O Caso Master atravessou uma nova fase nos últimos 30 dias. O que já era uma investigação bilionária sobre Daniel Vorcaro e as operações do banco passou a produzir desdobramentos simultâneos no Banco Central, no Banco de Brasília (BRB), no Supremo Tribunal Federal (STF), na Procuradoria-Geral da República (PGR) e na campanha presidencial.
O levantamento de O Brasilianista considera as principais revelações publicadas entre 10 de agosto e 8 de setembro de 2026.
Nem todos os nomes citados aparecem nas investigações da mesma forma. Há investigados, delatores, pessoas mencionadas em mensagens, autoridades que mantiveram reuniões com Vorcaro e políticos alcançados pela repercussão do caso.
A presença de alguém em documentos ou conversas não representa, isoladamente, participação em crime.
Nova delação
O período começou com uma nova tentativa de Daniel Vorcaro de negociar uma colaboração premiada.
Em 10 de agosto, o PlatôBR mostrou que investigadores demonstravam resistência ao movimento do banqueiro e avaliavam que as apurações já reuniam informações suficientes para avançar sem a colaboração.
No dia seguinte, Daniel Bialski, novo advogado de Vorcaro, afirmou que o cliente “quer falar e quer colaborar” e confirmou a intenção de conversar com o ministro André Mendonça sobre uma nova tentativa de acordo.
A estratégia ganhou um capítulo concreto no fim do mês. Em 28 de agosto, Vorcaro prestou quase quatro horas de depoimento à Polícia Federal.
A oitiva tratou, entre outros temas, da suspeita de que servidores do Banco Central teriam repassado informações privilegiadas ao então controlador do Master.
Banco Central
A frente relacionada ao BC já vinha avançando. Em 12 de agosto, O Brasilianista mostrou que o diretor de Fiscalização da autoridade monetária, Ailton de Aquino, relatou à PF suspeitas envolvendo dois servidores do órgão.
Segundo o depoimento, Paulo Sérgio e Bellini Santana teriam apresentado condutas que levantaram suspeitas de recebimento de vantagens em troca de informações da fiscalização. Os dois negam ter favorecido ilegalmente Vorcaro.
O episódio ampliou o Caso Master para dentro da instituição responsável justamente por supervisionar o sistema financeiro.
Cerco ao BRB
Outra investigação avançou dentro do Banco de Brasília. Em 21 de agosto, O Brasilianista revelou que um novo laudo da Polícia Federal apontou elementos envolvendo integrantes da Diretoria Colegiada do BRB nas decisões relacionadas às operações com o Master.
A perícia mencionou possíveis falhas de governança, concentração de risco e aprovação de operações fora de procedimentos internos. Diante do material, a PF pediu mais 60 dias ao STF para concluir o inquérito.
Paralelamente, o Distrito Federal continuou negociando uma saída financeira para o BRB.
Em agosto, a governadora Celina Leão afirmou que ainda não era possível determinar integralmente o tamanho do prejuízo relacionado às carteiras adquiridas do Master.
Moraes e Vorcaro
A maior mudança de escala ocorreu em setembro. No dia 1º, mensagens, documentos e metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro ampliaram o alcance das apurações sobre a relação dele com Alexandre de Moraes.
Uma das revelações indicou que uma versão do contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, havia sido modificada em um perfil do Office 365 identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O escritório confirmou que Moraes foi consultado antes da contratação, mas afirmou que o objetivo era verificar eventuais impedimentos ou conflitos de interesse. Segundo a banca, o ministro nunca julgou processos envolvendo o Master.
Mensagens também mostraram a preocupação de Vorcaro com o pagamento dos honorários.
“Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Vamos ter problemas”, escreveu o banqueiro a um funcionário, segundo material obtido pelo Estadão.
Em outra conversa, determinou que os pagamentos ao escritório fossem acompanhados mensalmente e tratados como prioritários.
Comando da PF
André Mendonça determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal e de Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência da corporação.
O ministro questionou relatórios de inteligência produzidos pela PF e determinou que a Corregedoria apure a elaboração dos documentos.
A Segunda Turma do Supremo chegou a formar maioria para referendar a decisão de Mendonça, com votos de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
O julgamento, porém, foi interrompido após pedido de vista de Gilmar Mendes, que terá mais tempo para analisar o caso antes da conclusão pelo colegiado.
Moraes contra Mendonça
A disputa entre os ministros ganhou outro capítulo quando Alexandre de Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a abertura de uma investigação contra André Mendonça.
