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Geopolítica

Lula não poderá usar reversão do tarifaço como trunfo em possível segundo turno

A negociação das equipes comerciais do Brasil e EUA devem acontecer apenas a partir de novembro

Lula
Márcio Elias Rosa afirmou que os EUA estão comprometidos em iniciar nova negociação, mas sem prazo (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

As conversas do Brasil com os Estados Unidos sobre as novas tarifas comerciais impostas pelo governo de Donald Trump começaram nesta semana.

Na última quarta-feira (29) o ministro Márcio Elias Rosa, da pasta de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, retomou o diálogo com o representante comercial de Donald Trump, Jamieson Greer. 

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Ao Uol, Elias afirmou que os EUA estão comprometidos em iniciar nova negociação, mas o envio do documento que especificará as demandas americanas sobre setores específicos deve ser feito provavelmente no início de novembro.

Ou seja, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não poderá usar, dessa vez, seu trunfo contra Trump como estratégia eleitoral, visto que a negociação deve ocorrer após o segundo turno das eleições.

A reunião também contou com o chanceler brasileiro Mauro Vieira e aconteceu às margens da reunião ministerial do G-20, em Milwaukee, Wisconsin.

Dessa vez, os EUA tentam aplicar medidas que podem cobrar taxas de até 37,5% aos produtos brasileiros que chegam no país estrangeiro. Uma tarifa de 25% foi aplicada com base no argumento de que o Brasil adota práticas que "oneram ou restringem" o comércio com o país. Outra de 12,5% — também adicionada a outros países — foi anunciada após um estudo dos EUA entender que o Brasil não fiscaliza adequadamente a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

A reunião desta semana foi o primeiro encontro presencial bilateral de alto nível desde que os EUA anunciaram o tarifaço composto. Lula ligou para Trump em agosto deste ano como uma forma de contato inicial.

Encontro promissor, mas sem previsões

Elias Rosa reiterou que o encontro foi promissor e um dos mais positivos dos últimos tempos. Ainda assim, não havia a expectativa de nenhum anúncio mais substantivo após a reunião.

Isso porque a reunião aconteceu apenas cinco dias antes da eleição presidencial brasileira e o governo Trump já demostra favoritismo para o principal adversário de Lula, o senador Flávio Bolsonaro (PL).

A projeção brasileira é de que os EUA vá negociar com questões sobre regulação de big techs e facilitações de comércio em bens industriais, eletroeletrônicos e químicos como cartas na manga. A exploração de etanol e terras raras também deve ser debatido.

Bastidores de Brasília observados pelo UOL indicam que Lula está frustrado com os americanos. Para o presidente, os negociadores fazem exigências em sequência e acumulando concessões porque não definem com antecedência as balizas a partir das quais querem negociar.

Lula não poderá encurralar Trump antes das eleições

A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para este domingo (4), Lula perde um gancho de narrativa eleitoral: a "vitória" sobre uma possível diminuição ou reversão do tarifaço composto.

No ano passado, quando Trump lançou tarifas em meio ao julgamento que levou à prisão de Jair Bolsonaro, uma das principais estratégias do petista foi construir a narrativa de negociador. De fato, os líderes de Estado conversaram e reuniram as equipes comerciais para uma reversão dos danos. 

Desde então, Lula reforça em seus discursos o conceito de soberania do Brasil e que não aceitaria intervenções internacionais sem questioná-las.

Quando Trump anunciou as novas tarifas, no primeiro semestre do ano, o governo federal reagiu à decisão como “um marco lastimável” nas relações entre Brasil e Estados Unidos e afirmou que não existe justificativa econômica para a adoção das novas tarifas.

Além de afirmar que aplicaria leis de reciprocidade, o Palácio do Planalto atribuiu parte da responsabilidade pelo agravamento da crise comercial à família Bolsonaro. Segundo o governo, integrantes do grupo político teriam colaborado para o avanço das investigações conduzidas pelos Estados Unidos e defendido publicamente medidas que prejudicam os interesses brasileiros.

Poucos dias antes de uma eleição apertada, como evidenciam as pesquisas, Lula não poderá contar com seu papel de "grande negociador" com tanta força quanto esperava.

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