A Polícia Federal investiga uma suposta organização criminosa que teria atuado no alto escalão do Maranhão e que, segundo os documentos citados nas decisões do Supremo Tribunal Federal, envolveria suspeitas de desvio de recursos públicos, corrupção, obstrução da Justiça e relações com o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho Pereira, em 2022.
O governador Carlos Brandão (MDB) aparece entre os investigados e é apontado pela PF, como possível líder do grupo, mas nega as acusações e afirma ser alvo de perseguição política.
Depoimento de condenado é uma das principais peças
Gilbson César Soares Cutrim Júnior, condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato de João Bosco, entregou à Polícia Federal materiais que, segundo sua defesa, podem ajudar a comprovar as acusações contra integrantes do grupo político ligado a Brandão.
Entre os itens estão uma relação manuscrita de processos, uma fotografia de um veículo e a imagem de uma etiqueta que teria acompanhado dinheiro em espécie.
O relato de Gilbson também envolve supostos pagamentos para manter sua família em silêncio sobre o caso.
Conforme a defesa apresentada à PF, teria sido oferecido ao condenado um pagamento mensal de R$ 30 mil, mas apenas R$ 15 mil teriam chegado à família.
A entrega, segundo o depoimento, ocorreria por meio de um motorista ligado a Marcus Brandão, irmão do governador.
A defesa de Gilbson entregou ainda uma fotografia da etiqueta que, segundo a família, acompanhava um maço de dinheiro.
A intenção seria permitir que os investigadores identificassem a agência bancária responsável pelo saque e, posteriormente, chegassem à origem dos recursos.
O material também inclui registros de contatos telefônicos e um recibo relacionado ao pagamento feito pela empresa que teria dado origem à disputa que terminou no homicídio.
Esses elementos foram apresentados pela defesa do condenado como parte da documentação que pode ser analisada pelos investigadores.
O que a PF apura sobre os contratos públicos
De acordo com O Brasilianista, a investigação da Polícia Federal apura uma estrutura que teria atuado na liberação de recursos públicos e no pagamento de débitos administrativos a empresas privadas.
O foco, segundo os documentos citados pela publicação, estaria em empresas com valores superiores a R$ 5 milhões a receber de governos anteriores.
A suspeita descrita nos relatórios é que os pagamentos seriam negociados mediante a devolução de parte dos valores recebidos.
Gilbson teria atuado na localização de empresas com créditos e na circulação de documentos e recursos entre pessoas ligadas aos núcleos empresarial e político.
Uma relação de processos entregue à PF aparece como um dos elementos que, segundo a defesa de Gilbson, ajudariam a demonstrar essa dinâmica.
A documentação teria sido utilizada para identificar empresas que possuíam valores a receber e que poderiam entrar nas negociações investigadas.
A mesma apuração cita a empresa Gás do Sertão Limitada, que tinha Daniel Brandão no quadro societário.
Órgãos de controle identificaram movimentações próximas de R$ 20 milhões relacionadas à empresa entre 2019 e 2023, classificadas como suspeitas.
O assassinato de João Bosco
A investigação sobre os contratos públicos passou a se relacionar diretamente ao assassinato de João Bosco.
Gilbson foi condenado pelo homicídio ocorrido em agosto de 2022, mas a Polícia Federal posteriormente passou a investigar a possibilidade de que o crime tivesse relação com uma disputa envolvendo o rateio de propinas.
Daniel Brandão, sobrinho do governador e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão, estava presente na reunião que antecedeu o assassinato, conforme os elementos apresentados pela investigação.
Flávio Dino determinou o afastamento de Daniel do TCE-MA por 180 dias em razão das suspeitas.
A versão apresentada pela Polícia Federal é diferente da conclusão inicial da Polícia Civil do Maranhão.
Na primeira investigação, o assassinato foi tratado como resultado de uma questão pessoal.
Posteriormente, a PF passou a relacionar o homicídio a uma possível disputa envolvendo valores provenientes de contratos públicos.
O relatório citado por O Brasilianista afirma que Daniel teria participado da reunião no local do crime e deixado o ambiente pouco antes dos disparos. A
publicação também relata que a PF investiga se imagens de câmeras de segurança desapareceram durante a tramitação da investigação inicial.
Pagamentos e tentativa de interferência também são investigados
Segundo O Brasilianista, a PF identificou relatos de pagamentos em dinheiro a familiares de Gilbson.
Em uma das situações descritas, Raimundo Soares Cutrim teria entregue R$ 160 mil em espécie, divididos em parcelas de R$ 80 mil, R$ 50 mil e R$ 30 mil.
A investigação também cita pagamentos posteriores de R$ 10 mil, R$ 12 mil e R$ 4 mil.
Conforme os documentos apresentados pela publicação, parte desses recursos teria sido destinada à família do condenado e parte teria servido para custear despesas.
Outro ponto investigado envolve supostas tentativas de alterar versões apresentadas à Justiça.
De acordo com os elementos descritos no relatório, Raimundo Cutrim teria conversado com familiares de Gilbson e sugerido uma versão alternativa para afastar a participação de Daniel Brandão.
A Polícia Federal também investiga possíveis interferências na própria apuração. O Brasilianista menciona a atuação de um agente da PF, Edvar Rodrigues dos Santos, que teria tido acesso a informações sigilosas e mantido contatos com pessoas ligadas ao caso. O agente foi alvo de medidas cautelares.
Brandão nega as acusações
A defesa de Carlos Brandão contesta as acusações e afirma que os elementos divulgados até agora não comprovam os crimes atribuídos ao governador.
Em manifestação citada pelo O Brasilianista, Brandão também questionou a competência do Supremo Tribunal Federal para conduzir a investigação.
O governador afirmou que sua defesa ainda não teve acesso à integralidade dos autos do inquérito.
Ele também disse que as acusações surgiram após o rompimento político entre grupos que anteriormente mantinham uma relação de proximidade.
Brandão classificou como revoltante a possibilidade de seu nome ser associado à liderança de uma organização criminosa.
O governador também questionou a credibilidade do depoimento de Gilbson, lembrando que ele foi condenado por homicídio e mudou sua versão sobre os fatos.
Brandão declarou ainda que não existe, até o momento, uma prova que sustente as acusações apresentadas contra ele. A
defesa também destacou que a Procuradoria-Geral da República teria questionado a competência do STF para conduzir o caso.
Daniel Brandão também contesta suspeitas
Daniel Brandão, sobrinho do governador e presidente afastado do TCE-MA, também nega envolvimento nos crimes investigados.
Conforme O Brasilianista, ele afirmou ter “absoluta inocência” e declarou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
A defesa de Daniel sustenta que ele deve exercer seu direito de defesa e afirma que as acusações contra ele não correspondem aos fatos.
O afastamento, assim como as demais medidas cautelares mencionadas no caso, ocorre durante a investigação e não representa condenação.
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