Moraes apontou possíveis crimes de abuso de autoridade e responsabilidade, além de improbidade administrativa, na condução das apurações relacionadas ao Master e ao INSS.
Segundo Moraes, Mendonça teria direcionado investigações por motivações pessoais e políticas e rompido a imparcialidade exigida de um magistrado.
Entre os alvos que teriam sido escolhidos dessa maneira, citou a si próprio e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Mendonça passou a ser formalmente chamado a explicar sua atuação na condução dos casos.
Fachin reage
Edson Fachin retirou do inquérito das fake news o pedido de investigação apresentado por Moraes contra Mendonça.
Em vez de manter o caso na investigação relatada pelo próprio Moraes, o presidente do Supremo incluiu a solicitação no procedimento que já analisava o relatório da PF sobre as mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
Fachin também deu prazo para que Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues prestassem informações sobre as circunstâncias das diligências.
O presidente da Corte afirmou que a resposta institucional seria “firme, proporcional e rigorosa” e voltou a defender a criação de um código de ética para o STF.
Ex-ministros cobram
A crise provocou uma manifestação incomum de antigos integrantes do Supremo.
Treze ex-ministros enviaram uma carta a Fachin pedindo uma sessão pública urgente do plenário para determinar uma apuração dos fatos que vêm atingindo a Corte.
Entre os signatários estão Celso de Mello, Rosa Weber, Joaquim Barbosa, Ellen Gracie e Nelson Jobim.
No documento, os ex-magistrados classificaram o momento como a “mais aguda crise” da história do STF e afirmaram que as revelações estariam comprometendo o prestígio do tribunal, a confiança da população e a estabilidade das instituições. A carta não cita Moraes nominalmente.
Galípolo citado
Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro afirmou que Gabriel Galípolo e outros integrantes da direção do Banco Central teriam demonstrado apoio à conclusão da operação entre Master e BRB.
A declaração foi dada em 28 de agosto, durante a oitiva relacionada à investigação sobre suspeitas envolvendo antigos integrantes da autoridade monetária.
Vorcaro disse que percebia no BC uma postura de “concordância e incentivo” à operação e citou também Ailton de Aquino e Paulo Sérgio Neves de Souza.
A afirmação representa a versão do ex-banqueiro, o Banco Central acabou rejeitando a aquisição do Master pelo BRB em setembro de 2025.
Incômodo com PF
Vorcaro também declarou ao gabinete de Mendonça que se sentia desconfortável em apresentar uma nova proposta de colaboração diretamente à Polícia Federal por causa de sua relação anterior com Andrei Rodrigues.
Segundo ele, o diretor-geral havia participado de eventos e de outras situações relacionadas ao período de crescimento do Master.
O ex-banqueiro indicou ainda que pretendia mencionar Rodrigues entre os nomes abordados em uma eventual nova colaboração.
As afirmações são de Vorcaro e, isoladamente, não demonstram prática irregular por parte do diretor-geral da PF.
Socorro ao BRB
O socorro financeiro ao BRB também encontrou obstáculos. O Fundo Garantidor de Créditos informou ao STF que não havia recebido documentos financeiros suficientes para avaliar o empréstimo de até R$ 6,6 bilhões buscado pelo Governo do Distrito Federal.
Sem recursos próprios para realizar o aporte, a gestão distrital voltou posteriormente ao Supremo pedindo que a União fosse obrigada a oferecer garantia à operação.
Em paralelo, acionistas do BRB autorizaram medidas judiciais contra antigos administradores por prejuízos relacionados às operações com Master e Reag.
Outra decisão de Luiz Fux prorrogou por 90 dias o contrato do banco com o Tribunal de Justiça da Bahia para a administração de depósitos judiciais, preservando um fluxo mensal estimado em R$ 394 milhões durante as negociações de capitalização.
Ações restritas
A crise chegou também à negociação das ações do BRB. A B3 colocou os papéis do banco em regime de negociação não contínua, no qual as operações são realizadas por meio de leilões em vez de ocorrerem normalmente ao longo do pregão.
A medida foi adotada porque o banco acumulava atraso na entrega de informações financeiras periódicas exigidas pelo mercado, incluindo balanços.
A restrição não retirou as ações da Bolsa, mas a negociação contínua somente poderá ser restabelecida depois da regularização das pendências.
Bens nos EUA
A busca pelo patrimônio relacionado a Vorcaro também avançou nos Estados Unidos.
