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Economia

Por que a Casas Bahia recorreu à recuperação judicial e o que explica a alta dos pedidos?

Varejista acumula prejuízo bilionário e volta a buscar uma saída para as dívidas

Por que a Casas Bahia recorreu à recuperação judicial e o que explica a alta dos pedidos?

O Grupo Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo neste domingo (16), em mais um capítulo da crise financeira enfrentada pela varejista.

A medida ocorre após a companhia registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e depois de não conseguir concretizar alternativas de liquidez que vinha buscando nos últimos meses.

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O processo envolve a holding e subsidiárias como Cnova, Bartira, Casas Bahia Tecnologia e empresas de logística. A companhia informou que pretende continuar operando normalmente enquanto reorganiza suas dívidas e sua estrutura operacional.

O grupo também já havia fechado 298 lojas como parte de um processo de redimensionamento do negócio.

O novo pedido chama atenção porque a Casas Bahia já havia recorrido à recuperação extrajudicial em 2024. Na ocasião, a empresa renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras.

A situação financeira da varejista ocorre enquanto a companhia também enfrenta questões relacionadas à relação com consumidores.

O Brasilianista mostrou que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a possibilidade de utilização de informações do Reclame Aqui para auxiliar no cálculo de uma indenização coletiva relacionada a atrasos nas entregas, venda de produtos sem estoque e problemas no atendimento pós-venda.

Da fundação à nova crise financeira

A história das Casas Bahia começou antes da primeira loja. Samuel Klein chegou ao Brasil em 1952 e se estabeleceu em São Caetano do Sul (SP), onde começou a vender roupas de cama, mesa e banho de porta em porta.

Cinco anos depois, abriu a primeira loja, em 1957, e escolheu o nome em referência aos clientes nordestinos que viviam na região do ABC paulista.

O empresário passou a apostar nas vendas a prazo e no crediário, estratégia que ajudou a aproximar a população de baixa renda de produtos como móveis, colchões e eletrodomésticos.

A rede cresceu rapidamente e, nas décadas seguintes, ampliou sua presença pelo Estado de São Paulo. Em 1993, inaugurou a primeira unidade fora do Estado, em Minas Gerais, e depois avançou para Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina. No início dos anos 2000, chegou a Goiás e ao Distrito Federal e alcançou a marca de 300 lojas.

A expansão levou a Casas Bahia a uma das maiores operações do varejo brasileiro, até que a estrutura societária começou a mudar. Em 2009, o Grupo Pão de Açúcar adquiriu o controle da Globex, dona do Ponto Frio, e fechou um acordo de associação com as Casas Bahia.

No ano seguinte, lojas, marca, centros de distribuição, estoques, crediário e a fábrica de móveis Bartira foram incorporados à Globex, que passou a se chamar Via Varejo em 2012.

Em 2019, o GPA vendeu sua participação em bolsa, pulverizando o controle da companhia, e a família Klein voltou a ter participação relevante no negócio.

Em 2021, a empresa passou a se chamar Via e, dois anos depois, retomou o nome Grupo Casas Bahia, em uma tentativa de recuperar a força da marca histórica.

Denúncias envolvendo a família Klein

Em 2021, mulheres denunciaram ter sido vítimas de exploração e abusos sexuais atribuídos a Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, que morreu em 2014.

A investigação reuniu relatos de mais de 35 pessoas. Segundo as denunciantes, os episódios teriam ocorrido durante décadas e alguns deles teriam acontecido na própria sede das Casas Bahia, em São Caetano do Sul.

As revelações também levaram o Ministério Público do Trabalho (MPT) a abrir um inquérito para apurar uma possível relação entre as denúncias e a empresa.

O caso ganhou novos desdobramentos nos anos seguintes, em 2023, a Justiça do Trabalho condenou Saul Klein, filho de Samuel, a pagar R$ 30 milhões por danos morais coletivos em processo que envolveu acusações de aliciamento e exploração sexual de mulheres e adolescentes.

Em maio de 2026, a Justiça aceitou uma denúncia contra Saul, tornando-o réu no processo criminal.

Ações despencam após pedido de recuperação judicial

A crise também atingiu diretamente os investidores. As ações da Casas Bahia (BHIA3) chegaram a cair 36% nesta segunda-feira (17), atingindo R$ 0,42 durante a sessão, após a varejista confirmar o pedido de recuperação judicial e divulgar os resultados do segundo trimestre.

