Publicidade
Economia

Dividendos de estatais comprometem política fiscal de Lula

A arrecadação com proventos está bem abaixo do esperado

Moedas
Dividendos do BNDES e Petrobras são essenciais para manter as contas públicas saudáveis (Foto: Magnific)

A meta fiscal do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fica cada vez mais em risco à medida em que boa parte dos recursos públicos se apoiam no valor esperado com dividendos de empresas estatais federais.

Em 2026, reportagem da Folha mostrou que o governo ainda precisa arrecadar cerca de 80% do montante projetado de dividendos até o final do ano. Dos R$ 55,5 bilhões em didivendos esperados para 2026, somente R$ 10,4 bilhões foram embolsados pelo Tesouro Nacional entre janeiro e junho.

Publicidade

A arrecadação em igual período do ano passado ficou em R$ 25 bilhões. Dessa forma, o cenário atual representa uma queda de 58% no primeiro semestre. Vale lembrar que ainda não é possível afirmar que isso causará um rombo, visto que algumas estatais ainda planejam suas estratégias de proventos.

Dividendos recebidos pela União entram como receita primária. Portanto, se o governo esperava receber R$ 54,1 bilhões e receber menos, o resultado primário fica pior na mesma proporção, caso não haja compensação por outra receita ou redução de despesa.

Como o Orçamento de 2026 já foi construído contando com essa receita, que equivale a cerca de 0,4% do PIB, o risco das empresas não compensarem esse valor até o fim do ano é dificultar o cumprimento da meta fiscal e exigir outras medidas de ajuste.

Em geral, uma receita extraordinária pode ajudar a fechar as contas em um determinado ano, mas não é uma fonte segura para sustentar despesas permanentes — o que tem potencial de aumentar a dívida pública do país.

Os dividendos embolsados pelo governo desde 2021

De 2021 a 2025, o governo recebeu R$ 312,6 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio (JCP). Mas a trajetória foi extremamente irregular: 2022 foi um ponto fora da curva, com R$ 87 bilhões, enquanto 2025 voltou para cerca de R$ 49,8 bilhões.

Os próprios documentos fiscais do governo alertam que dividendos são uma receita de maior volatilidade, sujeita a distribuição extraordinária de lucros, preços de commodities e decisões de política de dividendos das empresas.

Em 2025, por exemplo, o Tesouro Nacional informa que foram R$ 49,797 bilhões recebidos pelo governo por meio de dividendos, contra R$ 33,371 bilhões previstos na LOA.

No ano passado, BNDES e Petrobras responderam juntos por aproximadamente 72,6% dos R$ 49,8 bilhões arrecadados: R$ 22,3 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e R$ 13,8 bilhões da Petrobras.

Confira os pagamentos de dividendos dos últimos anos:

AnoPrevisão inicial (LOA)ArrecadadoDiferençaArrecadado x previsto
2021R$ 9,7 biR$ 43,5 bi+R$ 33,7 bi+346,6%
2022R$ 26,3 biR$ 87,0 bi+R$ 60,7 bi+231,0%
2023R$ 41,4 biR$ 50,0 bi+R$ 8,6 bi+20,8%
2024R$ 41,4 biR$ 72,4 bi+R$ 31,0 bi+74,8%
2025R$ 33,4 biR$ 49,8 bi+R$ 16,4 bi+49,2%

Fonte: Prestação de Contas da União

Apesar de a arrecadação ter ficado acima da previsão em todos os cinco anos, existe uma mudança importante na trajetória. O governo passou a depender de uma receita muito volátil, fortemente influenciada por Petrobras e BNDES.

O modelo é praticamente insustentável para as contas públicas, visto que o montante arrecadado depende do bom desempenho das estatais no ano analisado.

A queda na arrecadação de 2026 não se trata apenas de perder uma receita qualquer. Depois de anos em que os dividendos frequentemente superaram as previsões, o Orçamento do Executivo passou a contar com uma arrecadação elevada e, agora, o fluxo está vindo muito abaixo do ritmo necessário. 

Petrobras descarta distribuição de dividendos extraordinários

Petrobras, principal companhia estatal, já declarou que não deve distribuir dividendos extraordinários neste trimestre, apesar do resultado satisfatório registrado nos meses de abril a junho de 2026.

Em meio à escalada do preço do petróleo com a guerra no Irã e o bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, a estatal se beneficia na comercialização da commodity. A companhia registrou lucro de R$ 52,4 bilhões no período, quase o dobro do registrado no segundo trimestre de 2025.

Esse é o terceiro maior resultado trimestral nominal de sua história, mas apesar do cenário, o diretor financeiro da Petrobras, Fernando Melgarejo, descartou a possibilidade da empresa distribuir dividendos extraordinários.

Para esse ano, Melgarejo afirmou que a empresa pretende usar a geração de caixa adicional para priorizar investimentos, em especial a antecipação de plataformas de produção, bem como a redução de dívida bruta para a casa de US$ 65 bilhões. Atualmente a dívida da Petrobras está em US$ 70,8 bilhões.

Acompanhe as redes sociais de O Brasilianista