A EFB Regimes Especiais, liquidante do Banco Master, recorreu à Justiça da Flórida para obter documentos sobre imóveis adquiridos por empresas relacionadas ao entorno do ex-banqueiro.
As intimações buscam identificar titulares de contas, contratos, escrituras, bancos envolvidos e o caminho das transferências utilizadas nas aquisições.
Três imóveis alcançados pela iniciativa tinham avaliações fiscais que, somadas, chegavam a US$ 4,15 milhões, cerca de R$ 21 milhões.
Ataques ao BC
Outra investigação da Polícia Federal apura a suspeita de contratação de influenciadores digitais para atacar o Banco Central enquanto avançavam as negociações envolvendo Master e BRB.
Vorcaro tinha um depoimento específico sobre essa frente marcado para 20 de agosto.
A oitiva foi adiada a pedido da defesa, que solicitou mais tempo para analisar o material do inquérito.
Segredo no BC
Ailton de Aquino revelou à Polícia Federal que a decisão de liquidar o Master foi mantida em sigilo até dentro do próprio Banco Central por receio de vazamentos.
Segundo seu depoimento, nem Belline Santana nem Paulo Sérgio Neves de Souza foram avisados previamente, apesar das funções que exerciam na estrutura de fiscalização.
Aquino descreveu aquele período como marcado por desconfiança interna e afirmou que, em condições normais, mais servidores seriam envolvidos na preparação de uma liquidação bancária.
No caso do Master, disse que o conhecimento prévio ficou restrito a um grupo reduzido de integrantes da autoridade monetária.
Mensagens apagáveis
Registros analisados pela Polícia Federal indicam que Alexandre de Moraes enviou quatro mensagens de visualização única para Vorcaro em 17 de novembro de 2025, data da primeira prisão do então banqueiro. Os envios foram registrados às 8h16, 17h31, 20h21 e 20h23.
Como o recurso do aplicativo elimina o conteúdo depois da abertura, a PF não recuperou o teor dessas quatro mensagens.
Os registros comprovam os envios, mas não permitem determinar o que Moraes escreveu nem, por si só, se alguma informação relacionada à operação policial foi repassada.
Antes da prisão
O material mais sensível apareceu nas conversas mantidas nos dias anteriores à prisão de Vorcaro.
Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser detido, o banqueiro perguntou a Moraes:
“Acha que 2ª tenho que estar fora?”
Segundo a investigação divulgada pelo Estadão, Vorcaro e Moraes trataram de informações relacionadas ao avanço da Operação Compliance Zero e à possibilidade de novas medidas contra o banqueiro.
Documentos revelados nesta segunda-feira (8) acrescentaram outro elemento à cronologia, Vorcaro antecipou a viagem que pretendia fazer a Dubai depois das conversas mantidas naquele fim de semana.
Ele acabou preso pela PF quando tentava embarcar em 17 de novembro de 2025.
Até agora, o material divulgado não comprova que Moraes tenha alertado Vorcaro sobre uma ordem de prisão ou repassado informação sigilosa. O ministro contesta as interpretações feitas a partir das mensagens.
Aviões e contrato
A PF também encontrou informações relacionadas ao uso de aeronaves.
Documentos indicaram tratativas sobre cotas de um avião e de um helicóptero relacionadas ao escritório de Viviane.
Em uma das mensagens divulgadas, a advogada afirmou que “estamos gostando muito” ao ser questionada sobre a utilização.
Supremo dividido
André Mendonça retirou o sigilo do relatório produzido pela Polícia Federal e afirmou que os novos elementos deveriam ser examinados pelo plenário do STF.
Como destacou O Brasilianista, Paulo Gonet tomou posição oposta. O procurador-geral pediu a nulidade da investigação que alcançou Moraes e argumentou que Mendonça teria ultrapassado os limites de sua competência ao determinar diligências sem provocação prévia da PF ou do Ministério Público.
A crise ficou ainda mais complexa quando veio a público que o próprio Mendonça havia recebido Vorcaro em março de 2025, antes de assumir a relatoria do Caso Master.
O ministro confirmou o encontro, mas afirmou que ouviu o banqueiro uma única vez e que a conversa tratou de uma ação sobre créditos de precatórios de interesse do banco.
Oitiva sem PF
O Globo revelou que Vorcaro havia sido ouvido pelo gabinete de André Mendonça na última semana de agosto, com participação de representante do Ministério Público, mas sem integrantes da Polícia Federal.
