O Caso Master abriu uma nova frente sobre a política de São Paulo. Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada rejeitada pelas autoridades, que doações feitas às campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022 teriam funcionado como contrapartida de um suposto acordo articulado por Gilberto Kassab, presidente do PSD.
A acusação foi revelada originalmente pelos jornalistas Fábio Serapião, Natália Portinari, Artur Rodrigues e Cézar Feitoza, do UOL, que tiveram acesso a um dos anexos apresentados pelo ex-dono do Banco Master.
Vorcaro tentou fechar a colaboração em três versões diferentes. Todas foram recusadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, que apontaram falta de fatos inéditos e de elementos de corroboração suficientes.
R$ 5 milhões
Os pagamentos citados por Vorcaro incluem R$ 5 milhões em doações eleitorais oficiais realizadas em 2022 por Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e investigado na Operação Compliance Zero.
Registros das eleições daquele ano mostram que Zettel destinou R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a candidatura de Tarcísio ao governo paulista, tornando-se o maior doador individual dos dois.
Na versão apresentada às autoridades, Vorcaro descreveu esses repasses como “contrapartidas financeiras” ligadas à continuidade do Credcesta no governo que assumiria São Paulo em 2023.
Segundo o relato obtido pelo UOL, Vorcaro afirmou que acionou Fabiano Zettel especificamente para fazer as doações oficiais às campanhas de Tarcísio e Bolsonaro.
Na versão apresentada pelo ex-banqueiro, Augusto Lima teria argumentado que a proximidade de Vorcaro com políticos do PT dificultaria uma contribuição direta a candidatos adversários. Por isso, os recursos teriam sido repassados por Zettel.
Vorcaro afirmou ainda que o cunhado não conhecia a suposta finalidade atribuída aos pagamentos.
Segundo o relato, Zettel teria aceitado fazer as contribuições por possuir afinidade ideológica com os candidatos beneficiados.
Kassab citado
Vorcaro atribuiu a negociação a Augusto Lima, seu ex-sócio e responsável pela expansão do Credcesta dentro do grupo.
Segundo o relato, com a perspectiva de vitória de Tarcísio em 2022, Lima teria buscado assegurar que o negócio permanecesse operando depois da troca de governo em São Paulo.
Kassab, apoiador da candidatura de Tarcísio naquele momento e posteriormente secretário estadual de Governo, teria participado dessa articulação.
A proposta menciona um suposto acordo que envolveria o pagamento de 5% do resultado líquido das operações do Credcesta em São Paulo, além de contribuições eleitorais.
De acordo com a proposta de colaboração, o pagamento relacionado às campanhas teria sido planejado inicialmente para ocorrer integralmente em dinheiro.
Vorcaro afirmou, porém, que Kassab ou interlocutores ligados a ele teriam comunicado a Augusto Lima que partidos políticos parceiros aceitariam apenas doações eleitorais oficiais.
A partir daí, segundo a versão do ex-banqueiro, o suposto acerto teria sido dividido entre os R$ 5 milhões declarados oficialmente às campanhas de Tarcísio e Bolsonaro e outros R$ 10 milhões em espécie destinados a atender interesses eleitorais ligados ao PSD.
As entregas informais teriam sido intermediadas por Thiago Botelho. Vorcaro sustentou que tanto os pagamentos oficiais quanto os valores em espécie foram efetivamente repassados e relacionou a suposta contrapartida à permanência do Credcesta no governo paulista.
Não há, até agora, comprovação pública independente de que os R$ 10 milhões em espécie tenham sido entregues ou recebidos pelos personagens mencionados.
Kassab nega
Kassab rejeitou integralmente a versão. O presidente do PSD afirmou não manter relação com Vorcaro e disse nunca ter conversado com o ex-banqueiro pessoalmente ou por telefone.
Reconheceu conhecer Augusto Lima e Thiago Botelho, mas negou ter discutido com eles o Credcesta ou doações eleitorais.
“É um relato absolutamente fantasioso”, reagiu Kassab ao conteúdo da proposta.
Ele também negou ter recebido dinheiro em espécie ou participado de qualquer negociação para direcionar recursos às campanhas mencionadas.
Caiado cobra apuração
A acusação também atingiu a chapa presidencial de Ronaldo Caiado (PSD), já que Kassab é candidato a vice-presidente do ex-governador de Goiás.
Caiado afirmou que a negativa apresentada por Kassab e Tarcísio não deve impedir o aprofundamento das investigações.
“Em primeiro lugar, tem que abrir todas as informações, e tanto ele quanto o Tarcísio já negaram”, defendeu Caiado.
O candidato disse que cabe à Polícia Federal e ao Supremo Tribunal Federal esclarecer se houve alguma irregularidade relacionada aos fatos narrados por Vorcaro.
“Que abra tudo, que realmente não fique dentro de uma posição, que a Polícia Federal e também o Supremo identifiquem se houve alguma coisa ou não”, cobrou o presidenciável.
Questionado se a proximidade política com Kassab alteraria sua posição, Caiado afirmou que não faria distinções.
“Roubar com a mão direita ou roubar com a mão esquerda é ladrão. Então, não tem diferença. O pau que dá no Chico, dá no Francisco”, respondeu o candidato.
Para ele, o material reunido pela PF deve servir de base para esclarecer os fatos atribuídos pelo ex-controlador do Master.
“O que se exige neste momento é essa total transparência dos dados”, concluiu o candidato.
