhum governo estrangeiro deve escolher nossos governantes, questionar nossas urnas para favorecer aliados ou pressionar instituições brasileiras para proteger condenados.

Defender a democracia exige rejeitar o golpismo, venha de dentro ou de fora do país.

Engenharia pública sustenta decisões estratégicas

A escolha eleitoral também envolve o futuro da engenharia brasileira.

Empresas públicas acumulam conhecimento técnico ao longo de décadas. Esse conhecimento aparece nos projetos, nos procedimentos, nas normas, na manutenção e na capacidade de responder a emergências.

Parte dele não está em manuais. Está na experiência de quem conhece os equipamentos, os sistemas e os riscos do serviço.

Quando uma empresa pública perde seus engenheiros, perde capacidade de planejamento, fiscalização e decisão. A substituição desses profissionais por estruturas fragmentadas aumenta a dependência de consultorias, fornecedores e concessionárias.

Engenharia precisa ser tratada como carreira de Estado em setores essenciais. Água, saneamento, transporte, energia, comunicação, defesa e infraestrutura digital exigem continuidade técnica. O governo muda. A responsabilidade sobre esses sistemas permanece.

A experiência da Sabesp mostra o tamanho do risco. A privatização alterou o controle da companhia e atingiu a estrutura de uma empresa que acumulou conhecimento sobre abastecimento, tratamento de água, coleta e tratamento de esgoto em todo o Estado de São Paulo.

A questão não envolve uma troca simples de gestão. Envolve o destino de equipes, projetos, padrões técnicos, planejamento de longo prazo e capacidade pública de fiscalizar um serviço essencial.

No Metrô e na CPTM, o risco ganha outra forma.

As concessões transferem linhas e operações para empresas privadas, mas o conhecimento acumulado continua indispensável. A crise envolvendo as linhas 11, 12 e 13 mostrou o que acontece quando uma transição acelera sem preservar rotinas, equipes, sistemas e responsabilidades. A CPTM precisou retomar a operação em caráter emergencial, apoiando-se em trabalhadores que conheciam aquelas linhas, mas encontraram um ambiente operacional reorganizado pela concessionária.  

Esse arranjo gera risco técnico. Sistemas ferroviários dependem da integração entre operação, manutenção, sinalização, controle, comunicação e resposta a emergências. A troca apressada de equipes e procedimentos afeta a segurança dos trabalhadores e dos passageiros.

As linhas 8 e 9 também expuseram problemas depois da concessão. Falhas, interrupções e dificuldades operacionais alimentaram uma discussão que não se resolve com propaganda. Serviço público exige fiscalização, investimento, transparência e responsabilidade definida.

A engenharia pública precisa continuar existindo para planejar, fiscalizar e operar sistemas complexos. Sem ela, o Estado perde memória técnica e passa a depender de quem recebe o contrato.

Engenheiro não é analista de engenharia

Existe outro problema que precisa ser enfrentado.

Empresas públicas e concessionárias têm usado denominações que diminuem a responsabilidade e o valor profissional dos engenheiros. Engenheiro não é analista de engenharia.

O engenheiro possui formação específica, atribuições profissionais definidas e responsabilidade técnica regulamentada. Seu trabalho envolve projeto, cálculo, avaliação de risco, supervisão, direção, fiscalização e decisão técnica.

Trocar o nome do cargo não reduz a complexidade da atividade. Reduz o reconhecimento profissional e abre espaço para salários menores, menor autonomia e maior precarização.

Aos engenheiros formados que trabalham em empresas concessionárias, faço um chamado direto: escolham candidatos que valorizem a profissão, respeitem as atribuições legais e reconheçam a importância dos engenheiros na operação e na manutenção dos serviços.

A escolha também envolve seus empregos.

É inadmissível que alguém trabalhe no Metrô ou na CPTM, dependa da existência dessas empresas e vote em candidatos que defendem o desmonte da engenharia pública, a venda de ativos estratégicos e a substituição de equipes permanentes por estruturas precárias.