Por volta das 12h24, os papéis ainda registravam queda de 22,73%, cotados a R$ 0,51. A companhia também confirmou o fechamento de 298 lojas e a demissão de aproximadamente 3 mil funcionários.

O resultado financeiro ajudou a aumentar a preocupação do mercado. A Casas Bahia registrou prejuízo líquido contábil de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre, enquanto o prejuízo líquido ajustado chegou a R$ 978 milhões, alta de 76,2% em relação ao mesmo período de 2025.

O que é recuperação judicial?

A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira para permitir que uma empresa em crise reorganize suas dívidas e tente preservar suas atividades antes que a situação chegue à falência.

Como explicou O Brasilianista, o instrumento permite que a companhia apresente um plano de recuperação aos credores e negocie seus compromissos sob supervisão judicial.

O objetivo não é simplesmente apagar as dívidas, mas criar condições para que a empresa consiga reorganizar suas obrigações e continuar funcionando.

O processo cria um ambiente de negociação. Depois do pedido e das decisões judiciais cabíveis, a companhia passa a discutir com os credores as condições para pagamento dos débitos. Um administrador judicial acompanha o procedimento, enquanto os credores analisam o plano apresentado pela empresa.

A recuperação judicial, portanto, não significa que uma companhia fechou as portas. Pelo contrário, a lógica do mecanismo é justamente tentar evitar a falência e preservar a atividade econômica, os empregos, os fornecedores e a própria geração de receita.

Entretanto, o processo também representa um sinal de gravidade. Caso a empresa não consiga aprovar ou cumprir o plano de recuperação, a situação pode evoluir para a falência.

Por que os pedidos de recuperação estão aumentando?

O caso da Casas Bahia não acontece isoladamente. Nos últimos anos, empresas de diferentes setores passaram a enfrentar dificuldades para manter o pagamento de suas dívidas diante da combinação entre crédito mais caro, endividamento elevado, redução das margens e dificuldades para aumentar a geração de caixa.

O Brasilianista destacou que os pedidos relacionados à recuperação judicial no agronegócio chegaram a 474 registros no primeiro trimestre, alta de 21,9% em relação ao levantamento anterior.

Embora o varejo e o agronegócio tenham características diferentes, existe um ponto em comum: empresas altamente dependentes de crédito ficam mais vulneráveis quando o custo de financiamento sobe e a capacidade de geração de caixa não acompanha o crescimento das despesas financeiras.

Somente em 2025, foram registrados mais de 2,5 mil pedidos de recuperação judicial no país. A Selic aparecia em 14%, cenário que aumenta o custo de novas dívidas e torna mais difícil refinanciar compromissos antigos.

Esse ambiente pesa especialmente sobre empresas que carregam grandes passivos financeiros. Quando a companhia precisa contratar novos empréstimos apenas para pagar dívidas anteriores, o custo financeiro pode crescer até o ponto em que a operação deixa de gerar caixa suficiente para sustentar os compromissos.

Juros altos, crédito restrito e falta de caixa formam uma combinação perigosa

A dificuldade não está apenas no tamanho da dívida. O problema aparece quando a empresa perde capacidade de transformar sua operação em dinheiro suficiente para pagar fornecedores, bancos, funcionários e demais compromissos.

O professor Rafael Palazzi, da Fundação Instituto de Administração (FIA) Business School, explicou ao O Brasilianista que empresas precisam acompanhar o fluxo de caixa, realizar simulações de cenários de estresse e manter uma reserva de liquidez.

O especialista também chamou atenção para a diferença entre lucro e disponibilidade financeira. “Por fim, entender que lucro não é caixa”, complementou.

O ambiente de juros elevados torna essa equação ainda mais difícil. Palazzi explicou que o custo financeiro elevado exige uma gestão mais cuidadosa das empresas.

“A Selic está em, aproximadamente, 14,5% ao ano, com a inflação por volta de 4,4%, o que significa um juro real bastante elevado, e o mercado espera que a Selic recue para algo perto de 13% só no fim de 2026. Isso significa um custo financeiro muito alto para as empresas, o que exige uma tarefa hercúlea por parte dos gestores”, explicou o especialista ao O Brasilianista.

Para empresas endividadas, portanto, uma taxa de juros elevada pode dificultar tanto a contratação de novos recursos quanto a renegociação de compromissos existentes.