Tarcísio reage
Tarcísio também rejeitou diretamente a versão apresentada por Vorcaro de que os R$ 5 milhões destinados às campanhas dele e de Jair Bolsonaro em 2022 teriam relação com um suposto acordo de propina.
Em nota divulgada após a revelação, a campanha afirmou ter recebido recursos de mais de 600 doadores em 2022 e ressaltou que a prestação de contas foi apresentada e aprovada pela Justiça Eleitoral.
“Primeiro, acho que é uma ilação que beira o ridículo. Imaginar que eu vou pedir algum favorecimento ou que o presidente Bolsonaro ia pedir algum favorecimento é uma coisa que não faz o menor sentido”, rebateu Tarcísio.
O governador afirmou que a PKL, empresa responsável pelo Credcesta em São Paulo, já estava credenciada para operar consignados no Estado desde 2022, antes de sua posse no Palácio dos Bandeirantes.
“A PKL, que é a instituição que operava a consignada em São Paulo, operava e foi credenciada a partir de 2022, ou seja, antes do nosso mandato”, explicou o governador.
Tarcísio argumentou ainda que o credenciamento não equivalia a um contrato firmado diretamente com o governo estadual.
“É um credenciamento. Quem cumpre requisitos do Banco Central é credenciado, então não tem como você negar um credenciamento”, sustentou o republicano.
Segundo o governador, 217 instituições estão habilitadas a realizar operações consignadas no Estado de São Paulo. Ele afirmou que a instituição relacionada ao Credcesta respondia por uma parcela pequena desse mercado.
“Do volume de consignados que nós temos, quanto é que eles operavam? 3%. A operação deles era muito pequena”, comparou Tarcísio.
Ele também afirmou que a empresa foi retirada do sistema depois das medidas adotadas pelo Banco Central.
“A partir do momento que houve a liquidação do Banco Central, eles foram descredenciados. Então, a gente cumpriu a lei para credenciar, cumpriu a lei para descredenciar, sem nenhum tipo de favorecimento”, declarou o governador.
Tarcísio negou ainda qualquer contato pessoal com Vorcaro ou Fabiano Zettel, responsável pelas doações eleitorais mencionadas pelo ex-banqueiro.
“Quantas vezes eu tive com o Vorcaro, com o Zettel? Nunca, nem conheço. Veja se eu apareço em alguma comunicação deles, se eu estou no celular deles, se tem um áudio meu, se tem alguma coisa. Nada”, enfatizou Tarcísio.
O governador acrescentou que, segundo sua versão, os empresários também não tiveram compromissos oficiais dentro de sua administração.
“Quantas agendas eles tiveram no governo do Estado de São Paulo? Nenhuma”, afirmou o candidato à reeleição.
O Credcesta
O Credcesta é um cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos e operado pela PKL One Participações, empresa associada ao universo empresarial do Master e ligada a parentes de Augusto Lima.
A autorização para que empresas como a PKL oferecessem esse tipo de produto aos servidores de São Paulo foi concedida em março de 2022, ainda durante a gestão de João Doria.
A operação do Credcesta começou em julho daquele ano, quando Rodrigo Garcia já havia assumido o governo paulista. Tarcísio tomou posse apenas em janeiro de 2023.
A empresa integrava um sistema em que servidores poderiam escolher entre instituições habilitadas para operações consignadas.
Em dezembro de 2024, Tarcísio assinou um decreto que ampliou a concorrência nesse mercado.
A PKL teve suas operações suspensas em 19 de fevereiro de 2026, depois da liquidação extrajudicial das instituições relacionadas.
Versão rejeitada
A rejeição da proposta de colaboração não significa que as autoridades tenham concluído que os relatos de Vorcaro são falsos.
PF e PGR avaliaram que o material apresentado não reunia, naquele momento, fatos inéditos e elementos de corroboração suficientes para justificar o acordo.
Também não significa que Kassab, Tarcísio ou Bolsonaro sejam participantes comprovados de um esquema de propina.
Pela legislação brasileira, declarações de colaboradores precisam ser confirmadas por provas independentes e, mesmo em uma delação homologada, não podem fundamentar sozinhas uma condenação.
No caso de Vorcaro, o acordo sequer chegou à homologação, porque as propostas de colaboração foram recusadas.
Bolsonaro não respondeu
A acusação também alcança Jair Bolsonaro porque parte das doações oficiais mencionadas por Vorcaro foi destinada à campanha presidencial de 2022.
A defesa do ex-presidente foi procurada pela Folha e pelo Poder360, mas não havia apresentado manifestação sobre o conteúdo específico da proposta de delação até as publicações consultadas.
Flávio Bolsonaro reagiu publicamente e questionou a lógica da acusação ao argumentar que Kassab não apoiou Bolsonaro para presidente em 2022.
Como mostrou O Brasilianista, a revelação acrescenta Kassab e Tarcísio a uma lista cada vez maior de personagens alcançados por documentos, mensagens e relatos relacionados ao antigo controlador do Banco Master.
Ratinho e Master
Em outra frente envolvendo negócios do Banco Master, sem relação demonstrada até agora com a acusação sobre as campanhas de 2022, uma empresa ligada a Ratinho e Ratinho Junior também aparece como destinatária de recursos da instituição.
A Massa & Massa, empresa que tem como sócios o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, e o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), recebeu R$ 1,68 milhão do Banco Master, de Daniel Vorcaro, segundo informação publicada pelo Diário do Centro do Mundo.
O Brasilianista permanece aberto a manifestações das defesas e dos demais citados nesta reportagem. Eventuais posicionamentos enviados após a publicação serão acrescentados ao texto.
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