O gabinete explicou que a audiência ocorreu a pedido da própria defesa, depois de Vorcaro relatar “graves intimidações”, e afirmou que a ausência dos policiais tinha como objetivo proteger a integridade física e psicológica do depoente.
O banqueiro também alegou sofrer intimidações e “tortura psicológica” e afirmou estar disposto a falar sobre integrantes do atual governo, sem apresentar provas naquele momento.
O Palácio do Planalto tratou as declarações como tentativa de pressão política, segundo o PlatôBR.
Delações avançam
Enquanto Vorcaro não conseguia fechar sua própria colaboração, outros personagens do Caso Master avançaram nas negociações.
A PGR firmou um acordo com João Carlos Mansur, fundador e ex-CEO da Reag Investimentos. Segundo O Brasilianista, a proposta reuniu 17 anexos e prevê multa de R$ 40 milhões.
Também fechou colaboração Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, personagem que aparece na rota de recursos destinados ao projeto cinematográfico Dark Horse.
Dark Horse
Nesta terça-feira (8), uma dessas frentes avançou diretamente sobre o entorno de Eduardo Bolsonaro.
Como informou O Brasilianista, Mineiro confirmou à PGR ter realizado sete transferências bancárias, a pedido de Vorcaro, para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.
Os pagamentos somaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 69 milhões, e ocorreram ao longo de 2025.
O Havengate é administrado por Paulo Calixto, advogado próximo a Eduardo, e foi utilizado na estrutura de financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal tenta descobrir se todo o dinheiro terminou na produção cinematográfica ou se houve outra destinação. Até agora, não há prova pública de que Eduardo Bolsonaro tenha recebido recursos de Vorcaro.
Flávio Bolsonaro
O financiamento do filme já havia aproximado Flávio Bolsonaro de Vorcaro. O senador admitiu que buscou recursos do banqueiro para a produção e confirmou que esteve na residência dele em São Paulo.
Sustenta que os contatos trataram exclusivamente do projeto e nega ter oferecido qualquer vantagem política ou administrativa.
A questão ganhou peso eleitoral porque Dark Horse entrou no debate da campanha presidencial.
Em 4 de setembro, a campanha de Lula pediu ao STF o levantamento do sigilo de informações relacionadas ao financiamento da produção.
Nikolas Ferreira
Outro nome do bolsonarismo surgiu nas mensagens. Vorcaro afirmou a um interlocutor ter bancado voos de Nikolas Ferreira.
O deputado já havia utilizado uma aeronave do banqueiro durante a campanha de 2022 e admitiu ter mantido dois contatos posteriores com ele.
Em um áudio divulgado posteriormente, Nikolas pediu ajuda envolvendo a liberação de um ativo minerário de interesse de um conhecido e chamou Vorcaro de “lindão”.
O deputado nega ter recebido dinheiro ou firmado contratos com o ex-banqueiro.
Kassab e Tarcísio
A crise também chegou à política paulista. Em uma proposta de colaboração premiada que não foi aceita pela PF nem pela PGR, Vorcaro afirmou que doações eleitorais realizadas por Fabiano Zettel às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, em 2022, teriam feito parte de um suposto acordo articulado por Gilberto Kassab para assegurar a continuidade do Credcesta em São Paulo.
Foram R$ 3 milhões destinados oficialmente à campanha de Bolsonaro e R$ 2 milhões à de Tarcísio.
Kassab e Tarcísio negaram as acusações. Como a colaboração de Vorcaro foi rejeitada e não há comprovação independente da versão, o relato não constitui prova contra os citados.
Novas liquidações
O Banco Central também ampliou as medidas contra instituições relacionadas ao ambiente financeiro investigado.
Em 3 de setembro, decretou a liquidação extrajudicial da Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e da Banvox Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
As duas eram ligadas a Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro. O BC afirmou ter identificado “graves violações às normas legais” aplicáveis às instituições financeiras.
Julgamento na CVM
Nesta terça-feira (8), outra frente chega à Comissão de Valores Mobiliários.
A CVM marcou para esta tarde o julgamento de processo que envolve Banco Master, Daniel Vorcaro, integrantes de sua família e outros acusados por supostas irregularidades na emissão e negociação de cotas do fundo imobiliário Brazil Realty FII.
A acusação envolve suspeita de ativos sobreavaliados incorporados ao fundo e posteriores negociações das cotas.
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