Quais sinais mostram que uma empresa está perto da recuperação?

Antes de apresentar um pedido à Justiça, uma companhia costuma enfrentar uma sequência de dificuldades que podem indicar a deterioração da sua saúde financeira.

Em entrevista ao O Brasilianista, Daniel Carnio Costa, professor do departamento de Direito Comercial da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e integrante da Comissão de Juristas formada pelo Ministério da Fazenda para discutir mudanças na legislação de recuperação de empresas e falências, explicou que um dos principais sinais aparece quando a companhia deixa de conseguir honrar suas obrigações.

“O primeiro sinal de que uma empresa está entrando num momento de crise é a incapacidade de honrar as suas obrigações”, revelou Carnio Costa.

Segundo o especialista, atrasos no pagamento de tributos e outras obrigações podem indicar que a companhia já começou a retirar recursos do caixa operacional para cobrir compromissos financeiros.

Nesse estágio, a empresa pode tentar negociar diretamente com credores antes de recorrer à Justiça. Outra possibilidade envolve mecanismos de pré-insolvência e, posteriormente, a recuperação extrajudicial.

A recuperação judicial aparece como uma alternativa mais invasiva quando essas estratégias não conseguem resolver o problema.

Quais empresas também estão passando por reestruturações?

O aumento dos pedidos não significa que todas as empresas estejam enfrentando exatamente a mesma crise. Cada processo possui causas, dívidas e planos diferentes. Ainda assim, alguns casos ajudam a entender como o mecanismo pode funcionar na prática.

Entre os exemplos estão a AgroGalaxy, que entrou em recuperação judicial em 2024 com aproximadamente R$ 3,8 bilhões em dívidas, e o Grupo Patense, que pediu recuperação no mesmo ano com um passivo de R$ 1,37 bilhão.

O setor também enfrenta dificuldades relacionadas ao custo de produção, crédito e endividamento. Por isso, a recuperação judicial passou a aparecer como alternativa para empresas que não conseguem reorganizar suas obrigações apenas por meio de negociações privadas.

Outro caso de grande repercussão noticiado pelo O Brasilianista é o da Ambipar. A empresa entrou em recuperação judicial em meio a uma crise envolvendo contratos financeiros, garantias e dívidas que chegaram a aproximadamente R$ 10,7 bilhões.

O processo chamou atenção do Banco Central porque envolve contratos de derivativos e pode produzir impactos além da relação entre a companhia e seus credores.

Henrique Arake, sócio do Arake Tomazete, Borges & Glicério Advogados e professor de Direito Empresarial na UniCEUB e UnB, explicou ao O Brasilianista que decisões sobre garantias nesse tipo de contrato podem afetar a segurança jurídica do mercado financeiro.

“No momento em que uma decisão judicial ameaça esse sistema extremamente sensível e controlado de garantias, o risco de uma crise sistêmica é muito grande”, afirmou.

Recuperação judicial pode terminar em recuperação da empresa?

O pedido de recuperação não determina sozinho o futuro da companhia. Existem empresas que conseguiram reorganizar as dívidas e voltar a crescer depois do processo.

O Brasilianista mostrou exemplos como Bombril, Americanas, Eternit, Kepler Weber, Mangels e Grupo Rede Energia. Cada companhia adotou estratégias diferentes para reorganizar suas operações e compromissos financeiros.

A Americanas, por exemplo, protocolou em março de 2026 um pedido para encerrar sua recuperação judicial após informar que cumpriu as obrigações previstas no plano aprovado pelos credores.

O processo havia começado depois da descoberta de inconsistências contábeis que levaram a um passivo superior a R$ 50 bilhões.

A Eternit também encerrou sua recuperação judicial depois de cumprir as obrigações previstas no plano. A empresa havia entrado no processo em 2018, após a necessidade de reformular seu modelo de produção diante da proibição do uso do amianto crisotila.

Como explicou Daniel Carnio Costa ao O Brasilianista, a recuperação judicial representa uma tentativa final de reorganização antes de uma possível falência.

“É um processo arriscado, porque se a devedora não conseguir aprovar um plano, ou se a devedora descumprir o plano aprovado durante um período de fiscalização estabelecido pelo juiz, que é um período de até dois anos, a empresa pode ter decretado a sua falência e a sua liquidação. Então, ou ela se recupera, ou ela quebra”, destacou.

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