Essa contradição atinge o próprio trabalhador. O voto de cada empregado pode ajudar a manter sua carreira ou apoiar o projeto político que pretende eliminá-la.

O mesmo vale para quem trabalha em empresas concessionárias. A concessão não elimina a necessidade de engenharia. Ela cria uma nova relação de trabalho, muitas vezes com menos estabilidade, menor autonomia e pressão maior por resultado financeiro.

Quem tem formação em engenharia precisa reconhecer seu próprio valor e defender políticas que garantam responsabilidade técnica, remuneração compatível, treinamento permanente e respeito às atribuições profissionais.

Para defender esta posição, faça uso da estrutura sindical e participe. O sindicato não é apenas a diretoria. O sindicato somos todos nós juntos.

Transporte público não é negócio isolado

O transporte sobre trilhos atende milhões de pessoas todos os dias.

Ele reduz o tempo de deslocamento, aproxima trabalhadores de seus empregos, conecta bairros a serviços públicos e diminui a dependência do automóvel.

Quando o Estado trata uma linha como simples ativo comercial, ignora sua função social.

O planejamento precisa considerar regularidade, segurança, tarifa, integração, acessibilidade, expansão, manutenção e atendimento aos passageiros. O retorno financeiro da concessionária não substitui esses critérios.

Ultimamente a interrupção de projetos de integração modal e a perda de espaço para uma visão social do transporte tem sido substituídos pelo valor do lucro do retorno de investimento. Mas temos que tratar esse ponto, o resumo problema: o passageiro reclama do serviço, mas muitas vezes apoia políticos que retiram dos profissionais as condições para melhorá-lo.  

A eleição define quem terá força para preservar ou desmontar essa capacidade.

Escolha com memória e responsabilidade

Longe de colocar a culpa em alguém. Este texto é para abrir os olhos das pessoas. De fazer refletir e dizer que somos responsáveis por nossas escolhas.

Antes de votar, examine o histórico dos candidatos.

Verifique como cada um trata:

• A Constituição e o resultado das eleições.

• A tentativa de golpe de 2023.

• A autonomia das instituições brasileiras.

• As empresas públicas estratégicas.

• A engenharia como carreira de Estado.

• Os profissionais do Metrô, da CPTM, da Sabesp e de outras companhias públicas.

• A concessão de serviços essenciais.

• A valorização dos engenheiros nas empresas privadas.

• A qualidade e a segurança do transporte público.

A eleição não se resume a slogans. Ela define quem terá poder para vender, conceder, extinguir cargos, alterar carreiras, desmontar equipes e transferir decisões públicas para empresas privadas.

Também define quem terá responsabilidade por proteger a democracia contra novas tentativas de ruptura.

O voto precisa reconhecer duas ameaças que caminham juntas: o ataque às instituições democráticas e o desmonte da capacidade técnica do Estado.

A defesa da democracia exige rejeitar candidatos ligados ao golpismo. A defesa da engenharia exige rejeitar projetos que tratam empresas públicas, trabalhadores e conhecimento técnico como despesas descartáveis.

No dia 4 de outubro, escolha pessoas que respeitem as urnas, defendam a Constituição, valorizem a engenharia e mantenham sob controle público os serviços essenciais.

Quem trabalha na Sabesp, no Metrô, na CPTM e nas concessionárias precisa olhar para o próprio futuro profissional.

Quem depende desses serviços precisa olhar para a qualidade que receberá.

Quem acredita na democracia precisa lembrar o que ocorreu em 8 de janeiro de 2023.

O voto decide quem continuará ajudando a construir o serviço público e quem trabalhará para desmontá-lo.

A democracia precisa de engenheiros. A engenharia pública precisa da democracia.

Luís Kolle é engenheiro eletricista graduado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e atua como engenheiro metroferroviário há quase 25 anos. É diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP) e da organização Engenharia pela Democracia (EngD).

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