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Justiça

PF investiga se governador do Maranhão lidera organização criminosa

Apuração mostra rede de influência que envolve o Senado e até o Superior Tribunal de Justiça

PF investiga se governador do Maranhão lidera organização criminosa

A Polícia Federal (PF) investiga uma organização criminosa no alto escalão do poder no Maranhão. Esse grupo seria integrado pelo governador do Maranhão, Carlos Brandão, que nega as acusações e diz ser alvo de perseguição política.

As informações constam de trechos de relatórios da Polícia Federal citados em decisões do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgadas nesta sexta-feira (14).

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Segundo a PF, a atuação do grupo com manipulação de liberações de verbas públicas e pagamento de débitos administrativos resultou em homicídio, chantagens, vazamentos de operações policiais e tentativas sistemáticas de obstrução da Justiça que incluíram até um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A rede de blindagem

A atuação do grupo não se encerrou com a consumação dos crimes de corrupção ou com o homicídio decorrente da divisão de propinas. Operadores e interlocutores da cúpula política maranhense mantiveram-se ativos para blindar os reais comandantes do esquema.

Nesse cenário de contrainteligência, destaca-se a atuação de Raimundo Soares Cutrim, ex-parlamentar nomeado em janeiro de 2025 para o cargo de Secretário de Estado de Assuntos Legislativos do Maranhão.

Apontado pela PF como interlocutor e operador da família de Carlos Brandão, Raimundo Cutrim atuava diretamente na entrega de dinheiro em espécie e na orientação para a alteração de depoimentos prestados por testemunhas e investigados à Polícia Federal.

Segundo depoimentos prestados à PF, Raimundo Cutrim operava repasses financeiros a familiares de Gilbson César Soares Cutrim Júnior — operador do esquema preso e condenado por homicídio.

Em sua residência no bairro Vinhais, em São Luís, Raimundo Cutrim entregou R$ 160 mil em espécie divididos em parcelas de R$ 80 mil, R$ 50 mil e R$ 30 mil, de acordo com a PF, que atribui a origem do dinheiro a Marcus Brandão.

Posterior e mensalmente, diz a Polícia Federal, Raimundo Cutrim fez novos pagamentos em dinheiro, nos valores de R$ 10 mil, R$ 12 mil e R$ 4 mil — este último para custear passagens aéreas.

Em encontros gravados e entregues aos investigadores, Raimundo Cutrim tentou induzir a família de Gilbson Junior a mudar a versão apresentada à Justiça.

A tese criada por Raimundo era a de que a esposa do investigado, Lorena Santos, declarasse ter agido em “estado de necessidade” por razões financeiras e que inventasse ter recebido quantias da oposição política para falsear os fatos e isentar Daniel Itapary Brandão, atual presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA).

Na conversa gravada, Raimundo Cutrim sugere os valores fictícios de R$ 300 mil e R$ 500 mil.

A teia de interferências alcançou inclusive as forças policiais. No âmbito local, a PF identificou a suposta atuação direcionada da Polícia Civil do Maranhão para omitir a presença de autoridades na cena de um assassinato.

Já na esfera federal, segundo a PF, o agente de Polícia Federal Edvar Rodrigues dos Santos infiltrou-se nas tratativas e passou a contactar presencial e telefonicamente o pai de Gilbson Junior.

O agente, sem qualquer vínculo formal com o inquérito sigiloso, utilizou informações internas para ameaçar os investigados e tentar demovê-los da postura colaborativa com o Supremo Tribunal Federal.

Reunião fatal

A investigação aponta que a organização criminosa mantinha um critério bem definido para selecionar pagamentos de débitos dos cofres públicos maranhenses a empresas privadas.

O foco principal eram credores com valores superiores a R$ 5 milhões — incluindo dívidas públicas já prescritas —, pois montantes elevados viabilizavam a inclusão de margens de propina proporcionalmente maiores no fluxo das liberações ilícitas. Entre as empresas beneficiadas e utilizadas na engrenagem está a S. H. Vigilância e Segurança EIRELI.

Gilbson Cutrim Junior exercia papel operacional nessa engrenagem, fazendo circular expedientes e valores em espécie entre os núcleos empresariais e políticos, mantendo interlocução direta com Daniel Itapary Brandão e com o próprio governador Carlos Brandão.

A divisão e a execução das vantagens indevidas geraram um ambiente de forte tensão interna entre os membros do grupo, decorrente da suspeita de que Gilbson Junior estaria, segundo a PF, retendo parte da propina paga pelas empresas intermediadas sem repassar a fatia devida aos demais componentes do esquema.

Essa disputa culminou no encontro de 19 de agosto de 2022, na loja Empório Fribal, na Ponta D’Areia, em São Luís, diz a PF, quando reuniram-se Daniel Itapary Brandão, à época no núcleo do governo e posterior presidente do TCE-MA; João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira; Werberth Macedo Castro, conhecido como Beto Castro, e Gilbson César Soares Cutrim Júnior.

A discussão sobre o rateio dos valores desviados elevou-se a tom de cobranças e ameaças. De acordo com a PF, Daniel Brandão permaneceu durante toda a fase inicial da acareação e retirou-se do local momentos antes de Gilbson Junior sacar uma arma e disparar contra João Bosco, matando-o.

Nos desdobramentos imediatos ao crime, a apuração conduzida pela Polícia Civil do Maranhão tratou o homicídio como uma mera desavença privada, omitindo deliberadamente das peças formais a presença de Daniel Brandão na mesa.

Mídias contendo imagens das câmeras de segurança do estabelecimento comercial desapareceram no trânsito burocrático entre a delegacia de homicídios e o Instituto de Criminalística local.

Diz a PF que, enquanto Gilbson Junior estava custodiado, Daniel Brandão e Marcus Brandão prometeram-lhe suporte financeiro contínuo, a cessão de um imóvel residencial e a concessão de cargos de assessoria na Assembleia Legislativa do Maranhão em troca de uma contrapartida rígida: silêncio absoluto sobre a presença de agentes públicos no local do crime e sobre o esquema de corrupção.

Ingerência política no STJ

Análises dos dados encontrados no celular do senador Weverton Rocha revelaram uma rotina de comunicações diretas, trocas de mensagens, áudios e reuniões presenciais com o ministro Humberto Martins, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Os contatos coincidiram com momentos decisivos dos procedimentos investigativos.

Em 2 de junho de 2025, após trocas de mensagens e ligações entre o senador e o ministro, foi efetivada a transferência de Gilbson Cutrim Junior do Complexo de Pedrinhas, no Maranhão, para o sistema prisional federal em Brasília. Reportagens e conversas de bastidores indicaram que a articulação visava paralisar as apurações mediante pagamentos efetuados pela família Brandão.

Esses fatos fizeram com que Flávio Dino decretasse a prisão preventiva de Raimundo Soares Cutrim, convertida em prisão domiciliar com monitoramento por tornozeleira eletrônica em virtude de o investigado possuir mais de 70 anos de idade. A decisão determinou ainda:

  • O afastamento imediato de Raimundo Cutrim do cargo de Secretário de Estado de Assuntos Legislativos;
  • A proibição absoluta de conceder entrevistas, acessar redes sociais ou manter contato com outros investigados;
  • Mandados de busca e apreensão pessoal e domiciliar, com ordem para retenção de armas de fogo, dispositivos eletrônicos e valores em espécie superiores a R$ 10 mil;
  • O afastamento cautelar do agente de Polícia Federal Edvar Rodrigues dos Santos de suas funções;
  • A quebra de sigilo telemático e o levantamento de registros pretéritos de localização (ERBs) dos envolvidos.

O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.